quarta-feira, 27 de julho de 2016

Conversa com os empresários do setor de estacionamento de veículos de passeio

As minhas conversas com os empreendedores são sempre estimulantes. Existe um claro movimento de rever os parâmetros básicos dos negócios em função das novas tecnologias. Muitos pequenos empresários estão buscando caminhos para superar as dificuldades causadas pela recessão brasileira.

O negócio estacionamento de veículos de passeio vem atravessando um nível maior de dificuldade por causa das restrições para a circulação de veículos. O domingo sempre foi um dia de bom faturamento para os estacionamentos, mas o fechamento de ruas e avenidas está impactando negativamente o negócio. O crescimento do compartilhamento da mobilidade (por exemplo, UBER) esta restringindo as receitas do segmento.

Nas conversas com os empreendedores eu sugeri que eles resolvessem o problema de perdas e fraudes com a tecnologia Big Data. Com base nos registros do caixa e nas fotos das placas do carro na entrada e saída do estacionamento é possível identificar as perdas e fraudes. Com a sua identificação o empresário pode atuar na eliminação das mesmas. A tecnologia Big Data oferece uma solução simples para um problema que vem atormentado a vida dos empresários por décadas. Com a eliminação das perdas e fraudes o empreendedor pode usar os registros do caixa para identificar as oportunidades de novos negócios. Ele pode associar os registros com o estado de limpeza do veículo, clima (chuva) dia anterior, atual e previsão futura, quantidade de pessoas dentro do carro, quantidade de crianças, quantidade de homens e mulheres e etc.

Com isto é possível a frequência dos clientes, dias, horários e o estacionamento pode oferecer serviços de limpeza e lavagem dos carros (quem sempre está com o carro limpo provavelmente vai se interessar), ou mimos como brinquedos, revistas e livros para as crianças para fidelizar o cliente, ou serviço de creche para mães que vão fazer compras nas proximidades, ou de lanchonete e sorvetes especiais ou não (o tipo e limpeza do carro revela padrão sócio econômico do proprietário) ou salão de jogos (digitais ou não) para quem vai no médico nas proximidades e o acompanhante só vai aguardar o seu retorno. Existe uma grande gama de oportunidades que os estacionamentos podem explorar apenas conhecendo melhor os seus clientes.


Com a tecnologia Big Data é possível que o estacionamento ofereça um adicional extra de segurança para o proprietário do veículo.  Ao registrar a foto do rosto ou corpo do cliente é possível que na troca de turno dos funcionários, a nova equipe seja informada pelo sistema da verificação do proprietário e só depois da verificação permita que ele entre no estacionamento. Os clientes terão maior sensação de segurança com este procedimento. As possibilidades de inovação são infinitas.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Oportunidades perdidas na copa de 2014 e nas olimpíadas de 2016

Foi revelado que o estudo afirmou que a Copa do Mundo de 2014 no Brasil vai gerar arrecadação tributária adicional de R$ 18,13 bilhões.
Fonte: Estudo da FGV sobre benefícios da Copa não passa de propaganda enganosa, http://www.jornalopcao.com.br/posts/reportagens/estudo-da-fgv-sobre-beneficios-da-copa-nao-passa-de-propaganda-enganosa, acessado em 25/07/2016.

Foi afirmado que o cenário de referência adotado neste estudo vai produzir um efeito cascata surpreendente nos investimentos realizados no País.
Fonte: Brasil Sustentável: Impactos Socio­econômicos da Copa do Mundo 2014, http://fgvprojetos.fgv.br/sites/fgvprojetos.fgv.br/files/estudo_9.pdf, acessado em 25/07/2016.

O Brasil conseguiu a proeza de ser o campeão mundial das oportunidades perdidas com os grandes eventos. Na copa de 2014 todos os sócios do empreendimento saíram com vultosos lucros (Copa-2014 gera receita acima do esperado e Fifa ganha R$ 18,6 bi, http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2015/03/20/copa-2014-gera-receita-acima-do-esperado-e-fifa-ganha-r-186-bi.htm, acessado em 25/07/2016). O único que saiu no prejuízo foi o Brasil (Após dois anos da Copa, estádios vivem crises financeiras e denúncias http://rodrigomattos.blogosfera.uol.com.br/2016/06/12/apos-dois-anos-da-copa-estadios-vivem-crises-financeiras-e-denuncias/, acessado em 25/07/2016) e).

Apesar das consultorias contratadas para analisar a viabilidade econômica da copa e olimpíadas (Estado da BA garante lucro de arena europeia para operador da Fonte Nova, http://viniciussegalla.blogosfera.uol.com.br/2013/09/19/estado-da-ba-garante-lucro-de-arena-europeia-para-operador-da-fonte-nova/, acessado em 25/07/2016) afirmarem sobre grandes lucros, legados, empregos e crescimento econômico o que vemos é o grande encolhimento. (Pós-Copa, hotéis demitem, fecham e viram até clínica médica, http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/07/1788022-pos-copa-hoteis-demitem-fecham-e-viram-ate-clinica-medica.shtml, acessado em 25/07/2016)

A falta de planejamento e preparação é uma constante nas atividades governamentais para a copa e olimpíadas. As afirmações do prefeito do Rio de Janeiro (Olimpíada é 'oportunidade perdida' para o Brasil, diz prefeito do Rio, http://www1.folha.uol.com.br/esporte/olimpiada-no-rio/2016/07/1790585-olimpiada-e-oportunidade-perdida-para-o-brasil-diz-prefeito-do-rio.shtml, acessado em 25/07/2016) sobre o planejamento e a segurança mostram o tamanho do atraso gerencial que enfrentamos. É impressionante que em quase dez anos de preparação nenhuma iniciativa pública tenha ocorrido no universo digital para estes dois grandes eventos.

Parece que a Internet, os Apps, as redes sociais não existem para o governo brasileiro. Em vez de incitar e estimular o empreendedorismo, foram escolhidos cantores conhecidos internacionalmente para a abertura da olimpíada (Caetano Veloso, Gilberto Gil e Anitta vão cantar na cerimônia de abertura da Rio-16, http://www1.folha.uol.com.br/esporte/olimpiada-no-rio/2016/07/1790325-rio-2016-confirma-anitta-caetano-veloso-e-gilberto-gil-na-abertura-dos-jogos.shtml, acessado em 25/07/2016). Deveria ter sido feito um grande concurso nacional via YouTube por exemplo para escolher os cantores.

Empregos teriam sido gerados, inovações teriam sido criadas e negócios exponenciais teriam nascido. O Brasil chega no grande evento e os seus chefes de cozinha, doceiros e etc. estão "escondidos" no território nacional. Os turistas não sabem onde encontra-los. Cadê o App que os revela para o mundo? Onde está a divulgação pela Embratur dos nossos chefes de cozinha? Enquanto os chefes de cozinha estrangeiros como o Buddy Valastro (Reality gastronômico decepciona, e Record fará relançamento, http://tvefamosos.uol.com.br/colunas/flavio-ricco/2016/07/11/reality-gastronomico-decepciona-e-record-fara-relancamento.htm, acessado em 25/07/2016) e o Jamie Oliver estão na televisão brasileira e nos acordos com os fabricantes de alimentos (Sadia lança linha de congelados 'saudável e gourmet' com Jamie Oliver, http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/06/1786071-sadia-lanca-linha-de-congelados-saudavel-e-gourmet-com-jamie-oliver.shtml, acessado em 25/07/2016), os brasileiros não tem espaço para divulgar as suas ofertas.


Para uma economia combalida como a brasileira é preciso um mínimo de planejamento para que o espírito animal dos empreendedores aparece durante as olimpíadas 2016. As falhas na estratégia para a música dos jogos Rio 2015, estão presentes também na comida e em diversos outros segmentos econômicos. Nada está sendo para que o belo artesanato regional produzido no norte e nordeste apareça para os turistas no Rio de Janeiro. O real legado que um grande evento gera é o crescimento econômico de longo prazo. O Brasil escolheu fazer uma festa para milionários paga com o dinheiro dos pobres. Não poderia existir escolha pior, mais injusta e desigual.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Negócios habilitados pelas Tecnologias

O ano de 2016 está sendo marcado pela grande quantidade de conversas com empreendedores e empresários. Os micros e pequenos empresários estão sempre me questionando sobre como as tecnologias digitais podem contribuir para o negócio deles de uma forma concreta. Como existem milhares de alternativas, eu resolvi escrever sobre duas tecnologias que estão no topo das agendas dos empreendedores. Basicamente todos sabem o que é a tecnologia Big Data, mas muitos não enxergam uma associação dela com o aumento do lucro. Muita gente acha que é assunto para peixe grande americano ou europeu.

A tecnologia Big Data pode ser aplicada até mesmo em uma pequena loja de café. Ela permite a análise dos registros do caixa e possibilita a identificação dos horários de maior e menor movimento da loja. É possível associar o movimento com o clima, período de férias, congressos, feiras e convenções nas proximidades, almoço das empresas nas proximidades e outras variáveis para entender as influências externas no movimento da loja. Com base nas informações da tecnologia Big Data é possível dimensionar a equipe e o estoque de alimentos em função do horário do dia. É uma mecânica que permite economizar os recursos pela eliminação da ociosidade nos horários de baixo movimento.

É evidente que a análise não pode ser feita apenas com os dados do passado, pois o ambiente é dinâmico. É preciso trabalhar em tempo real. Por causa disto é de fundamental importância estabelecer uma cadeia de fornecedores e funcionários capazes de reagir em tempo real para as necessidades. Não dá para extrair as vantagens da tecnologia trabalhando como um lobo solitário. É preciso que os fornecedores de suprimentos, alimentos e mão de obra também acompanhem em tempo real o comportamento do mercado e compartilhem as informações com toda a rede. Só com uma rede integrada é que a tecnologia vai oferecer ganhos reais para os empresários.

Na hora de selecionar os fornecedores de suprimentos, alimentos e mão de obra é preciso mudar de postura empresarial e olhar outros aspectos além do preço. A tecnologia Big Data é capaz de reduzir os custos operacionais da loja de café, no entanto, é incapaz de aumentar o faturamento. Por causa disto é importante complementar a solução com outra tecnologia. A Realidade Aumentada (RA) ganhou notoriedade com o jogo Pokémon Go. Certamente, nos próximos meses vão aparecer diversos jogos semelhantes. Um jogo baseado na realidade aumentada com Global Positioning System (GPS) é capaz de aumentar o movimento da loja de café de forma consistente.


Basta um acordo entre a loja e o desenvolvedor do jogo para fazer com que os ovos ou prêmios apareçam na loja nos horários de baixo movimento para atrair as pessoas no estabelecimento comercial. Com o aumento da frequência fica fácil oferecer os produtos e aumentar as vendas. Estamos vivendo um momento em que as tecnologias funcionam como chaves habilitadoras de novos negócios. Os empresários precisam entender o funcionamento das soluções digitais para explorar as suas potencialidades a favor do seu empreendimento.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Mais um bloqueio do WhatsApp

Na véspera do início dos jogos olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, o Brasil resolveu bater o seu recorde de bloqueios de um mesmo App. Os motivos alegados pelos juízes são cada vez mais bizarros. Desta vez o bloqueio não durou sequer 24 horas.

Foi afirmado que a operação, com nome "Hashtag" monitorou os suspeitos pela internet, via WhatsApp e Telegram.
Fonte: PF prende grupo que preparava atos de terrorismo na Olimpíada, http://olimpiadas.uol.com.br/noticias/redacao/2016/07/21/pf-prende-grupo-que-preparava-atos-de-terrorismo-diz-agencia.htm, acessado em 21/07/2016.

A juíza que mandou bloquear o WhatsApp justificou a sua ação dizendo que eles não desabilitaram a criptografia do aplicativo para que o fluxo de mensagens fosse enviado em tempo real para os investigadores e as conversas dos suspeitos fossem monitoradas. O artigo “Juíza que mandou bloquear WhatsApp se irritou com resposta em inglês” (http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/07/1793201-juiza-que-mandou-bloquear-whatsapp-se-irritou-com-resposta-em-ingles.shtml, acessado em 21/07/2016) afirmou que a juíza ficou irritada com o e-mail resposta da empresa americana WhatsApp escrito na língua pátria dos americanos.

Existem mistérios no caso. O que chama muita atenção é o foco apenas no WhatsApp. Foi afirmado que é comum a interceptação telefônica flagrar um suspeito dizer ao outro para tratarem determinado assunto no WhatsApp (Sem rastreio, WhatsApp 'dá mais força para quem descumpre a lei', diz juíza, http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/07/1793389-liberacao-do-whatsapp-da-mais-forca-para-quem-descumpre-a-lei-diz-juiza.shtml, acessado em 21/07/2016). Será que o crime organizado brasileiro não usa o Skype ou Telegram por exemplo? Será que não estamos diante do dilema da marca WhatsApp que é algo comum no Brasil? (O dilema da marca ocorre quando uma marca é confundida com o produto, ou seja, Gillete virou sinônimo de lamina de barbear, Bombril de palha de aço, Xerox de fotocópia, WhatsApp é sinônimo de programa de comunicação)

Os artigos “Mesmo com criptografia, WhatsApp e Telegram podem ser espiados facilmente” (http://www.tecmundo.com.br/whatsapp/105562-mesmo-criptografia-whatsapp-telegram-espiados-facilmente.htm. Acessado em 21/07/2016) e “Telegram: "Se você não confia na gente, use os chats secretos"” (http://artigos.softonic.com.br/telegram-se-voce-nao-confia-use-chats-secretos, acessado em 21/07/2016) revelam que os dois Apps têm estrutura de segurança semelhantes e nos dois casos existem fragilidades de segurança que podem ser exploradas.

Como a juíza pode afirmar que todas as comunicações futuras dos criminosos ocorrerão através do WhatsApp? É uma conclusão realmente impressionante. Será que o comando vermelho ou PCC ordenaram que só aceitam mensagens trocadas pelo WhatsApp? Será que a juíza sabe que as vulnerabilidades do protocolo Signaling System nº 7 (SS7) permitem que os investigadores clonem o número telefônico alvo?

Existe uma evidente fragilidade na solução proposta pela juíza brasileira para combater o crime. A juíza afirmou que as operadoras de telecomunicações brasileiras cooperam com a justiça nacional e facilitam a interceptação das comunicações. Se isto é verdade então a justiça brasileira pode monitorar o tráfego de dados dos celulares e ela quebrar a criptografia existente no App WhatsApp.

Foi afirmado que o FBI pagou pela ajuda de hackers profissionais para acessar o iPhone utilizado pelo autor do massacre na cidade californiana de San Bernardino (“FBI pagou hackers profissionais para acessar iPhone de autor de massacre”, http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2016/04/12/fbi-pagou-hackers-profissionais-para-acessar-iphone-de-autor-de-massacre.htm, acessado em 21/07/2016). A recusa da Apple de ajudar o governo dos Estados Unidos não gerou bloqueio da Apple. Nas democracias as pendências constitucionais são resolvidas pelo Supremo Tribunal Federal. Só aí é que bloqueios que impactam a vida econômica de milhões de cidadãos são realizados.

No Brasil o atraso impede que a democracia plena faça parte do cotidiano dos brasileiros. Alguns depoimentos de juristas famosos mostram o tamanho do atraso nacional. O WhatsApp não é um serviço oferecido no Brasil. Não existem ofertas ou convites do WhatsApp para que os brasileiros instalem e usem o App. O WhatsApp é um serviço com sede nos Estados Unidos que pode ser acessado por todas as pessoas através de uma conexão de internet.

São os brasileiros que estão indo virtualmente aos Estados Unidos para instalaram e usarem o App. Na Internet existem milhões de serviços digitais que foram desenvolvidos para serem ofertados apenas nos países onde os servidores estão hospedados. No Brasil os internautas têm acesso a todos estes serviços digitais. Isto não significa que estes empreendedores estão oferecendo estes serviços para os brasileiros.

Ter acesso no Brasil a um serviço através da Internet é muito diferente do que ter um serviço ofertado no Brasil. Apenas quando a empresa WhatsApp que não é a empresa Facebook estabelecer uma sede no território brasileiro e oferecer serviços aos brasileiros é que os serviços oferecidos no Brasil pela WhatsApp deverão seguir a lei brasileira. Enquanto a WhatsApp e outros milhões de empresas decidem se vão estabelecer operação empresarial no Brasil a justiça brasileira deve ter clareza no entendimento de que o mero fato de ser possível o acesso a um serviço digital internacional no Brasil isto não significa que este serviço esteja sendo ofertado aos brasileiros e, portanto, que os fornecedores estejam sujeitos as leis brasileiras. Já passou da hora de melhorar o entendimento da diferença que existe entre o acesso a um serviço digital disponível através da Internet e a oferta de um serviço digital no Brasil. Precisamos urgentemente superar o atraso intelectual.

Alguns partidários do atraso intelectual buscam dourar a pílula do impacto do bloqueio do WhatsApp executando uma matemática econômica simplificada. O artigo “Além de tudo, poderia ter custado R$ 206 milhões à economia brasileira” (http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2255, acessado em 21/07/2016) é um exemplo clássico da simplificação que gera equívoco. A causa da liberdade de expressão precisa ser sustentada pela retidão dos argumentos. No artigo, foram estimadas as perdas financeiras do bloqueio do WhatsApp. A solução adotada para calcular as perdas é bastante criativa, mas infelizmente é falaciosa.

O WhatsApp foi bloqueado, mas as pessoas tinham à sua disposição várias outras ferramentas de comunicação como o Skype, Telegram, SMS e ligações de voz. Isto significa que as perdas causadas pelo bloqueio do WhatsApp não estão relacionadas com a impossibilidade de comunicação. As perdas estão relacionadas com o custo da troca da ferramenta de comunicação. Por exemplo se a solução de comunicação para o bloqueio do WhatsApp for uma chamada de voz de celular pré-pago, o custo da comunicação sai do praticamente zero do WhatsApp para cerca de R$ 1 do minuto de pré-pago de ligação local.


Vários negócios ficam inviabilizados com esta estrutura de custos e serão encerrados se este for o novo normal dos custos de comunicação. Quando olhamos o tamanho das micros e pequenas empresas no emprego fica claro que se elas forem inviabilizadas pelo bloqueio do WhatsApp o impacto no emprego nacional será gigantesco.  Desemprego em massa em um país em recessão gera perdas de arrecadação e desequilíbrio fiscal. As perdas potenciais podem superar 1% do PIB. É muita coisa para ser decidido isoladamente por um juiz. 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

O futuro do emprego: Vencedores e Perdedores

Emprego na Quarta Revolução Industrial (QRI)

O Cezar Taurion e outros evangelizadores de governança de Tecnologia de Informações e Comunicações apresentaram os seguintes números sobre o emprego.

Foi revelado que em 1990 as três maiores montadoras de automotivas tinham valor de mercado de US$ 36 bilhões com faturamento anual de 250 bilhões de dólares e empregavam 1,2 milhão de pessoas. As três maiores empresas do Vale do Silício tinham um valor de mercado em 2014 de 1 trilhão de dólares com faturamento anual de aproximadamente 250 bilhões de dólares e empregavam apenas cerca de 140 mil funcionários.
Fonte: A realidade já é exponencial, http://cio.com.br/opiniao/2016/02/29/a-realidade-ja-e-exponencial/, acessado em 08/06/2016

Foi revelado que a probabilidade média de ter o trabalho automatizado é de 31% para quem recebe entre US$ 20 e US$ 40 por hora. Para quem recebe US$ 20 por hora a probabilidade sobre para 83%.
Fonte: Robôs também deverão roubar os empregos mais bem pagos, prevê EUA, http://idgnow.com.br/ti-corporativa/2016/02/24/robos-tambem-deverao-roubar-os-empregos-mais-bem-pagos-preve-eua/, acessado em 08/06/2016

Foi revelado que o estudo “The Future of Employment: How susceptible are Jobs to Computerisation?”, estimou que 47% dos atuais empregos nos Estados Unidos. As profissões de motoristas de caminhões, táxis e ônibus, estagiários de advocacia, jornalistas, auditores, desenvolvedores de software, administradores de sistemas de computação e etc. estão ameaçadas.
Fonte: Quarta Revolução Industrial aniquilará milhões de empregos, inclusive o seu, http://computerworld.com.br/quarta-revolucao-industrial-aniquilara-milhoes-de-empregos-inclusive-o-seu, acessado em 08/06/2016.
Foi afirmado que aproximadamente 30% das auditorias corporativas serão realizadas por sistemas inteligentes em vez de por auditores humanos.
Fonte: É hora de olhar para 2025 e para os pontos de inflexão da sociedade digital, http://cio.com.br/opiniao/2016/02/15/e-hora-de-olhar-para-2025-e-para-os-pontos-de-inflexao-da-sociedade-digital/, acessado em 08/06/2016.

Foi revelado que o artigo “Do We Need Doctors or Algorithms?” afirmou que os sistemas inteligentes e robôs substituirão 80% dos médicos americanos. Também foi revelado que o artigo “Armies of Expensive Lawyers, Replaced by Cheaper Software" estimou que serão necessários menos advogados, pois as funções de fazer buscas nos documentos ou analisar casos similares serão feitas por algoritmos. Também foi revelado que algumas reportagens financeiras foram escritas por robôs como afirmado no artigo “AP´s “robot journalists” are writing their own stories now". Também foi revelado que as funções de Programming by Optimisation e depuração automática de código poderão ser automatizadas.
Fonte: Alerta em Davos: A Quarta Revolução Industrial já chegou, http://cio.com.br/opiniao/2016/01/25/a-quarta-revolucao-industrial-ja-chegou/, acessado em 08/06/2016.

Foi revelado que a otimização do uso de tecnologias e competências digitais pode injetar US$ 2 trilhões na produção econômica mundial até 2020. Também foi revelado que um aumento de 10 pontos na densidade digital resultaria em um aumento de US$ 368 bilhões no PIB de 2020 dos Estados Unidos (1,8% acima que as previsões atuais).
Fonte: Digital pode injetar US$ 2 trilhões na economia global até 2020, http://computerworld.com.br/digital-pode-injetar-us-2-trilhoes-na-economia-global-ate-2020, acessado em 08/06/2016.

São números eloquentes, mas eles não são suficientes para explicar o fenômeno do emprego na QRI. O autor Jeremy Rifikin apresentou no livro “Sociedade com Custo Marginal Zero” apresentou números que somados aos revelados anteriormente são capazes de explicar as mudanças nos empregos.

Foi afirmado que a venda de robôs aumentou 43% nos Estados Unidos e na Europa em 2011 (página 151).
Foi afirmado que o novo sistema automatizado se for bem-sucedido vai eliminar 50 mil empregos para produzir uniformes militares (páginas 151 e 152).
Foi afirmado que o emprego nas fabricas respondia por 163 milhões de postos de trabalha em 2003 deverá encolher para alguns milhões em 2040 (pagina 152).
Foi afirmado que existem atualmente 2,7 milhões de caminhoneiros nos Estados Unidos e que em 2040 os veículos sem motorista podem eliminar grande parte dos caminhoneiros (pagina 153).
Foi afirmado que com o novo software de busca (família e-discovery) um único advogado pode fazer o trabalho de 500 colegas com maior precisão (pagina 157).
Foi afirmado que trabalhadores do conhecimento como radiologistas, contadores, gerentes, designers gráficos e profissionais de marketing estão com os seus empregos ameaçados por causa dos softwares de reconhecimento de padrões (pagina 157).
Foi afirmado que um software compara a estrutura de uma música com as músicas já gravadas e avalia o seu potencial para chegar no topo da parada (pagina 157).
Foi afirmado que um software avalia os roteiros de filmes para prever os sucessos de bilheteria da indústria cinematográfica (página 157).

Não é difícil perceber que a revolução dos sensores está alterando à lógica do emprego e do perfil profissional. Atividades de marketing auditoria saúde e etc. vão ser realizadas por computadores até o ano de 2020. É evidente que vários perfis profissionais vão ser eliminados do mercado em um prazo razoavelmente curto. Apesar do aspecto negativo, o fenômeno do emprego é positivo. Empregos ligados aos aspectos mais intelectuais do ser humano vão ser criados em grande quantidade. As pessoas vão poder usar as suas melhores potencialidades nas suas atividades profissionais. Um exemplo bem simples desta mudança será visto com a popularização das impressoras 3D. Um designar de cadeira vai poder oferecer o seu trabalho para o mundo todo. Se a sua economia local está degringolando em uma depressão como a brasileira, o profissional será menos afetado. Com a internet ele pode exportar o seu conhecimento para países em crescimento e com alta demanda. Este mesmo profissional poderá formar cadeias produtivas ao se associar a um engenheiro para desenvolver cadeiras mais resistentes com design inovador.

As redes sociais vão cada vez mais abrir espaços para que os talentos da era do conhecimento criem estruturas virtuais para concorrer em condições de igualdade com fabricantes locais. Olhando para o outro lado da moeda é possível também desmentir nesta revolução que as lojas e os vendedores físicos estão condenados à extinção. Certamente teremos impactos como consequência da indústria abrir lojas virtuais para a comercialização dos seus produtos. No entanto, as lojas generalistas físicas não estão fadadas à falência. Será cada vez maior a tendência das pessoas experimentarem os produtos nas lojas físicas e comprarem nas lojas virtuais.

Um dos motivos desta tendência é o menor preço das lojas virtuais para o mesmo produto. Alguns comércios físicos estão reagindo ao oferecer a compra do produto na loja virtual e a sua entrega na loja física. Em pouco tempo o mercado vai estabelecer um ponto de equilíbrio onde o preço na loja física será o mesmo da loja virtual. É claro que tal solução não resolve todos os problemas, pois existirá igualdade de preços apenas entre os produtos iguais de uma mesma loja virtual e presencial.

O vendedor da loja presencial que utiliza apenas o estratagema de oferecer descontos para convencer os consumidores, vai perder espaço neste novo mundo. Ele vai precisar fazer mais do que um algoritmo digital e demonstrar paixão pelos produtos que vende. Muitas vezes o vendedor terá que comparar produtos semelhantes, explicar objetivamente as diferenças de preços e até mesmo falar das suas preferências pessoais com honestidade. Estes aspectos vão diferenciar os vendedores das lojas presenciais dos algoritmos das lojas físicas.

A concorrência entre as lojas dos fabricantes e as do varejo vai acontecer na comparação entre os produtos e na inteligência do vendedor. Quanto maior for a sua capacidade de escutar o seu cliente e respectivos influenciadores maior será a capacidade profissional do vendedor e a sua diferenciação. Existem pessoas que são influenciadas por amigos e parentes na sua decisão de compra. Muitas levam os seus influenciadores nas suas compras. Os algoritmos das lojas virtuais ainda não conseguem capturar estes casos, por isto, os vendedores preparados das lojas presenciais têm esta vantagem a seu favor.

Na área da saúde, muitos empregos também vão mudar de perfil. Os algoritmos da computação cognitiva são uma importante ferramenta para os médicos. A computação cognitiva pode comparar milhares de casos similares em segundos e entregar um relatório navegável ao profissional de saúde. Os médicos podem analisar as informações, fazer comparações e gerar hipóteses que podem ser pesquisadas pelos computadores. A interação dinâmica e amigável em diversas interfaces permite que o médico faça uma pesquisa complexa em alguns minutos e ofereça diagnóstico e opção de tratamento com enorme precisão. O acompanhamento em tempo real do tratamento e da evolução do paciente permite que o médico ajuste os procedimentos conforme as reações individuais do paciente.

O sistema de saúde aumenta o seu nível de integração com a computação cognitiva pois o controle de estoque (medicamentos e insumos hospitalares) e de solicitações são realizados e acompanhados em tempo real. A efetividade do sistema aumenta enormemente e os custos podem ser reduzidos dramaticamente. A integração dos algoritmos entre todos os membros da cadeia produtiva com projeções preditivas da demanda futura de curto, médio e longo prazo melhora a logística e reduz o tempo de permanência dos pacientes nos estabelecimentos de saúde.

A união da computação cognitiva com os sistemas de hospedagem dos hospitais e instituições similares permite um melhor planejamento até mesmo das emergências inesperadas. É possível distribuir os pacientes conforme a disponibilidade em tempo real do sistema e prever rapidamente a capacidade de curto prazo. A computação cognitiva vai poder informar os atendentes de campo como policiais, paramédicos, bombeiros, defesa civil e etc. o melhor local para levar os acidentados em tempo real e em conformidade com o diagnóstico inicial do paciente. Tudo isto será feito para que as pessoas sejam atendidas no menor tempo possível conforme a sua necessidade de cuidados. A logística de transporte e de intervenções nos sinais de trânsito são dois dos aspectos considerados nos algoritmos.

É fácil perceber que o momento de transição que estamos vivenciando vai tornar várias profissões redundantes até o ano de 2020. Muitos empregos sumirão e muitas atividades que até agora eram realizadas por seres humanos serão realizadas por maquinas nos próximos dez anos. Estas projeções não devem ser motivo de desespero, pois muitos empregos novos serão criados pelas tecnologias entrantes. No entanto, estes empregos exigem um perfil diferente. É preciso estar preparado para a nova década.

A Era da Máquinas Inteligentes

Thomas Hayes Davenport e Julia Kirby autores do livro "Only Humans Need Apply: Winners and Losers in the Age of Smart Machines" afirmaram que o trabalho realizado pelas máquinas inteligentes pode aumentar em vez de diminuir o mercado de trabalho para o ser humano. Muitas pessoas entendem que a Quarta Revolução Industrial vai gerar um nível elevado de desemprego. É preciso entender que as máquinas inteligentes vão mudar o estilo de vida das pessoas.

A Suíça votou uma lei para garantir um nível mínimo de renda para todos os seus cidadãos (no domingo dia 05/06/2016 os eleitores suíços rejeitaram a Renda de Base Incondicional (RBI) para toda a população). Neste novo contexto de 2026, as pessoas vão poder trabalhar fazendo o que elas gostam. Muitos estarão trabalhando em atividades onde é difícil conquistar uma renda de sobrevivência segundo os parâmetros vigentes em 2016. Eles serão artistas, escritores e etc. e vão beneficiar a sociedade e oferecer um conhecimento que até agora estava aprisionado dentro da cabeça das pessoas. O sistema de renda mínima pode ser muito mais barato que os atuais sistemas de aposentadoria pela ampliação do conhecimento da sociedade.

É evidente que as escolas e estudantes também terão que se adaptar para este novo mundo. Apesar da atual aparência de elevado grau de empregabilidade futura, muitas das atividades profissionais relacionadas com o big data e análise analítica poderão ser automatizadas e realizadas por máquinas. Em tempos de mudanças é preciso trabalhar as incertezas e explicitar que várias atividades profissionais realizadas pelos formados em ciência dos dados estão ameaçadas pelas máquinas inteligentes. Elas podem desenvolver modelos quantitativos mais rapidamente e em muitos casos melhores que os seres humanos.

É preciso ser realista com a nova formatação do mundo e do emprego. Estar na frente de batalha contra as máquinas não é uma boa escolha para a sua carreira profissional. Apesar da ênfase que muitos fazem para o crescimento da quantidade de programadores é preciso ser claro e dizer com todas as letras que dentro de poucos anos as máquinas vão estar desenvolvendo programas. Atualmente já existem softwares que são geradores de códigos como o GeneXus (http://www.genexus.com/global/inicio?pt, acessado em 08/06/2016) ou MIT App inventor (http://appinventor.mit.edu/explore/, acessado em 08/06/2016). O artigo “O software que escreve código, seu futuro e seu impacto nos negócios” (http://cio.com.br/tecnologia/2016/03/17/o-software-que-escreve-codigo-seu-futuro-e-seu-impacto-nos-negocios/, acessado em 08/06/2016) ilustra bem as perspectivas futuras dos geradores de códigos.

A linguagem natural chegará com força na era das máquinas inteligentes. As máquinas vão interpretar as ordens e gerar os códigos necessários. Os programadores vão precisar sair da atual zona de conforto e terão que aprender a gerar ideias. As ideias vão ser a mina de ouro. As escolas e estudantes vão ter que trabalhar na ciência das ideias e não mais na ciência dos dados. Nem mesmo profissões tradicionais como médicos, dentistas e advogados estão à salvo das mudanças da era das máquinas inteligentes. As incertezas para estas carreiras também são intensas. Aqueles que encontrarem os caminhos onde os seres humanos e máquinas trabalharão juntos estarão salvos das incertezas profissionais, pois esta será a estrada do aumento do trabalho. Os profissionais com carreiras de futuro vão trabalhar em conjunto com as máquinas inteligentes. Elas vão complementar as suas atividades. Também terão carreira promissora, os profissionais que se especializam nas suas atividades com tamanha profundidade que as máquinas inteligentes não consigam competir com eles.

Quem for trabalhar em conjunto com as máquinas no seu dia-a-dia vai ter que enxergar ela como um colega (a interação do George Jetson com o seu computador Referential Universal Differential Indexer (R.U.D.I.) no desenho The Jetsons é um excelente exemplo de como será este relacionamento cotidiano). Ao enxergar a máquina inteligente com um colega de trabalho é possível identificar o que ela faz bem e o que não faz bem. Desta forma o ser humano poderá intervir sempre que necessário na execução das tarefas.

Os gerentes vão supervisionar o trabalho realizado pelas máquinas inteligentes em regime de colaboração com os seres humanos. É preciso avaliar continuamente a performance do portfólio dos projetos, produtos e processos. É de fundamental importância a avaliação se é preciso aumentar ou diminuir o atual nível de automação. É preciso avaliar as necessidades e soluções em função dos diferentes tipos de automação disponíveis no mercado.

Também é de vital importância a avaliação dos próximos passos do emprego pós automação, pois é preciso desenvolver, instalar, manter e comercializar os sistemas. As empresas de tecnologia estão contratando milhares de pessoas para realizar estas atividades.

Neste contexto, os empregos para trabalhadores menos qualificados entrarão em decadência. O sistema educacional precisa ser ajustado para refletir as diferenças de formação. Em 2016 já existe uma grande desigualdade salarial entre os formados nas universidades e os não formados. Nos próximos anos este nível de desigualdade vai ser acelerado. No entanto, não deve ser ignorado que algumas profissionais vocacionais que não exigem o ensino superior serão valorizadas. Por exemplo, os empregos dos técnicos de manutenção não sofrerão grandes perdas nos próximos anos. Os empregos de outras profissões vocacionais como humoristas, cantores, artistas plásticos e etc. também não serão impactados nos próximos anos também.

Isto significa que o sistema educacional precisa melhorar a orientação para as profissões vocacionais no Brasil. É fundamental manter a mente aberta para as profissões vocacionais. No entanto, não deve ser ignorado em momento algum que muitos dos trabalhadores menos qualificados terão um final infeliz se não participarem de programas de requalificação.

Um exemplo importante de necessidade de requalificação são os empregos dos motoristas de ônibus, caminhões, carros de empresas, táxis e etc. A maioria destes empregos será varrida do mapa com os veículos autônomos (Em 2035, 21 milhões de veículos autônomos vão estar nas ruas, http://idgnow.com.br/ti-pessoal/2016/06/08/em-2035-21-milhoes-de-veiculos-autonomos-vao-estar-nas-ruas/, acessado em 98/06/2016). São milhões de pessoas que precisam ser urgentemente requalificadas aqui no Brasil. O desenvolvimento dos veículos autônomos no mundo está ocorrendo à plena velocidade. Estas pessoas precisarão de um novo sistema educacional para serem requalificadas.

O currículo escolar básico precisa mostrar para os estudantes de todas as idades os impactos que as máquinas inteligentes estão causando nos empregos. Este assunto deve ser tratado com especial consideração nas faculdades. Ainda não chegou nas faculdades de direito o ensino do e-discovery ou código preditivo ou outras tecnologias digitais. Estes temas já fazem parte do dia-a-dia dos advogados, mas não são mencionados na maioria das faculdades de direito. Temos um caso muito similar em termos de ignorar as tecnologias inteligentes nas faculdades de medicina. A construção civil brasileira vem perdendo muitos degraus na escala da competitividade por causa da escolha das faculdades de arquitetura e engenharia de ignorarem o BIM (Building Information Modeling ou Building Information Model) no seu currículo básico. O artigo Baixa produtividade da construção compromete remuneração do trabalho (http://www.fiesp.com.br/observatoriodaconstrucao/noticias/baixa-produtividade-da-construcao-compromete-remuneracao-do-trabalho/, acessado em 08/06/2016) revelou o tamanho da perda da competitividade da construção civil brasileira nos últimos anos.

Os profissionais jovens ou experientes devem ter o direito de fazer as escolhas com plena consciência das suas opções. Eles precisam conhecer quais são as condições reais dos papeis que eles vão desempenhar nas empresas para trabalhar em regime de colaboração com computadores. Caso os profissionais prefiram trabalhar sem a colaboração das maquinas inteligentes é preciso que eles conheçam quais são as possibilidades viáveis que estão disponíveis no mercado.

O sistema educacional deve encorajar permanentemente as pessoas para que elas persigam as suas paixões. As mensagens das escolas para os estudantes precisam revelar com toda a clareza que existem atividades em que o desempenho dos computadores é superior ao dos seres humanos, ou seja, não é conveniente desenvolver uma carreira profissional nestas atividades.

O conhecimento deve pautar a agenda educacional, por isto mesmo diante de um cenário onde em menos de dez anos o geradores de códigos estarão extremamente evoluídos é importante que os alunos entendam o funcionamento dos computadores e da lógica de programação (O software que escreve código, seu futuro e seu impacto nos negócios, http://cio.com.br/tecnologia/2016/03/17/o-software-que-escreve-codigo-seu-futuro-e-seu-impacto-nos-negocios/, acessado em 08/06/2016).

Para quem vive na sociedade ocidental é importante aprender línguas orientais como o Chinês e Japonês. No entanto, este conhecimento não pode ser visto como um fim nele mesmo. Aprender uma língua deve significar aprender uma cultura. A maioria dos profissionais pós 2020 vão precisar de conhecimentos em estatística, línguas e culturas. Nem todas as pessoas vão escrever algoritmos, alguns vão escrever músicas, outros roteiros de comédias, filmes e assim sucessivamente. No entanto, o uso da estatística e dos algoritmos para medir o que deu certo ou não vai ser uma constante para várias categorias profissionais.
O momento da transição entre o modelo atual e o das máquinas inteligentes precisa ser bem planejado e acordado com os trabalhadores. É preciso definir com clareza os papeis que os seres humanos vão ter que desempenhar nas oportunidades de automação para que a criatividade seja encorajada. Se a conversa for em termos de cortes e demissões por conta das máquinas inteligentes, os trabalhadores vão criar resistências e medos e as melhores oportunidades serão perdidas. É evidente que o objetivo da empreitada é reduzir o custo unitário dos itens produzidos. Esta meta pode ser alcançada com o aumento da produtividade.

Em 2016 existirão posições relacionadas com a área de
automação e cognição. São exemplos de novas profissões para onde os profissionais pré-máquinas inteligentes podem ser deslocados. Nunca devemos esquecer que as decisões tomadas pelas máquinas inteligentes precisam ser avaliadas pelos seres humanos em termos de desempenho. Os computadores não alcançarão uma performance ótima sem a intervenção humana. Em outras palavras milhões de empregos vão surgir por conta da análise cognitiva. Os trabalhadores precisam serem treinados para assumirem estas posições. Máquinas erram e falham. Será papel dos seres humanos a realização das correções.

Na área da saúde, os profissionais vão desempenhar o papel de supervisor das tecnologias automatizados. O papel dos médicos anestesistas não será eliminado, no entanto eles terão que supervisionar várias salas de cirurgia totalmente monitoradas que são operadas por máquinas. O médico anestesista desempenhará o papel de diretor de produção de uma espécie de fábrica do anestesiamento operada por robôs. Este cenário será realidade em diversas outras áreas da medicina.

Os médicos clínicos gerais terão mais capacitações. Eles poderão, por exemplo, acessar o conhecimento do melhor psicólogo através de um software cognitivo. Eles vão poder interpretar a imagem de um exame de radiologia e analisar a lesão apresentada com auxílio da inteligência cognitiva de uma máquina. Com base no exame o médico clínico geral vai poder indicar a probabilidade da lesão ser um tumor canceroso e recomendar a realização de uma biopsia. Em 2016, apenas os médicos especialistas têm capacidade para fazer este tipo de avaliação. De uma forma ou outra, a medicina vai experimentar com as máquinas inteligentes uma mudança na atual direção de necessidade crescente de especialização. A tecnologia vai nivelar o conhecimento médico no âmbito da clínica geral e vai mudar o patamar para os especialistas. Os novos especialistas ou superespecialistas vão ocupar um espaço mais abrangente e profundo que eles ocupam atualmente. Por exemplo, um radiologista vai ser um radiologista intervencionista onde ele vai exercer o papel de radiologista e cirurgião.

É evidente que a tecnologia não pode assumir todos os papéis humanos e deixar o ser humano dependente da confiabilidade dos softwares. É importante que os sistemas sejam desligados em algum momento para que as pessoas saibam trabalhar sem os computadores. As máquinas inteligentes devem colaborar com os seres humanos e não os substituírem. De uma forma ou outra, os sistemas operacionais das máquinas vão carregar valores éticos e morais dos seus desenvolvedores, especialmente quando as aplicações de inteligência cognitiva estiverem sendo executadas. Isto significa que os computadores não conseguirão responder de forma inequívoca as questões dúbias. A tradução disto é que para alguns as máquinas vão parecer gentis, para alguns outros elas parecerão intrometidas e para um outro grupo elas parecerão egocêntricas. As maquinas vão, por exemplo, insistir para que os humanos trabalhem na visão dela do mundo (mais precisamente na visão do mundo dos seus desenvolvedores). Elas vão aprender e ficar mais inteligentes dentro dos parâmetros definidos pelos desenvolvedores. Ou seja, de uma forma ou outra, alguns poucos desenvolvedores vão estabelecer para a sociedade o comportamento das máquinas. Pode ser um futuro brilhante para a humanidade, como também pode ser uma ameaça enorme para as pessoas e empregos. É preciso ter consciência que a inteligência cognitiva vai tirar a característica de neutralidade na utilização das máquinas pelos seres humanos.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Produtividade Total dos Fatores (PTF)

Produtividade Total dos Fatores

Toda vez que o Brasil entra em crise ou em recessão profunda os temas produtividade, custo Brasil e flexibilização das leis e benefícios trabalhistas entram em ebulição na pauta da agenda nacional. Desde os anos 1980 estes três assuntos estão sendo discutidos e até o ano de 2016 inexistem respostas concretas e realistas.

Apesar do gigantesco volume de conversas inexistem acordos e consensos. Sugestões antigas são reapresentadas com novos formatos e são proferidos à exaustão discursos catastrofistas como “O Brasil vai quebrar sem as reformas (previdência social, leis trabalhistas e legislação tributária)”. Na pratica o discurso focado no medo não vem gerando consenso na sociedade. Como já ocorreu no passado, muito está sendo dito e nada acontece. As pessoas simplesmente “não compram” as propostas que são apresentadas como solução dos problemas nacionais. Em outras palavras, o Brasil entrou em “loop” nos aspectos relacionados com a produtividade da economia.

A leitura do artigo do principal evangelista do Service Desk no Brasil intitulado “Zeus e a Produtividade: sua capacidade divina de assumir várias formas” (http://www.4hd.com.br/blog/2016/03/23/zeus-e-a-produtividade-sua-capacidade-divina-de-assumir-varias-formas/, acessado em 28/03/2016) revelou que apesar de antigo, o conceito da Produtividade Total dos Fatores (PTF) ainda não foi incorporado nas conversas. O meu primo de Porto Alegre que resolveu recentemente embarcar no iate da produtividade vai reclamar e protestar.

Como todos sabemos a produtividade é o quociente entre o resultado alcançado e o esforço realizado considerando os recursos utilizados. Muitos simplificam esta equação considerando no denominador apenas os esforços e recursos físicos. Esquecem de levar em conta os valores imateriais. O resultado deste esquecimento é que muitos concluem que para aumentar a produtividade é preciso ou aumentar os resultados alcançados (por exemplo através de aumento de preços) ou reduzir a quantidade do esforço físico realizado considerando os recursos utilizados. A apresentação de apenas duas possibilidades é uma falácia que vem sendo repetida por muitos há muitos anos.

É preciso considerar o capital intelectual ou conhecimento na equação da produtividade. A PTF entra no jogo porque o capital intelectual faz muita diferença. Para exemplificar porque a produtividade total dos fatores pode representar até 60% do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de um país vou desvendar um caso bem simples e comum. Eu e o meu vizinho temos uma propriedade rural. A comparação de cada um dos átomos físicos destas duas fazendas e dos recursos para a produção revela absoluta igualdade. No entanto, apesar das igualdades físicas o meu vizinho termina a preparação do terreno um mês antes do que eu.

É fácil perceber que a produtividade dos esforços e recursos utilizados impacta o resultado final da produtividade. O meu vizinho consegue este resultado superior porque ele mapeou todo o terreno e planeja antecipadamente cada ação da sua preparação. Como eu não tenho este capital intelectual ou conhecimento eu saio para o campo com o trator com um determinado garfo e no meio do trabalho descubro que naquele pedaço do terreno eu preciso de um garfo diferente. Isto me obriga a retornar e trocar de garfo. Eu perco muitas horas realizando este procedimento. O meu vizinho que conhece em minucias o perfil do terreno, planeja as suas ações para sempre sair de casa com o garfo certo conectado no trator. O conhecimento faz toda a diferença para a produtividade.

O artigo “Produtividade e Armadilha do Lento Crescimento” (https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2015/04/14/produtividade-e-armadilha-do-lento-crescimento/, acessado em 28/03/2016) revelou que o Brasil padece do mesmo mal que vem fazendo a minha fazenda ser menos produtiva que a do meu vizinho. Os exemplos revelam que não sou o único que esqueceu da produtividade total dos fatores. O artigo “Baixa produtividade da construção compromete remuneração do trabalho” (http://www.fiesp.com.br/observatoriodaconstrucao/noticias/baixa-produtividade-da-construcao-compromete-remuneracao-do-trabalho/, acessado em 28/03/2016) revela o problema da baixa produtividade na construção civil no Brasil.

No texto foi afirmado que entre 2000 e 2013 a produtividade do trabalho na construção civil ficou estagnada. Ou em outras palavras, considerando toda a evolução tecnológica que ocorreu no período, a produtividade da mão de obra foi negativa. Os trabalhadores não conseguiram conquistar benefícios de produtividade com as novas tecnologias introduzidas na construção civil. Em 2013, cada trabalhador da construção civil brasileira gerou valor agregado de US$ 18.900. O valor médio dos 29 países analisados foi de US$ 57.800. Como consequência da estagnação de uma produtividade que era baixa, a remuneração do trabalhador brasileiro é a menor entre os 29 países avaliados. Em outras palavras a menor remuneração gerou como resultado o pior valor agregado.

A conclusão final é que o Brasil apresenta um dos maiores custos e preços para o metro quadrado da construção civil (Em 2015, ocupou a 39ª posição na listagem dos metros quadrados mais caros do mundo. Fonte: EUA lideram ranking das ruas com o metro quadrado mais caro do mundo, http://gq.globo.com/Prazeres/Poder/noticia/2015/11/eua-lidera-o-ranking-das-ruas-com-o-metro-quadrado-mais-caro-do-mundo.html, acessado em 28/03/2016) por causa da baixa produtividade da mão de obra e dos recursos utilizados.

Os números gritam algumas revelações. A primeira é que o aumento do preço de venda do metro quadrado da construção civil ocorrido nos últimos anos, não gerou aumento da produtividade. Ou seja, os que acreditam que podem aumentar a produtividade pela majoração do numerador da equação estão equivocados. A segunda revelação é que a redução do denominador através de baixos salários e benefícios para a mão de obra também não é capaz de aumentar a produtividade. Os números do Brasil da construção deixam bem claro que as propostas para flexibilização das leis e benefícios trabalhistas não são condição necessária e suficiente para aumentar a produtividade. É preciso ir além das atuais propostas para tirar o país da recessão.
Tenho certeza que o primo de Porto Alegre vai estrilar, mas já está na hora de ir direto ao ponto. É de fundamental importância qualificar os serviços de Tecnologia de Informações e Comunicações (TIC). Uma grande parte da evolução tecnológica da construção civil entre 2000 e 2013 está relacionada com TIC. Não podemos fazer mais do mesmo e afirmar que a produtividade da mão de obra da construção civil não avançou por causa apenas da qualificação dos trabalhadores. Uma grande parte desta estagnação é consequência direta das falhas dos sistemas de TIC e da baixa qualidade dos serviços do Service Desk.

No dia 30 de julho 2015, eu estava no Shopping Frei Caneca na cidade de São Paulo. Ao resolver tomar um café as 10 horas na loja Starbucks eu descobri que a mesma estava com o seu sistema TIC inoperante e as vendas estavam interrompidas porque não existia uma previsão para o seu retorno. Como não foi a primeira vez que presenciei tal situação eu resolvi pesquisar o impacto das indisponibilidades de TIC na produtividade brasileira.

Eu selecionei os seguintes artigos para exemplificar os problemas: “Brasileiras perdem US$ 18 milhões com indisponibilidade de aplicações”, http://computerworld.com.br/brasileiras-perdem-us-18-milhoes-com-indisponibilidade-de-aplicacoes, “Site e caixas eletrônicos do Itaú ficam fora do ar após queda de sistema”, http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/08/1666808-site-e-caixas-eletronicos-do-itau-ficam-fora-do-ar-apos-queda-de-sistema.shtml?mobile, “Black Friday 2014 frustra quem esperava evolução do e-commerce brasileiro”, http://idgnow.com.br/blog/circuito/2014/11/29/black-friday-2014-frustra-quem-esperava-evolucao-do-e-commerce-brasileiro/, “Caixa diz que sistema voltou ao normal e vai abrir 1 hora antes nesta sexta”, http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2014/11/06/caixa-abre-uma-hora-mais-cedo-nesta-sexta-por-causa-de-falha-no-sistema.htm, acessados em 28/03/2016). Todos os casos mostram que as falhas de TIC reduziram a produtividade dos trabalhadores. Não são casos de falta de qualificação da mão de obra do negócio.

O caso da loja Starbucks do Shopping Frei Caneca em 30 de julho 2015 revelou também como as práticas empresariais adotadas no Brasil estão reduzindo a nossa produtividade. O Brasil não tem a exclusividade de falhas nos sistemas de TIC que impedem a abertura do caixa de uma loja. Isto também acontece nos Estados Unidos. No entanto, a cultura empresarial norte americana é bem diferente da brasileira. No nosso caso, a indisponibilidade fez com que os funcionários avisassem os clientes que a loja estava fechada. Nos Estados Unidos, a atitude é bem diferente. Mesmo com o sistema inoperante a loja é aberta e os clientes são atendidos. Isto ocorre basicamente por três motivos.

O primeiro é que se o cliente não for atendido ele vai acabar indo para uma outra loja (no meu caso eu escolhi a Kopenhagen) e existe o risco do cliente gostar dos produtos e serviços recebidos e deixar de ser seu consumidor. O segundo motivo é que ao processar manualmente todos os atendimentos, a loja é capaz de quantificar exatamente quanto ela perde por causa de uma falha de um sistema de TIC. Fica claro para os gestores qual a relação entre o custo e benefício para investimentos em segurança de TIC. O terceiro motivo é que não existe nada mais frustrante na cultura americana do que ir ao trabalho e ficar sem fazer nada por causa de um computador. Ao escolher pela operação normal. os trabalhadores não ficam ociosos e sem motivação. É frustrante estar no trabalho e simplesmente não poder fazer nada por causa de uma falha de um equipamento.

No Brasil, a escolha pelo fechamento da loja não é capaz de motivar os funcionários para serem proativos (justificar para o patrão que devem trabalhar mesmo sem condições de cobrar os clientes) porque eles não têm perspectiva de longo prazo na empresa. Se o cliente mudar para a Kopenhagen, isto não é um problema, porque quando o Starbucks começar a sofrer com a falta de clientes eles estarão trabalhando em uma outra empresa. Ou em outras palavras, a política empresarial brasileira desfavorece o crescimento da produtividade.


É bastante claro que é possível evoluir muito em termos de ganhos de produtividade sem a realização de reformas estruturais na economia (elas são contestadas por muitos trabalhadores). Existem soluções mais simples e óbvias que podem ser realizadas. Basta olhar para os países mais avançados e copiar. No caso das falhas de suporte dos sistemas de TIC, existe um enorme espaço que as empresas de tecnologia podem ocupar. No entanto, elas precisam olhar com mais atenção a questão da qualificação e acabar com o preconceito contra o cabelo branco.

quinta-feira, 3 de março de 2016

WhatsApp o retorno

Muitos estão comparando o imbróglio jurídico da Apple contra o FBI com o caso do Facebook com a justiça brasileira. Infelizmente está faltando informação e conhecimento nos comentários e análises.  O caso da apple contra o FBI nos Estados Unidos é análogo ao FBI pedir ou exigir que um fabricante de cofres viole a segurança do seu produto com base na argumentação que dentro do cofre existem documentos que vão incriminar os terroristas presos. Estamos claramente falando de uma questão comercial onde o fabricante pode perder bilhões de dólares por desrespeitar os direitos de todos os seus clientes. Com tantos crimes passando de uma forma ou outra pelo sistema financeiro seria razoável ver o FBI solicitando acesso aos computadores e cofres dos bancos. Eu nunca vi até hoje este nível de disputa contra a privacidade entre o FBI e bancos. Parece que está no mínimo faltando coerência histórica de atuação.

O caso da prisão do vice-presidente do Facebook por não colaborar com a justiça brasileira na quebra do sigilo do usuário do WhatsApp é mais um caso de falta de capacitação do que de coerência histórica. Em primeiro lugar a justiça brasileira foi incapaz de estabelecer um acordo de colaboração com as redes sociais que estão instaladas fisicamente nos Estados Unidos e cumprem a legislação americana (O acesso a uma rede social fora do Brasil deve ser entendido como viagem ao país que abriga os servidores). Este acordo deveria ter sido estabelecido em 2012. Estamos em 2016 e nada foi feito. Eu tenho total certeza que as redes sociais americanas têm total interesse na eliminação dos casos de crimes. Elas fariam de bom grado acordos de cooperação.

No entanto, tem pouco sentido pedir publicamente a colaboração do WhatsApp em um processo que corre em segredo de justiça. Está mais do que na hora da justiça ser mais coerente e colaborativa com as redes sociais. As informações solicitadas como o IMEI e sistema operacional são afirmadas como inexistentes pelo Facebook. A justiça brasileira precisa falar de onde ela arrumou a informação que o WhatsApp guarda o IMEI e sistema operacional dos equipamentos dos seus usuários. É preciso acabar com este tipo de conflito.

Alguns juristas afirmam com base no Marco civil de Internet (MCI) brasileiro que os registros solicitados pela justiça nacional devem ser armazenados pelo provedor. Qualquer profissional de tecnologia qualificado vai facilmente mostrar que a guarda do IMEI ou sistema operacional do equipamento não consta nas obrigações definidas no MCI. Além do problema da definição do que deve ser armazenado pelos provedores, existe a questão da geografia jurídica. Os servidores do WhatsApp estão localizados nos ESTADOS UNIDOS e atendem aos requisitos de privacidade da lei americana. Isto significa que existe um claro conflito legal que já deveria ter sido resolvido pela justiça brasileira.

Seria interessante esclarecer porque a justiça brasileira não solicita estas informações para as operadoras nacionais de telecomunicações. Elas são obrigadas a cumprir as determinações do MCI. Com base nos registros dos provedores é possível identificar a localização geográfica do autor das mensagens e fazer uma ação de busca e apreensão dos equipamentos e aí ter acesso integral as mensagens. O que realmente está faltando não é colaboração do WhatsApp.

A pergunta que não quer calar é o que vai acontecer com os presidentes da Microsoft, Alphabet, Apple do brasil se os equipamentos apreendidos estiverem criptografados com senhas? Eles vão ser presos porque não destruíram a confiança que os seus clientes depositaram neles? A justiça brasileira vai continuar a colocar na cadeia trabalhadores honestos e deixar nas ruas os bandidos? Até quando o Brasil vai ignorar que o mundo mudou e que é preciso contratar engenheiros qualificados para fazer parte do sistema judiciário? Para finalizar é sem sombra de dúvida brilhante a estratégia de criar um conflito pelo bloqueio do WhatsApp e esperar a colaboração deles. Os gênios da justiça nacional precisam urgentemente de um chapéu pensador.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Como medir o PIB na era do conhecimento

O Produto Interno Bruto (PIB) é uma expressão numérica dos ativos físicos de um país. Com base nele é possível comparar o desempenho produtivo dos países e a performance histórica de um determinado país. A segunda década do século XXI está sendo marcado pela transição dos modelos de negócios. Até o ano de 2010 a economia mundial era baseada em modelos de negócios fundamentados em ativos físicos. A partir do ano de 2016, os ativos virtuais como reputação, credibilidade, confiabilidade, conhecimento e compartilhamento ganharam enorme importância na economia mundial. Como consequência deste fenômeno é preciso evoluir a fórmula para calcular o PIB.

Existem diversos exemplos sobre como a nova TIC está impactando a renda da sociedade. A chamada economia do compartilhamento introduziu novos modelos de negócio que mudaram a dinâmica econômica dos países. O compartilhamento de um mesmo ativo por várias pessoas restringe a produção e venda do mesmo. Isto significa que ao mesmo tempo em que a economia ganha produtividade e dinamismo, ela também sofre uma queda na produção no curto prazo que é visto na forma de desaceleração do crescimento do PIB. Este é o motivo do Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI) e etc. estarem enxergando uma desaceleração do crescimento do PIB mundial em 2016. Alguns economistas estão alardeando sobre os riscos de uma nova crise econômica e de uma recessão mundial.

No meu ponto de vista existe uma falta de entendimento do fenômeno que a economia mundial está passando. Existe sim uma redução da produção e vendas dos ativos no curto prazo causada pela escala do compartilhamento habilitado pela nova TIC. É evidente que a AirBnB, Uber e outras empresas similares endereçam a demanda das pessoas pelo compartilhamento de um mesmo ativo. Menos hotéis, menos carros e menos ativos são produzidos e vendidos por causa da maior produtividade do compartilhamento. Também é importante destacar que os recursos gerados pelo compartilhamento não necessariamente gerarão novos investimentos. Em alguns casos eles podem até mesmo ficar invisíveis na economia (eles podem ser o resultado de uma operação como escambo ou moeda virtual ou dólar).

É natural uma desaceleração do crescimento do PIB no curto prazo por conta da maior produtividade do compartilhamento. No entanto, no médio e longo prazo as perdas iniciais são plenamente recuperadas. Um bom exemplo de como a nova TI gera um efeito econômico de médio e o longo prazo é o caso dos chamados Youtubers. O artigo Sucesso no YouTube, adolescente vende estoque de 890 produtos em 2 dias (http://economia.uol.com.br/empreendedorismo/noticias/redacao/2016/01/18/sucesso-no-youtube-adolescente-vende-estoque-de-890-produtos-em-2-dias.htm, acessado em 22/02/2016) registra este fenômeno com fidelidade.

O jovem Thiago Elias ou Calango passou alguns anos construindo a sua reputação. Foram anos em que ele desenvolveu uma comunidade sem gerar ativos físicos apenas virtuais. Em 18 de dezembro 2015, ele com apoio da sua mãe e irmão resolveu explorar a sua reputação e transformar os seus ativos virtuais em físicos (em outras palavras riqueza monetária). A análise do PIB do Calango como é feita atualmente vai registrar um salto de crescimento da sua riqueza, pois apenas no final do ano de 2015 ocorreu a conversão dos ativos. É muito importante destacar que na realidade nunca existiu este salto.


A riqueza virtual do Calango nunca foi contabilizada no cálculo do seu PIB e o modelo atual de cálculo faz com que ela só seja visualizada no processo de conversão para ativo físico. Este é o motivo porque os economistas estão visualizando uma desaceleração do crescimento do PIB mundial em 2016. Eles simplesmente ignoram os ativos virtuais. É preciso rever a planilha de cálculo para que os números expressem o dinamismo da economia habilitada pela nova TI.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Quarta Revolução Industrial

A segunda década do século XXI está sendo marcada por uma grande diversidade de novos conceitos econômicos habilitados pela tecnologia. Tanto a era do conhecimento, como a era dos aplicativos, como a era do custo marginal unitário zero, como a economia dos APIs, como a economia do compartilhamento, como os negócios definidos por TI, como a quarta revolução industrial representam as diversas ênfases de uma mesma realidade. É fácil perceber que a tecnologia e a Internet compõem em todas estas abordagens o núcleo duro das mudanças econômicas. A Internet das coisas com os seus sensores e softwares está na raiz das novas estruturas econômicas e é a fonte da Quarta Revolução Industrial. A Internet das coisas é composta pela união em uma única plataforma da Internet das Comunicações com a Internet da Energia com a Internet do Transporte.

O cerne da Quarta Revolução Industrial está relacionado tanto como o decréscimo da importância do custo do hardware nos produtos (por isto é possível criar as situações de custo marginal unitário zero), como com o crescimento da importância da experiência do usuário. A Nestlé com a sua linha de cafeteria expresso Nespresso foi uma das empresas pioneiras na introdução da nova revolução industrial com o lançamento, em 2001, da Nespresso Concept Machine. Com a popularização da cafeteria expresso Nespresso, a experiência do usuário na degustação do café passou a ser definida pela qualidade do café das cápsulas vendidas pela Nestlé.

O mercado brasileiro de cápsulas de café criado pela empresa multinacional Nestlé cresceu tanto que em pouco mais de uma década é possível encontrar nos supermercados da cidade de São Paulo ofertas onde a compra de uma determinada quantidade de cápsulas permite que o consumidor ganhe uma cafeteira expressa. O tamanho do mercado nacional de monodoses (capsulas de café) em 2019 foi estimado em três bilhões de reais (para o ano de 2016 ele foi estimado em um bilhão de reais). Fonte: Veja o que levar em conta ao escolher uma máquina de café expresso (http://www1.folha.uol.com.br/comida/2016/02/1738173-veja-o-que-levar-em-conta-ao-escolher-uma-maquina-de-cafe-espresso.shtml, acessado em 10/02/2016). Claramente a estratégia do fabricante é vender capsulas e tudo aquilo que facilite o consumo de monodoses será oferecido ao consumidor.

É possível considerar a cafeteira expressa como um dos marcos iniciais da quarta revolução industrial, porque a cápsula de café ou chá tem funcionalidade similar ao software em um computador ou equipamento inteligente. Ela é capaz de reconfigurar de forma radical e rápida tanto o produto que é entregue, como a experiência do usuário. O consumidor tem a sua disposição centenas de sabores de cápsulas de café e chá que oferecem experiências diferentes. Ele pode customizar o seu café conforme o seu desejo em tempo real. Ele também pode oferecer uma experiência diferenciada para os seus amigos, clientes, empregados e etc. através das cápsulas. Não é por acaso que os fabricantes estão oferecendo gratuitamente o hardware da cafeteira expressa. Esta ação faz parte de uma estratégia para assegurar um crescimento contínuo da venda de cápsulas de sabores diversos pela entrega de uma experiência prazerosa para o usuário. As series especiais de cafés e chás que são oferecidas por um preço Premium asseguram a alta rentabilidade do mercado de cápsulas.

A lógica corporativa é quanto mais máquinas expressas estiverem no mercado, maior será a quantidade de cápsulas vendidas. As facilidades operacionais (todos conseguem operar as cafeteiras por capsulas sem necessidade de treinamentos) em conjunto tanto com a alta qualidade do café e do chá, como com a capacidade de customização do produto final asseguram uma alta demanda pelas cápsula e máquinas de café. Os ganhos de escala da produção em massa permitem a realização de um custo relativo marginal unitário muito baixo ou nulo para a produção do hardware. Esta característica habilita a estratégia de focar o lucro na venda de cápsulas de café. Neste caso, o hardware virou um acessório habilitador de vendas das cápsulas.

O exemplo das monodoses de café e chá explicitou o motivo pelo qual o software está alterando por completo à dinâmica das empresas na Quarta Revolução Industrial. Os sensores da Internet das coisas são ferramentas que vão mudar a lógica industrial de uma forma ampla e intensa. Apenas como referência de um dos impactos é possível destacar que o processo de auditoria e de governança corporativa será inevitavelmente automatizado em tempo real em pouco tempo. Através dos sensores nos estoques, dos relatórios disponíveis nos computadores e da computação cognitiva será possível automatizar uma grande parte do processo de auditoria. As informações da auditoria vão correr o mundo em tempo real revelando para investidores, comunidades, governos e cidadãos tanto os casos de extrema efetividade operacional, como as situações de fraudes em empresas públicas e privadas.

Até 2025 teremos uma lógica empresarial completamente diferente da existente em 2016. A indústria tradicional não será o único setor afetado em larga escala. A indústria da saúde será imensamente afetada pelos sensores da Internet das coisas e pela computação cognitiva. Em poucos anos os médicos estarão trabalhando no seu dia a dia com os computadores auxiliando o diagnóstico de doenças. Com base nos sensores e nas informações fornecidas pelos pacientes os médicos poderão ampliar a sua capacidade de diagnosticar doenças com a computação cognitiva e estabelecer tratamentos mais efetivos e customizados para os pacientes. A tecnologia Big data vai oferecer um conjunto de informações navegáveis de tal ordem que a precisão e a velocidade do diagnóstico vão crescer enormemente. A computação cognitiva não substituirá o médico, mas fará com que ele trabalhe muito melhor.


Diagnósticos remotos deixarão de fazer parte da ficção científica e serão realidade em regiões carentes de médicos. Novas profissionais nascerão e algumas desaparecerão. Teremos um forte rearranjo do emprego em função do conhecimento. Apesar da alta capacidade dos computadores para processar os dados, eles não têm inteligência para transforma-los em informações úteis. Cada vez mais será preciso a inteligência humana para orquestrar as buscas digitais na direção de um resultado correto e concreto. Profissionais da era do conhecimento tem estas capacitações e serão altamente demandados. Muitos em 2025 serão exportadores de serviços. Será preciso uma forte mudança no arcabouço jurídico brasileiro para contemplar as novas formas de trabalho.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Início da era do Custo marginal zero no Brasil

A era do custo marginal zero demorou um pouco, mas chegou ao Brasil no ano de 2015. A promoção do portal www.bombomdeler.com.br pode parecer que é uma simples campanha para aumentar as vendas de bombons, no entanto, ela representa na pratica algo muito maior. Sob a batuta de duas empresas multinacionais (Nestlé e Amazon), a promoção inaugura a era do custo marginal zero no Brasil.

Para os que desejam mais informações sobre a natureza do custo marginal zero eu recomendo a leitura do artigo “Custo marginal zero” (http://www.itgovrm.blogspot.com.br/2015/08/custo-marginal-zero.html, acessado em 20/01/2016). As empresas Amazon e Nestlé estão oferecendo 30 milhões de livros digitais para a campanha com custo marginal unitário zero, ou em outras palavras, com custo de produção praticamente zero. Os custos relativos aos livros digitais são: (i) direitos autorais dos autores dos livros (que podem ser negociados para serem nulos) e (ii) custos da infraestrutura tecnológica e de distribuição que são praticamente nulos para os 30 milhões de livros em função do gigantesco volume movimentado pela empresa Amazon.

Como o livro digital ainda não decolou no Brasil, o grande benefício que a empresa Amazon conquista com a campanha brasileira é a divulgação dos seus títulos para uma fatia de mercado (classes c e d) que ela ainda não alcançou sem a necessidade de investir em propaganda e publicidade. Muitos dos 30 milhões de livros serão entregues para novos usuários da companhia. A organização ganha com isto o acesso direto para uma enorme base de clientes potenciais que ainda não experimentaram os benefícios do livro digital.

O valor deste mercado é tão maior que o valor dos direitos autorais dos autores que caso eles fossem pagos integralmente, o valor seria insignificante. Os autores dos livros provavelmente (não disponho de tal informação e por isto a mesma é uma suposição minha) aceitaram renegociar os seus direitos com a empresa Amazon e brigaram para fazer parte da promoção, porque o volume de vendas de 30 milhões os catapultam para um novo patamar como autor. Ou em outras palavras a valorização futura no mercado deles como autor é tão maior que o valor dos direitos autorais que eles provavelmente enxergaram esta negociação como um enorme ganho monetário futuro. Como para eles não existem custos envolvidos, o custo marginal de produção dos livros na promoção é zero.

Para a empresa Nestlé, a promoção pode representar um aumento de vendas, mas ela representa principalmente um canal direto de comunicação com o seu consumidor porque o portal http://www.bombomdeler.com.br exige que o usuário digite o seu endereço de e-mail. A empresa por meio das tecnologias da internet pode descobrir as seguintes informações sobre o cliente: (i) a sua localização física, (ii) se ele tinha (ou não) conta na Amazon, (iii) a frequência com que ele compra e consome uma caixa de bombom, (iv) se ele usa computador ou celular para o acesso e (v) diversas outras informações (como nome, profissão, renda, estado civil e etc.) que podem ser utilizadas para que a Nestlé divulgue os produtos e serviços diretamente. A base de dados pode ser rentabilizada também através da sua venda ou aluguel.


O custo marginal unitário zero habilitado pela tecnologia digital abre um espaço gigantesco para novas posturas empresárias que são capazes de gerar mais vendas com custos menores. No atual momento do Brasil de forte recessão, ele é uma poderosa ferramenta para a recuperação da economia. Infelizmente apenas as empresas multinacionais estão sendo capazes de enxergar este caminho.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

ROI do gerenciamento de redes

Recentemente eu li o artigo “Como calcular o ROI em monitoramento de redes?” (http://computerworld.com.br/como-calcular-o-roi-em-monitoramento-de-redes, acessado em 18/01/2016). O autor foi bastante feliz na listagem dos benefícios das ferramentas de gerenciamento de rede. A exposição foi clara e os argumentos consistentes. No entanto, em momento algum ele quantificou os benefícios. Confesso que fiquei incomodado com este estratagema. Para calcular o ROI (beneficio/custo total) proposto no artigo é preciso quantificar o numerador (benefícios) e o denominador (custo total). No caso das ferramentas de gerenciamento de rede, o denominador é o custo total do ciclo de vida da ferramenta de gerenciamento. Apesar do valor não ser igual ao da proposta do fornecedor da ferramenta, é possível estimar o número sem grandes dificuldades.

A grande dificuldade para o cálculo do ROI é a identificação do numerador. No artigo estão listados diversos benefícios que o software de gerenciamento de rede oferece para uma empresa. Não existem dúvidas que a quantificação dos benefícios de um software de gerenciamento é o aspecto de maior dificuldade para o cálculo do seu ROI. No livro “Governança de TI - Metodologias, Frameworks e Melhores Práticas” publicado em 2007 foi apresentado em detalhes a partir da página 144 um modelo prático para calcular os benefícios de uma ferramenta de gerenciamento de rede. Apesar dos nove anos da publicação e das profundas mudanças ocorridas, o modelo permanece valido e atual.

Basicamente uma ferramenta de gerenciamento de rede altera a forma como os incidentes e problemas são diagnosticados. Antes da ferramenta a central de serviços precisa entrevistar o usuário para diagnosticar o defeito. O analista consome um tempo precioso do usuário para capturar mais informações sobre a falha. Ele precisa descobrir as condições em que a mesma ocorreu para estabelecer um modelo mental que habilite o diagnóstico. Após a ferramenta, a interação entre o analista e o usuário é reduzida para um patamar mínimo (quase nulo), pois o analista consegue diagnosticar a falha através da avaliação dos alarmes e logs gerados pela ferramenta de gerenciamento de rede.

Na comparação dos custos sem o gerenciamento de rede e com ele é nítido que no primeiro caso, o custo do diagnóstico do incidente é dado pela soma do custo do analista com o custo do usuário (que parou o seu trabalho para responder as perguntas do analista sobre a falha) com o custo da produtividade perdida do usuário (que parou o seu trabalho para responder as perguntas do analista). Em geral o custo da produtividade do usuário é cem vezes maior que seu o custo. Em alguns casos a relação é mil vezes.

No caso com a ferramenta de gerenciamento de rede, o custo do diagnóstico é dado pelo custo do analista mais o custo de reposição da ferramenta de gerenciamento de rede (CAPEX). É muito fácil calcular o benefício neste contexto, pois todas as informações estão disponíveis na contabilidade. O benefício é o resultado da subtração do custo do diagnostico sem a ferramenta com o custo do diagnostico com a ferramenta de gerenciamento. Com o benefício determinado é possível calcular o ROI e justificar com fatos objetivos a aquisição de uma ferramenta de gerenciamento de rede.