quinta-feira, 23 de abril de 2015

Novo 7 a 1

A corrupção é apontada pela maioria dos brasileiros como a principal causa da pobreza nacional. Muitos querem auditorias na dívida pública e outras medidas para recuperar as perdas pela corrupção e resolver os problemas dos brasileiros. O balanço recém divulgado pela Petrobras (Com perdas em corrupção, Petrobras tem prejuízo de R$ 22 bi em 2014, http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/04/1619695-com-perdas-em-corrupcao-petrobras-tem-prejuizo-de-r-21-bi-em-2014.shtml, acessado em 23/04/15) é uma ferramenta bastante didática para revelar o tamanho do problema da corrupção e da falta da engenharia.

O balanço revelou perdas por corrupção de 6,194 bilhões de Reais e perdas por reavaliação de ativos de 44,345 bilhões. Perdas por reavaliação de ativos significam na linguagem da rua que a empresa gastou dinheiro bom em projetos ruins e perdeu dinheiro, ou seja, o projeto gerou um resultado financeiro menor do que foi gasto para a sua realização. Este é um caso típico de engenharia pobre ou ausente. Faz parte da engenharia a avaliação financeira e econômica de um projeto para que o mesmo gere um resultado positivo (no popular é mais dinheiro no bolso). É claro que podem existir projetos de resultado negativo no portfólio que são estratégicos e por causa disto são aprovados.

Eles são apresentados com transparência no plano de negócios da empresa e são justificados com argumentos não financeiros. No entanto, este não é o caso da Petrobras. Os projetos não eram estratégicos eram apenas ruins. A falta da engenharia causou uma perda de 44,345 bi contra 6,194 bi da corrupção, ou seja, o custo da destruição da engenharia brasileira é sete vezes maior que o da corrupção. Para que se tenha ideia do tamanho da perda pela destruição da engenharia, o tamanho do ajuste fiscal do país inteiro é de 66,3 bi (Governo lançará campanha publicitária sobre o ajuste fiscal, http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/04/1613097-governo-lancara-campanha-publicitaria-sobre-o-ajuste-fiscal.shtml, acessado em 23/04/15). Sem as perdas da falta de engenharia de apenas uma empresa, o ajuste cairia para 21,955 bi, ou seja, redução de 66%. Imagine o ganho que o Brasil teria mantendo uma engenharia rica na Petrobras e Eletrobrás? São apenas duas empresas. Provavelmente o ajuste fiscal de arrocho salarial e perda dos direitos trabalhistas seria evitado.

É evidente nos números que o ator protagonista da pobreza brasileira é a falta da engenharia, a corrupção é uma estrela de sexta grandeza. Da mesma forma que existiram perdas pela falta de engenharia na Petrobras, elas também estão presentes na Eletrobrás (conta de luz subiu mais de 40%), nos hospitais, nas escolas e etc. Não devemos entender que as perdas pela destruição da engenharia acontecem apenas no governo e nas empresas estatais. Elas estão presentes nas empresas privadas com grande intensidade. Eu já avaliei milhares de projetos com falhas graves de engenharia e com retorno negativo. Basta olhar para as obras civis, farmácias, restaurantes e etc. que vamos encontrar operações altamente ineficientes e caras. Este é na realidade o real custo Brasil.


São centenas de bilhões de reais jogados no lixo anualmente por causa de uma engenharia pobre. O país poderia estar muito mais próximo da riqueza da Coréia do Sul ou Cingapura ou outro emergente se tivesse levado à sério o problema da engenharia. Espero que o balanço da Petrobras ilumine a cabeça dos brasileiros para o real problema que causa a pobreza nacional. Como lembrete final as perdas pela destruição da engenharia foram de 44 bi enquanto as perdas pela corrupção foram de 6 bi. Destruição da engenharia 7 x corrupção 1. Mais uma derrota de 7 a 1 do Brasil.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Terceirizações

Apesar de já ter escrito sobre terceirizações em diversos momentos, muitos estão perguntando o que eu acho sobre o projeto de lei (PL 4330) que estabelece um novo entendimento sobre as terceirizações no Brasil. Eu entendo que o atual projeto de lei teria sido muito útil no Brasil de 1990. Como estamos em 2015, a proposta é mais uma perda de tempo da sociedade brasileira. Após a votação do projeto que está caminhando cada vez mais para o “nós contra eles”, teremos um lado vencedor e um perdedor. Provavelmente, o Brasil vai passar décadas discutindo a lei das terceirizações. Mais uma vez reforço que em 1990 o PL poderia ter sido útil, no entanto em 2015 ele é inútil e ultrapassado.

O Brasil deve focar os seus parcos esforços em discutir porque o crescimento do PIB é tão pífio. Não existem recursos para discutir inutilidades. Para os que não perceberam o mundo mudou para o modelo “como um serviço” graças a economia dos aplicativos. O sentido de discutir terceirizações na área fim de uma empresa é nulo. Infelizmente muitos despreparados estão com voz ativa no debate do projeto de lei e estão propagando falácias como benefícios da lei da terceirização (“A terceirização gera empregos ou precariza relações de trabalho?”, http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/04/150413_terceirizacao_entenda_ru, acessado em 22/04/15). Porque o nível de emprego aumentaria? Se os graves problemas da economia brasileira não forem resolvidos o país não cresce. Transferir empregos da empresa para a empresa terceirizadora não altera o nível de emprego.

Os problemas educacionais que travam a produtividade da economia não serão resolvidos com a terceirização. Em outras palavras, a proposta do projeto de lei não é capaz de mudar o nível de emprego. Nem para cima, nem para baixo. A redução de custo propagandeada por alguns é bastante questionável. O avanço da competividade sugerido pelos defensores da lei foge de qualquer análise logica. O Brasil não é competitivo no exterior porque os produtos e serviços apresentam qualidade e qualificação bem abaixo da chinesa por exemplo. O mesmo acontece no mercado interno. A China derrotou o Brasil dentro e fora do país porque foi capaz de realizar uma engenharia capacitada. O Brasil perdeu mercados pela destruição da engenharia nacional. Não é o custo do trabalho o problema. Isto significa que a lei das terceirizações não vai resolver este problema. É só mais uma falácia contada pelos que desconhecem a realidade brasileira.

Não é difícil identificar os que desconhecem a realidade e afirmam que a lei das terceirizações resolvem os problemas. O respeitável colunista Samuel Pessôa publicou o artigo “A lei da terceirização é positiva” no jornal folha de São Paulo em 19 de abril de 2015 (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/216567-a-lei-da-terceirizacao-e-positiva.shtml, acessado em 22/04/15). No artigo ele afirmou: “O projeto de lei 4.330 tem por objetivo permitir que empresas especializadas em colheita e outras especializadas na aplicação de inseticidas, e assim sucessivamente, possam ser criadas.”. Ele estabeleceu uma série de relações negativas para a economia brasileira em função da atual impossibilidade de existir uma empresa que aplique inseticida como um serviço.

Infelizmente os problemas e respectivos benefícios da lei das terceirizações citados não são corroborados pela realidade nacional. Ele afirmou que um agricultor não pode atualmente contratar uma empresa especializada na aplicação de inseticida porque o arcabouço legal não permite e apenas com a nova lei isto será possível e a economia vai ganhar.

O mesmo jornal folha de São Paulo publicou em 2011 o artigo Citricultores de SP rateiam custos com pulverização (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me2607201119.htm, acessado em 22/04/15) revelando que os agricultores contrataram pulverização como um serviço sem ferir a legislação trabalhista vigente (O texto do artigo era: “Os citricultores da região de Araraquara e São Carlos, a de maior incidência do greening em São Paulo, estão formando "consórcios" para ratear os custos do combate à doença, que provoca perda da qualidade da fruta.”). Em outras palavras os ganhos de produtividade alegados como benefícios pela lei das terceirizações já estão presentes na economia nacional.

Todos os outros casos citados pelo articulista são possíveis no arcabouço legal atual e alguns deles como o caso das colheitadeiras e pulverizações já existem. O mundo como um serviço é parte integrante da realidade brasileira. Isto significa que os casos inexistentes não são consequência de restrições legais, mas sim de um ambiente que inviabiliza este tipo de empreendimento. Apesar das inconsistências com a realidade nacional, o texto aponta para um ponto crucial da falta de competividade nacional e que deveria ser alvo de análise por articulistas respeitáveis como o Samuel. Ele apontou no texto citar as dificuldades do uso compartilhado de recursos. A raiz do crescimento dos EUA pós crise de 2008 é a “sharing economy” ou economia do compartilhamento. Em vez de perder tempo com um projeto de lei ultrapassado seria melhor resolver as barreiras existentes para o compartilhamento.

Isto sim traria os benefícios propagandeados pelos defensores da lei da terceirização. A questão da falta de competividade pela ausência de engenharia pode ser facilmente percebida na produção da Apple no Brasil. Apesar de todas as desonerações, incentivos e etc. (Brasil terá smartphone até 25% mais barato no fim do ano, diz ministro, http://g1.globo.com/economia/noticia/2012/09/brasil-tera-smartphone-ate-25-mais-barato-no-fim-do-ano-diz-ministro.html, acessado em 22/04/15) o iPhone 6 mais caro do mundo é produzido no Brasil (Brasil tem o iPhone 6 mais caro do mundo, aponta pesquisa, http://computerworld.com.br/brasil-tem-o-iphone-6-mais-caro-do-mundo-aponta-pesquisa, acessado em 22/04/15). Como o custo da mão de obra é muito mais caro na Alemanha, França, Estados Unidos e etc. que no Brasil fica claro que o problema de custo elevado não é resultado do custo da mão de obra. Ou seja, mais uma vez os fatos provam que o problema da competitividade não será resolvido com a lei da terceirização. Ela simplesmente não produz este benefício alegado pelos especialistas.

A maior demonstração de falta de conhecimento da realidade está no artigo “A terceirização gera empregos ou precariza relações de trabalho?” (“Tanto Peluso quanto Salvato acreditam que a possibilidade de as empresas terceirizarem suas atividades pode ajudá-las a se tornar mais eficientes. Segundo eles, isso seria verdade tanto para a terceirização das atividades-meio - por exemplo, a segurança, a limpeza e os serviços de TI - quanto das atividades-fim.”). Os especialistas consideraram os serviços de TI como área meio dos negócios. Neste ponto reside o maior problema e solução dos desafios nacionais. O artigo “Gartner diz que, agora, 'todas as empresas são empresas de tecnologia'” (http://idgnow.com.br/ti-corporativa/2013/12/19/gartner-diz-que-agora-todas-as-empresas-sao-companhias-de-tecnologia/, acessado em 22/04/15) e “Gartner: nenhuma indústria passará ilesa à revolução digital” (http://computerworld.com.br/gartner-nenhuma-industria-passara-ilesa-revolucao-digital, acessado em 22/04/15) revelam os serviços de TI são área fim de todas as empresas. Claramente, a terceirização de TI em nada contribuiu para o avanço das empresas brasileiras nos últimos anos. Desde o nascimento da era dos aplicativos na década passada praticamente nada foi conquistado pelos empreendimentos nacionais em termos de mercado mundial. A falta de engenharia é o fator chave do problema produtividade.

Eu não sou contra a terceirização. Ela pode ser um enorme aliado para trabalhadores e empresários. No entanto, o PL 4330 é só uma lei do atraso. O Brasil está perdendo um tempo precioso ao discutir algo que deveria ter sido analisado em 1990. Em 2015 estas conversas são inúteis. Espero que o congresso acorde e olhe em que ano estamos. Não é preciso ser nenhum Einstein para perceber que existem falhas elementares e graves em todos os negócios do Brasil. Se um décimo da energia gasta na lei das terceirizações fosse gasto na eliminação de erros básicos o país sairia rapidamente do drama do pibinho

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Como sair do PIBINHO para o PIBÃO?

Como todos sabem o ano de 2014 foi de crescimento pífio do PIB brasileiro (“Economia brasileira cresce 0,1% em 2014, pior resultado em 5 anos, diz IBGE”, http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/03/27/pib-2014.htm, acessado em 01/04/2015). No entanto, existem setores que escaparam das garras do governo do PIB mínimo. Um deles é o comércio eletrônico. Os dados consolidados revelam que o crescimento do e-commerce foi digno de um país de PIB máximo como a China (26%. Fonte: “Brasil.com.br, que País é esse?”, http://computerworld.com.br/brasilcombr-que-pais-e-esse, acessado em 01/04/2015).

O que gerou efeito tão espetacular em uma economia tão deprimida? Um dos motivos é a estatística. Como a base não é tão grande é possível crescer com força com um nível básico de acerto empresarial. Não tem sentido avançar neste aspecto, porque ele é um mero efeito aritmético. O segundo motivo do crescimento é bem mais interessante. O Brasil é um país com graves problemas distributivos e por conta disto existem cidades que sequer tem uma banca de jornal. O comércio eletrônico está avançando no país, porque ele consegue oferecer produtos e serviços inexistentes em diversos lugares. Na medida de velocidade do avanço da banda larga, o e-commerce vai crescendo. Como as carências nacionais geraram uma enorme demanda, existe um espaço de crescimento gigantesco para o comércio digital.

O mundo virtual permite comparações instantâneas de preços e disponibilidades e por causa disto pode corrigir distorções do mundo físico. Um exemplo atual mostra porque o negócio digital é capaz de crescer exponencialmente. Com a epidemia da dengue em São Paulo em 2015, os estoques de repelentes do mosquito ficaram esgotados nas farmácias da capital paulista. Como a epidemia não está presente nos estados do sul do Brasil, muitos paulistas estão comprando os repelentes nas lojas de Porto Alegre (“Avanço da dengue cria corrida por repelentes em SP”, http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/03/1609533-avanco-da-dengue-cria-corrida-por-repelentes-em-sp.shtml, acessado em 01/04/2015). Sem o negócio digital, seria muito difícil e caro realizar tais transações. Se a digitalização do negócio tem este impacto no crescimento do país, então porque não existem políticas públicas de facilitação da criação deste ambiente?

Com toda a sinceridade eu não consigo entender e responder esta pergunta. Parece que é óbvio, mas desde o início efetivo da digitalização do negócio em 2008, o governo do Brasil vem ignorando por completo o potencial econômico deste novo formato de fazer negócios. Nem mesmo o consistente crescimento expressivo do setor consegue sensibilizar o governo nacional. A única movimentação organizada foi o Marco Civil de Internet que exige diversas regulamentações não feitas e já tem defensores da não regulamentação de esquisitices propostas na lei aprovada (“Como regulamentar o Marco Civil?”, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/tec/214157-como-regulamentar-o-marco-civil.shtml, acessado em 01/04/2015)

O Brasil ainda não percebeu que o país criou uma armadilha para o seu crescimento ao promover uma enorme concentração de pessoas em São Paulo. O processo de concentração iniciado nos anos 1960 resultou em mais de 20% da população residindo em cerca de 3% do território nacional. Os recursos naturais estão sendo exauridos ao mesmo tempo que o desenvolvimento de 97% do país está sendo inibido. A concentração em São Paulo leva a situação perversa onde o desenvolvimento está focado em uma região com razoável nível de avanço, pois a grande massa potencializa o lucro e a maior parte do território nacional tem que duelar ferozmente para conseguir algum desenvolvimento. o principal motivo de cidades razoavelmente populosas não terem uma banca de jornal está profundamente relacionado com esta absurda concentração populacional. O atual partido no poder além de nada fazer para resolver o problema da concentração, faz o oposto: Incentiva a concentração e restringe o crescimento do PIB brasileiro.

A digitalização dos negócios tem a propriedade de mudar esta dinâmica. É possível agora estabelecer uma banca de jornal em uma cidade pequena e expandir o negócio para as cidades próximas pela Internet. Em diversos lugares do Brasil já existem as condições de infraestrutura. O que está faltando é a capacitação. E não é apenas para banca de jornal. É possível avançar em áreas complexas como a medicina. Já é possível fazer exames oftálmicos via remota em tempo real. Neste modelo, a infraestrutura é uma perna e a capacitação é a outra.

Para resolver o problema da capacitação, o governo pode adotar medidas simples e coerentes como pactuar no contrato do fies a obrigatoriedade de trabalhar em local determinado pelo estado por cinco anos. É uma forma inteligente e justa de resolver o problema de concentração populacional em São Paulo ao mesmo tempo em que leva capacitações para as pequenas cidades. A consequência da melhor distribuição do conhecimento é um rearranjo econômico que é capaz de produzir um ciclo de crescimento sustentável de longo prazo para o PIB brasileiro. O governo Dilma 2 está com a faca e o queijo na mão. É só ter a competência de fazer acontecer.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Qual a diferença entre expor uma vulnerabilidade e invadir um site?

Qual a barreira que separa o legítimo direito de saber que as suas informações pessoais estão protegidas contra acesso não autorizado e invadir um site? O caso do colégio Bandeirantes (Vazam na Internet dados sigilosos de alunos de escola tradicional de SP, http://idgnow.com.br/internet/2015/03/19/vazam-na-internet-dados-sigilosos-de-alunos-de-escola-tradicional-de-sp/, acessado em 30/03/2015) é um claro exemplo de que o Brasil está atrasado em termos da segurança digital. Ao divulgar um vídeo sobre como acessar informações sobre os alunos, um estudante foi suspenso pela direção da escola sob a alegação de ter invadido o site do colégio. Os outros estudantes protestaram contra tal medida.

A primeira coisa que precisa ficar muito clara é que as informações sobre uma pessoa pertencem à esta pessoa e portanto os alunos deveriam ter o direito de acessar os comentários dos professores sobre eles. Se tal acesso é permitido pela escola aos pais então eles deveriam ter oferecido tais informações aos seus filhos ou deveriam ter exigido que os donos das informações tivessem acesso a elas.

Claramente, a falta de transparência gerou a curiosidade e incentivou o trabalho de pesquisa sobre como acessar. Ter divulgado um vídeo sobre como fazer o acesso, não pode ser considerado como o infringimento de qualquer norma e regulamento. Uma escola atenda ao seu dever de educar e proteger os alunos, teria visto o vídeo e corrigido imediatamente a porta aberta. Se o caso ganhou tal dimensão foi porque a escola tinha uma política de segurança falha. Qualquer um que armazene informações sobre terceiros tem a obrigação de manter práticas de segurança efetivas contra acesso não autorizado. Se a escola não tem condições de manter uma engenharia de segurança capacitada no seu quadro de funcionários então ele não deve disponibilizar informações sobre terceiros pela Internet.

O caso revela muito mais do que os artigos dizem. Os pais devem verificar as políticas de segurança para as informações acessíveis pela Internet. Foi demonstrada a capacitação de um aluno curioso, mas poderia muito bem ter ocorrido à malícia de um ataque de criminosos interessados nestas informações para fins ameaçadores. Por respeito aos envolvidos não vou revelar o que poderia ser feito com tais informações, mas posso assegurar que vários danos no mundo real poderiam ter sido causados.

Ao invés de suspender o aluno que divulgou o vídeo e enfrentar protestos, a escola deveria ter submetido para os seus alunos diversas aulas de segurança digital. Pode parecer inocente e inteligente, mas a escolha de divulgar um vídeo sobre como acessar as informações gerou uma exposição desnecessária da vida privada deles e poderia ter gerado problemas graves. É preciso instruir este aluno que ele deveria ter mostrado a falha de segurança para os seus pais imediatamente a sua descoberta e estes deveriam ter exigido uma correção imediata do problema ou a desconexão destes servidores da Internet. Ele colocou todos os alunos em situação de risco. Punir o aluno não é uma solução. A escola que deveria proteger os alunos falhou e deve assumir o seu erro.

O aluno que descobrir vulnerabilidade no site da escola deve informar os pais em primeiro lugar, porque eles precisam saber que a escola está falhando na segurança digital. Os pais devem exigir transparência na segurança digital através de auditorias externas e testes de invasão. Da mesma forma que a escola responde pela limpeza e segurança física dos alunos perante os pais e responsáveis, a segurança digital deve ser alvo de tais cuidados. Os alunos do Bandeirantes que estão acostumados com carros blindados e até escolta devem também ser acostumados com proteções no mundo virtual. Como a mesma falha pode estar presente em outras escolas seria adequado que toda a sociedade cobre auditórias e políticas de segurança das escolas que oferecem acesso as informações dos alunos pela Internet.

Alunos, governos e pais estão inseridos em um novo mundo. É preciso que todos entendam que segurança digital não é apenas um antivírus nos computadores. É preciso cobrar das escolas que elas apresentem proteções contra acessos não autorizados 24 horas por dia e 365 dias por anos. As escolas nacionais abrigam as futuras lideranças do Brasil. A divulgação de informações não autorizadas pode prejudicar a carreira destes jovens no futuro. O caso do colégio Bandeirantes é um dos primeiros com grande repercussão, no entanto não é o único. As escolas armazenam imagens de câmeras e diversas informações que pertencem aos alunos. Os pais e educadores da escola tem o pleno direito de acesso às estas informações para oferecer a melhor educação possível para os alunos. As escolas têm o dever de assegurar que apenas acessos autorizados sejam permitidos.

domingo, 29 de março de 2015

Gerenciamento financeiro do Service Desk - Básico

A crise econômica tem como virtude a revisão de práticas e atitudes operacionais. O ajuste fiscal do Brasil de 2015 é uma crise de tal dimensão que os seus efeitos não cabem no ano. Em 2016 e 2017, os brasileiros ainda estarão sentindo as consequências da crise de 2015. O Service Desk vem se movimentando com vigor na direção do gerenciamento financeiro no primeiro trimestre de 2015. Muitos estão encerrando a fase romântica da gestão por tentativa e erro e assumiram que precisam de números reais e concretos para oferecer melhorias para os seus clientes.

Dos questionamentos que tenho recebido, o mais frequente é como calcular o custo de um chamado. Alguns usam o ultrapassado método de usar as horas registradas em uma planilha para calcular o custo de um chamado. Em poucos segundos foi demonstrado para estes gestores os graves erros de tal procedimento. Não existiu necessidade de explicitar o resultado fracassado do modelo utilizado, porque todos já perceberam na boca do seu caixa que a bufunfa mingou.

A crise eliminou o efeito ilusório da circulação monetária no caixa do Service Desk e o expôs a dureza dos números. Um gestor resolveu justificar o uso da planilha de horas alegando que 80% dos custos da sua empresa eram referentes aos recursos humanos. Eu provei em alguns segundos que tal resultado é impossível diante da carga tributária brasileira. Como não tinha sentido avançar a análise em caso de falta de descumprimento da legislação nacional, eu expliquei que a vida é muito curta para passarmos uma grande parte com medo de fiscais da receita e trabalhistas. As vezes a proposta de negócio é inviável. Neste caso, o melhor a fazer é aprender mais sobre o Service Desk ou escolher atuar em uma área da atividade econômica mais básica.

Tipicamente uma empresa gasta 20 a 30% do seu custo total em comunicação, em torno de 20% em propaganda e marketing e ainda existem os custos da contabilidade, infraestrutura, impostos e etc. No caldeirão dos custos, uma empresa de Service Desk ou serviços gasta cerca de 60% do seu custo total em ações que não podem ser custeadas diretamente para um cliente ou serviço. Os gastos em propaganda e marketing são essenciais para que a empresa não fique refém de um único cliente. Mesmo que ele seja muito grande é um risco enorme.

A importância da propaganda e marketing é elevada em qualquer tipo e tamanho de negócio. No entanto, o básico da gestão diz que é preciso estar preparado contra imprevistos. Isto significa que é necessário fazer uma provisão contra devedores duvidosos. Os anos seguintes a 2015, vão ser marcados pela continuidade da crise. A real crise que é de confiança apenas começou e empresas de todos os portes estão entrando no perigoso balanço negativo.

Sempre que falo em estrutura empresarial aparecem os arautos do saber que dizem que os seus concorrentes não fazem nada disto e se ele fizer o que deve ser feito, ele vai ficar em desvantagem. Nas crises passadas também existiram tais argumentos. O resultado dos que insistiram na falta de lógica foi a falência. Alguns estão por aí porque saíram de atividades formais e foram para a ilegalidade da informalidade. Como nem todos querem viver com medo das fiscalizações, os que escutaram o bom senso agiram na hora certa e estão mais fortes.

Voltando à questão do custo do chamado, ficou bastante claro que o uso de planilhas de horas é um método caro e impreciso porque a maior parte do custo total de uma empresa de serviços está relacionada com gastos gerais da estrutura organizacional. Então, como alocar diretamente para um cliente a manutenção da infraestrutura de comunicação ou as despesas de propaganda e marketing? Como estabelecer comparações em horas gastas pelos funcionários na realização da mesma tarefa se as condições do ambiente operacional são completamente diferentes? Usar tais números para dimensionar treinamentos mostra um completo desconhecimento do que é realizado. Um atendente do Service Desk que gastou duas horas para consertar um servidor de correio eletrônico não necessariamente teve desempenho pior do que o atendente que gastou uma hora (metade do tempo) para consertar o mesmo servidor no mês passado.

A diferença de tempo entre um e outro é que o segundo pegou a documentação toda bagunçada após o trabalho do primeiro e teve que voltar passos para identificar o real problema do servidor e no final ele documentou tudo para ter certeza que o mesmo problema não iria acontecer de novos. Gestores que desconhecem TI acham que podem usar planilha de horas para medir desempenho, lucro ou necessidade de treinamento. Felizmente as crises vem tirando o espaço deste profissional e agora os gestores capacitados sabem que é preciso medir o desempenho dos serviços com seriedade.

O jeito mais fácil de medir o custo de um chamado é dividindo o custo total pela quantidade de chamados. O problema deste modelo é que ele desconsidera que chamados diferentes necessitam de recursos diferentes e portanto tem custos diferentes. Apesar do modelo funcionar bem em alguns raros casos, em geral ele é impreciso. A melhor forma de resolver o problema das diferenças é usar a estatística. É fácil perceber que as empresas de serviço têm entre três e cinco perfis diferentes de serviços. Cada um dos tipos tem característica e necessidade de recursos bem definida. Isto significa que é possível usar a média ponderada para calcular o custo de cada chamado. O resultado é muito mais preciso e menos oneroso do que o ultrapassado modelo de planilha de horas.

Para que as limitações do modelo de planilha de horas para medir lucro e desempenho dos atendentes do Service Desk fiquem claras vou usar um exemplo do mundo real. Foi a aberto um chamado para recuperação de um servidor de correio eletrônico. O técnico 1 gastou uma hora na sua recuperação. Seis meses depois foi aberto um novo chamado para a recuperação do mesmo servidor e o técnico 2 gastou dez horas na sua recuperação. Qual técnico teve melhor desempenho? Qual técnico gerou maior lucro para a empresa de serviços?

O gestor despreparado que usa o ultrapassado modelo de planilha de horas como ferramenta de gerenciamento vai gastar dinheiro do Service Desk treinamento o técnico 2 e vai afirmar que o primeiro chamado atendido pelo técnico 1 gerou maior lucro. O gestor capacitado que sabe que gerenciar é analisar o filme e não uma foto vai treinar o técnico 1 e parabenizar o técnico 2 pelo lucro gerado. Porque tanta diferença de avaliação. O detalhamento do caso explícita as razões. Os dois técnicos recebem o mesmo salário hora e o lucro só é real quando ele entra no caixa da empresa.

Como o técnico 1 sabe que é usada uma planilha de horas para medir o desempenho, então ele foi lá e encontrou uma solução de contorno para o problema sem identificar a sua causa raiz. Vários parâmetros do servidor foram alterados e ele não documentou as mudanças para poupar tempo e finalizar rapidamente o atendimento. Depois deste atendimento foram abertos diversos novos chamados para este servidor, sem identificação do problema porque as mudanças realizadas pelo técnico 1 não foram documentadas. Todos os técnicos repetiram o comportamento do técnico 1 e fechavam o chamado após um desligar e ligar do servidor. Todos queriam boas avaliações pelo rápido atendimento.

Na nova parada do servidor de correio eletrônico, o cliente já estava aborrecido e rejeitou a visita de todos os técnicos anteriores. Ele ordenou um técnico que resolva o problema em definitivo. O técnico 2 gastou dez horas no atendimento, porque ele inicialmente verificou todos os parâmetros do servidor e consertou e documentou a configuração. Depois ele identificou a causa raiz do problema e baixou a correção. Após esta visita o servidor funcionou por anos sem problemas.

O capacitado cliente fez uma revisão de todas as ordens de serviço realizadas e exigiu o estorno de todos os valores cobrados incluindo a visita do técnico 1. O lucro que gerente despreparado disse que conseguiu pela sua brilhante estratégia de usar a planilha de horas foi totalmente perdido pelo estorno exigido pelo cliente. Para não perder o contrato e ser processado, o Service Desk aceitou o estorno e o que era um lucro virou uma perda.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Quanto custa não planejar?

A copa do mundo de futebol no Brasil em 2014 foi um evento tão especial que ela é uma das raras situações onde é possível quantificar com precisão os benefícios do planejamento desenvolvido por um escritório de projetos. O artigo “Lucro da Fifa com Copa no Brasil atinge valor recorde” publicado no jornal Folha de São Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/212849-lucro-da-fifa-com-copa-no-brasil-atinge-valor-recorde.shtml) no sábado 21 de março de 2015, revelou que a Fifa lucrou 8,4 bilhões de Reais com a realização da copa do mundo de futebol no Brasil. Como diria o “molusco mor”, nunca na história deste país a Fifa ganhou tanto dinheiro. O lucro foi bem maior que o da copa de 2010 na África do Sul (R$ 7,6 bi) e em 2006 na Alemanha (R$ 6,4 bi).

A FIFA planejou cuidadosamente este lucro desde o momento em que conquistou renúncias na arrecadação de impostos que caberiam à ela, parceiras, empreiteiras e afins de 1,1 bilhões de Reais no período de 2010 a 2014 apenas em impostos federais (Fonte: Tribunal de Contas da União). É impossível negar que o projeto da copa de 2014 foi muito bem planejado e executado pelos profissionais da Fifa.

O Brasil que apesar dos puxões de orelhas e chutes na retaguarda da FIFA, escolheu a estratégia do improviso para a realização da copa do mundo celebrada na celebre frase do ministro dos esportes da época de que o ápice de um casamento é o atraso da noiva, conquistou como resultado um enorme prejuízo financeiro. Em março de 2015, o prejuízo desde o fim da copa dos estádios de Brasília, Manaus e Cuiabá alcançou a cifra de 10 milhões de Reais. Como as perdas são mensais, a cada dia o prejuízo aumenta.

A falta de planejamento e gestão do projeto copa do mundo gerou a impressionante situação onde o mesmo país concedeu R$ 1,1 bilhão de isenção em impostos federais para a realização da copa vem no início do ano de 2015 (poucos meses após a copa) com um ajuste fiscal de aumento de impostos e tarifas públicas. Em outras palavras, os trabalhadores foram chamados para pagar a conta do improviso e falta de planejamento.


A consequência da ausência de um projeto para explorar oportunidades derivadas do evento pode ser vista no déficit recorde em transações correntes em 2014 de quase 91 bilhões de dólares. O resultado negativo da balança comercial de 2014 foi o pior desde o ano de 2001. Um bom plano teria aproveitado a oportunidades e gerado receitas recordes do turismo. Como diziam os membros da petelândia: “É tois na fita”.

terça-feira, 24 de março de 2015

Suporte nota dez

Existem diversas oportunidades de melhoria para o atendimento do suporte de Tecnologia de Informações e Comunicações (TI ou TIC). Os usuários estão cada vez mais descontentes. Os quatro principais motivos para a insatisfação dos usuários estão relacionados com a interação com os atendentes. O primeiro motivo é que o resultado de uma espera de horas pelo usuário por uma resposta. Estamos falando de uma experiência frustrante.

O segundo motivo está relacionado com a crença que basta pertencer a geração Z ou geração Millenium ou geração Y para ser um nativo digital e ser um especialista em computadores e equipamentos eletrônicos. O contato dos profissionais das gerações dos nativos digitais com os usuários mais velhos está extremamente empobrecido. Eles simplesmente assumem que tudo sabem e os usuários não entendem o que acontecendo e desligam o seu ouvido. Estes atendentes não escutam o que está sendo falado pelos usuários e por causa disto os defeitos se repetem diversas vezes.

A falta de capacidade auditiva impede que o problema seja reconhecido e resolvido. Em outras situações a central simplesmente não fala a mesma língua que os usuários. Os atendentes insistem em usar termos técnicos e jargões para esconder os erros e as falhas ocorridas. O terceiro motivo está relacionado com o foco do trabalho do atendimento. A equipe de suporte deve ajudar o usuário. Isto significa que prometer coisas impossíveis de entregar está fora do escopo de atuação da central de serviços. Estas promessas só atrapalham a vida do usuário.

O quarto motivo está diretamente relacionado com o modelo de contratação dos funcionários da central. Pessoas insatisfeitas não são capazes de resolver as necessidades dos usuários de forma satisfatória. Um aumento da quantidade de trabalho que gere sobrecarga resulta em atendentes desmotivados e usuários insatisfeitos. Para que os funcionários possam ser cobrados pelo desempenho é preciso que as metas sejam claras e alcançáveis. A satisfação dos usuários do suporte só acontece quando as promessas são entregues. Para as necessidades fora da capacidade de atendimento da central de serviços é preciso deixar claro que um projeto especifico será desenvolvido solicitando recursos adicionais.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Modismos

A área de TI no brasil é cheia de Modismos que propõem soluções que não resolvem e buscam apenas confrontar com as alternativas existentes. Desde 1993, eu venho presenciando um confronto entre metodologia ágil e cascata para o desenvolvimento de programas. Mais recentemente foi incorporado o DevOps nesta batalha. Nada tenho contra o DevOps e outras técnicas da metodologia ágil. Elas são boas funcionam bem e resolvem muitos problemas. Eu uso no meu dia a dia e sei do enorme valor delas.

No entanto elas não são capazes de corrigir falhas estruturais na ti brasileira. A dura realidade é que nem a metodologia ágil, nem a cascata são capazes de resolver o grave problema de qualificação da mão de obra nacional. A velocidade das mudanças nos negócios é enorme e exige um desenvolvimento cada vez mais rápido. No entanto, o desenvolvimento brasileiro ainda comete o mesmo erro por quase três décadas. Os profissionais de TI pouco ou nada conhecem sobre o negócio e por isto o processo de captura dos requisitos dos projetos é muito falho.

Em geral, a captura dos requisitos de um software é feita de uma forma apressada e amadora. Normalmente, existe a pretensão de estabelecer entre usuário e desenvolvedor sem conhecimento do negócio um canal de comunicação de duas ou três horas para os requisitos. O resultado final desta pratica é um documento horizontal com uma infinidade de requisitos e sem nenhuma verticalidade. Verticalidade significa profundidade na especificação de cada uma das funcionalidades e horizontalidade reflete a quantidade de funcionalidades. Como nem sempre todas as funcionalidades solicitadas são úteis, o desenvolvedor sai deste encontro sem saber o que vai desenvolver e o usuário acha que fez a sua parte no trabalho.

Nem metodologia ágil, nem a cascata, nem o DevOps, nem qualquer outro método é capaz de corrigir tal distorção. As empresas querem maior velocidade no desenvolvimento de software, mas não querem investir o tempo correto no projeto. Iniciar um desenvolvimento com uma enorme quantidade de funcionalidades que em geral são inúteis como requisito do projeto é pedir para fracassar. Por isto, tantos falam que o método a b ou c não funciona. É preciso elencar as prioridades e aprofundar a descrição das funcionalidades. Isto é feito através do function e code description. Apenas depois desta etapa é que é possível trabalhar eficientemente com uma metodologia de desenvolvimento. Eu já usei este procedimento várias vezes e posso atestar que o resultado final é muito bom desde que exista coerência.


O function description é o documento onde todas as funcionalidades do software são descritas com clareza e profundidade. A leitura deste documento pelo desenvolvedor faz com que ele entenda exatamente o que está sendo solicitado. O code description descreve como o código será desenvolvido. Neste documento são elencadas as prioridades das funcionalidades em função das necessidades do negócio. Este é ponto de partida para quebrar o projeto em unidades funcionais menores independentes que podem serem entregues em prazos menores. O code descrition é a linha base para as famosas trocas entre usuários e desenvolvedores. O pleno regime de trocas aumenta a velocidade das entregas porque o que é mais importante ou mais estratégico é entregue antes para a operação do negócio. Não existe perda de tempo em trabalhos irrelevantes para o negócio e novas funcionalidades podem ser incorporadas ao projeto sem impactar o custo qualidade e prazo do projeto. Neste caso, a matriz de prioridade permite trocar funcionalidades, atividades e etc. para que o objetivo de negócio seja alcançado.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O caso WhatsApp no Brasil

O caso do WhatsApp (Juiz do Piauí determina suspensão do aplicativo WhatsApp no Brasil, http://idgnow.com.br/internet/2015/02/25/juiz-do-piaui-determina-suspensao-do-aplicativo-whatsapp-no-brasil/, acessado em 26/02/1015) tem tudo para se tornar emblemático no Brasil. O Marco Civil de Internet (MCI) que necessita de muitas regulamentações não foi aderido pela imensa maioria das empresas de Internet americanas que estão de alguma forma presentes no Brasil. No padrão cultural dos Estados Unidos o carteiro não é responsável pelo conteúdo das mensagens. Quem responde pelo conteúdo de uma mensagem é o seu autor.

A justiça e advogados brasileiros já tentaram em diversos momentos envolver as empresas americanas como Facebook, Google e etc. em processos sobre conteúdo. Em todos os casos as teses foram rejeitadas e as corporações não moveram um único milímetro da sua diretriz de liberdade de expressão responsável. Nenhuma rede social mudou contratos, termos e políticas em função do Marco Civil de Internet do Brasil. Falar de apenas uma empresa que desrespeita o MCI é algo que causa espécie em um cenário de desrespeito generalizado. Como a nação brasileira é a terra das leis que não pegam, este cenário não é novo.

Foi afirmado que o SindiTeleBrasil disse que a medida pode causar enorme prejuízo para milhões de brasileiros que usam os serviços no trabalho. Fonte: “Ação judicial no Piauí determina suspensão do WhatsApp no Brasil”, http://tecnologia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/02/25/acao-judicial-no-piaui-determina-suspensao-do-whatsapp-no-brasil.htm, acessado em 26/02/1015

O fato curioso do caso é que finalmente parece que foi descoberto o enorme volume monetário nacional movimentado nas redes sociais. Já existe um claro sentimento das perdas que podem ser provocadas por uma quebra de braço com as empresas americanas. Sindicatos patronais e advogados estão empenhados em impedir a interrupção do WhatsApp por conta destas perdas. As empresas americanas estão dispostas ao enfrentamento pelo elevado valor que a liberdade de expressão responsável tem no seu país. Para elas o Brasil é um mercado importante e valioso, mas não existe justificação para afrouxar valores morais e éticos por causa dele.


O que será que vai acontecer com o MCI do Brasil neste novo contexto mundial? Vamos perder bilhões ou vamos aderir uma ética moral mais consistente e elevada?

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

The Big Mistake

O artigo “O agonizante momento das boas práticas” (http://istbrasil.blogspot.com.br/2015/02/o-agonizante-momento-das-boas-praticas.html, acessado em 17/02/1025) revelou erradamente que as melhores práticas como ITIL, COBIT estão agonizando no Brasil. O inexistente não pode agonizar. Na dura realidade nacional, as melhores práticas sequer nasceram no Brasil, por isto elas não podem estar agonizando.

O artigo acerta quando cita que existem ilhas de excelência. O Brasil sempre foi capaz de produzir ilhas em um oceano de mediocridade. Tal fato não é novidade, pois elas existem em diversos campos. Isto acontece porque existem setores da economia brasileira que não contam com a proteção governamental e por isto precisam competir intelectualmente contra os tubarões turbinados do resto do planeta (por mais inesperado que possa parecer, estas firmas brasileiras competem e vencem os gigantes).

Aliás, a proteção governamental é o exato motivo para o não nascimento das melhores práticas no Brasil. A sociedade nacional gosta e aprova monopólios do estado ou que estejam sob o controle dele. Este segmento que é majoritário no Brasil entende que o político de plantão é capaz de resolver cada um dos problemas dos milhões de brasileiros. Esta forma de agir e pensar gerou como consequência empresários e gestores com preocupações apenas de aparência com as melhores práticas. É o tradicional modelo parnasiano nacional onde a forma ou melhor aparência tem mais importância que o conteúdo.

Neste contexto, os constantes fracassos da economia nacional são simplesmente esquecidos a cada eleição onde invariavelmente surge um novo “gênio” salvador da pátria. Tivemos tantos exemplos que seria injusto citar só alguns. O mais famoso foi o Fernando Collor de Melo.

Se os fracassos são esquecidos e as perdas absorvidas pelos pobres do Brasil então porque as empresas iriam atrás de melhores práticas? Alguém se lembra da reserva de mercado em informática e dos bilhões entregues para grandes e ricos bancos donos das empresas de TI?

São raros os que lembram e posso garantir que muitos profissionais de TI defendem medidas similares de reserva de mercado sem sequer conhecer o estrago realizado no passado. Quais empresas daquela época sobreviveram? Existe uma indústria de informática brasileira? Lamento dizer, mas o resultado do monopólio controlado pelo estado brasileiro foi perda e atraso. Não foram alguns centavos, foram dezenas de bilhões perdidos.

Para que fazer o esforço em melhores práticas se é possível ficar pendurado no governo grátis e tirar dos milhões de pobres para dar para uns poucos ricos? O Brasil navega há muito tempo no oceano do monopólio e concentração de renda. Vou citar dois casos antigos e um atual para mostrar que nada mudou na forma de pensar na renda e trabalho na sociedade brasileira nos últimos 40 anos.

Nos anos 1980 ficou famoso o caso Grupo Coroa Brastel. Garanto que este escândalo é desconhecido ou esquecido pela maioria da população brasileira. O dono do grupo foi convencido pelo governo da ditadura militar para a compra de uma corretora falida. Ele era milionário e bem sucedido empresário à época. Ele tinha à sua disposição os melhores conselheiros sobre melhores práticas. Ele ignorou todos os avisos e números negativos e atendeu aos apelos do governo. Pouco tempo depois quebrou e morreu pobre. Ele esqueceu as melhores práticas, pois entendia que seria favorecido com poderes de exclusividade por ter ajudado o governo.  Quem perdeu? Trabalhadores, investidores e pobres.

Também nos anos 1980 ficou famosa a frase “Plante que o João garante”. Nunca na história da agricultura nacional o resultado foi tão negativo. Na mesa do brasileiro muitas coisas faltavam e outras eram mais caras todos os dias. Neste momento nasceu a inflação galopante no Brasil. Quem perdeu? Os trabalhadores que tiveram seu salário arrochado em vários momentos. Quem mais perdeu? Os investidores. Muitos foram embora e não voltaram mais. O Brasil já teve fábrica da GE por exemplo

Mais recentemente temos o escândalo do petrolão da empresa estatal Petrobrás que atua em regime de reserva de mercado ao comprar conteúdo nacional. Lembro que a governança da Petrobras já foi elogiada por centenas de profissionais de TI do Brasil. A governança da empresa foi exaltada como modelo em diversos congressos e seminários. Claramente ela gastou muito dinheiro em melhores práticas. Em 2015, foi estimada uma perda de quase 90 bilhões por perdas de corrupção, erros estratégicos e falhas operacionais. É muito difícil entender como tantos “especialistas” de governança de TI conseguiram elogiar vigorosamente a consistente adoção de melhores práticas para tecnologia de informações pela Petrobrás e encontrar uma realidade onde os sistemas de informações não detectaram perdas de dezenas de bilhões?

O petrolão deixa claro um dos principais motivos do não nascimento das melhores práticas de TI no Brasil. Claramente, o país é extremamente carente de profissionais qualificados. Na era do conhecimento quem não tem conhecimento não tem nada. Quem perdeu com o petrolão? Os pobres do Brasil e os trabalhadores dos fornecedores da Petrobras.

Mais uma vez a reserva de mercado e monopólio estatal geraram perdas enormes para o Brasil. Quem sabe em 2030 o país se recupere. Até lá será mais uma década perdida.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Salário mínimo

Diante da crise da economia que o Brasil está enfrentando em 2015 e como apesar de ter sido afirmado que nem que a vaca tussa os direitos trabalhistas seriam alterados para pior, eles foram eu resolvi pesquisar sobre o poder de compra do salário mínimo brasileiro. Na comparação com os outros países é fácil perceber que o salário mínimo brasileiro está na rabeira. Na realidade, mesmo que ele estivesse em último lugar isto não é um resultado obrigatoriamente negativo. A questão chave é se o salário mínimo supre as necessidades mínimas do trabalhador brasileiro.

A constituição brasileira define claramente os itens que fazem parte do poder de compra do salário mínimo. É até possível polemizar sobre um ou outro item específico, mas é muito claro que o conjunto da obra tem uma boa consistência e reflete parâmetros mínimos. Alguns, como eu, entendem que o salário mínimo é mínimo demais. Com base na constituição o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) formatou uma base histórica do valor do nominal do salário mínimo e do seu poder compra (http://www.dieese.org.br/analisecestabasica/salarioMinimo.html, acessado em 11/02/1015). É importante destacar que mesmo os mais radicais defensores do mercado auto regulatório reconhecem que as empresas que contratam os funcionários exercem poder de monopólio no mercado de trabalho e são capazes de forçar um salário mínimo para um patamar bem abaixo das necessidades mínimas de um ser humano. Existe uma clara imperfeição das informações.

Este é o principal motivo que explica o fato do governo central dos Estados Unidos e diversos países interviram no mercado e fixarem um patamar mínimo da renda do trabalho. As imperfeições do mercado são intensas o suficiente para exigirem que uma estrutura externa atue como xerife arbitrador. Os números brasileiros do poder de compra do salário mínimo são estarrecedores e de certa forma explicam a baixa produtividade e o uso de práticas distorcidas. Até 2014, muitos trabalhadores usavam o seguro desemprego como fonte complementar de renda. Eles trabalhavam por um ano ganhando salário mínimo, eram despedidos e recebiam o seguro desemprego ao mesmo tempo que trabalhavam na informalidade. Desta forma eles conseguiam uma renda maior mais próxima da renda mínima de sobrevivência.

O primeiro problema deste estratagema é que ele desorganiza a produtividade da economia ao mesmo tempo em que mascara o grave problema do salário mínimo. Uma economia que não é capaz de remunerar o trabalho em um patamar mínimo de sobrevivência está gravemente doente. É muito grave que o país não tenha capacidade de remunerar minimamente o trabalho. Isto é um sinal de processos produtivos equivocados. O segundo grave problema da renda muito abaixo do patamar mínimo de sobrevivência é o desincentivo para o trabalho. Ter uma parte da população sem incentivo algum para o trabalho é um problema social grave que aumenta a necessidade do estado em segurança e outras demandas cujo o resultado final é uma carga tributária muito elevada. Não é mero acaso que a carga tributária brasileira é de quase 40%.


É evidente que desde o governo do Fernando Henrique Cardoso (FHC) em 1994 vem existindo avanços no poder de compra do salário mínimo. No início do governo FHC em 1994, o poder de compra do salário mínimo nominal era de 9,92% do salário mínimo necessário. Em 2002 no final do governo FHC era de 15,13%, uma alta de 5 pontos percentuais. No final do governo Lula o salário mínimo nominal era 22,07% do salário mínimo necessário, uma alta de 7 pontos percentuais e em 2014 no final do primeiro governo Dilma o salário mínimo nominal era 24,82% do salário mínimo necessário, uma alta de pontos percentuais. O avanço nos últimos vinte anos entre 1994 e 2014 foi de apenas 15 pontos percentuais. É preciso acelerar esta velocidade. No atual ritmo apenas em 2104 o poder de compra do salário mínimo vai ser mínimo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Crise da água

Não e difícil perceber que a crise hídrica em São Paulo é um assunto muito maior do que banhos e carros lavados. É uma grave crise econômica que pode levar o Brasil inteiro para a bancarrota. A água é o principal insumo para a vida humana e a falta dela já fez populações inteiras mudarem e certamente vai fazer de novo.

A crise da forma que está sendo conduzida pelo governo federal, estadual e municipal pode levar o Brasil para o posto de maior catástrofe humana da história da humanidade. É um assunto de altíssima gravidade que vem enfrentando a mediocridade política dos partidos nacionais. A falta de água ao afetar a indústria e agricultura paulista vai gerar desemprego e alta dos preços no país inteiro. Uma enorme pressão inflacionaria está no ar. Qual investidor internacional escolheria o Brasil como destino dos seu dinheiro em quadro de elevado descontrole financeiro com risco real da maior cidade do pais ter que ser evacuada às pressas por falta de água? Quem vai manter o seu dinheiro no Brasil em um cenário de tamanha precariedade?

É preciso que as autoridades encontrem um caminho antes que o caos seja consumado. Os episódios de segurança da cidade de Itu por falta de água mostraram que a população está impaciente. A repressão policial seria um desafio enorme pelo tamanho da população afetada.

Um racionamento regional rigoroso em excesso como o proposto de 5 dias sem água por 2 com água levaria para uma migração entre regiões e pode gerar uma situação de caos maior ainda. É preciso que o governo organize as medidas em linha com as necessidades e consequências. O amadorismo precisa sair de campo. É preciso profissionalizar e acertar de primeira.

Muitos estão atribuindo para o governo do estado de São Paulo e para a Sabesp a responsabilidade pela crise hídrica. Falam-se nas perdas, falta de investimento e etc. Mas será que o problema é tão restrito? É possível afirmar que existem outros atores no circo de horror da crise hídrica.

O péssimo código florestal promulgado em 2012 além de ser questionável do ponto de vista constituição brasileira, permitiu uma tamanha devastação da floresta amazônica que mudou o ciclo de chuvas da região sudeste do Brasil. Será que é mera coincidência que após o código florestal de 2012, os estados do sudeste estejam enfrentando os seus piores momentos na história de escassez de chuvas? Vários estudos sérios relacionam a devastação Amazônia com a redução das chuvas no sudeste. Já está na hora do país entender que ele não tem capacidade para ser o celeiro do mundo. Destruir a floresta amazônica para produzir soja ou gado é um ato de uma burrice incomensurável.

A obra do Aldo Rebelo no código florestal não foi a sua única contribuição para a crise hídrica. Alguém acha que é mera coincidência que os estados que mais receberam turistas na copa de 2014 estejam correndo risco de racionamento de água? São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais foram os destinos da maioria dos turistas na copa. Turistas que consumiram muita água sem preocupação alguma de economia. Nenhuma cartilha do ministério dos esportes pedia que estes turistas economizassem água. Enquanto eles gastaram rios de água, a população que mudou de hábitos e economizou muito ficou a ver navios. Milhões de litros de água foram gastos com turistas e obras civis para a copa do mundo.

Qualquer ser humano capacitado teria trocado as cidades sedes em função da crise hídrica que já existia em 2014. Faltou bom senso e capacitação. Infelizmente a conta da falta de capacidade do governo federal em relação a crise hídrica vai ser paga pela população de São Paulo.

O governo federal ofereceu e vem oferecendo mais uma contribuição para aumentar a crise hídrica em São Paulo. O programa minha casa, minha vida incentiva a verticalização das moradias. No lugar onde moraram uma ou duas famílias agora moram graças aos programas centenas de famílias. O programa em nenhum momento se preocupou com a mudança do perfil do consumo de água nos financiamentos. O planejamento foi inexistente. Mudou-se completamente o perfil de consumo na região abastecida pelo reservatório da Cantareira sem que existisse contrapartida de investimento na captura da água. O sistema Cantareira depende de chuvas em Minas Gerais o que mostra o tamanho da irresponsabilidade nestes financiamentos. É óbvio que o programa deveria centralizar o atendimento em regiões de captação de água mais fácil e em torno de um equilíbrio na verticalização.

Quando pensamos que o circo dos horrores da crise hídrica de São Paulo está completo, percebemos que existe mais um ator. O prefeito Fernando Haddad decretou o fim da inspeção veicular na cidade de São Paulo. Será mera coincidência que as maiores temperaturas da história da cidade ocorreram depois do fim da inspeção veicular? As ilhas de calor formadas pela poluição dos carros aumentaram a sensação térmica do calor e elevaram o consumo de água pelos paulistas. Será que é mera coincidência que as maiores temperaturas da história da cidade de São Paulo ocorreram ou durante o período de suspensão do rodízio de carros ou imediatamente após? Claramente as chuvas de janeiro de 2015 não conseguiram dispersar as nuvens de poluição geradas pelos carros sem inspeção veicular e reduzir o efeito de ilha de calor.

O estado de São Paulo concentra mais de 20% da população brasileira em um espaço menor que 3% do território nacional. A água não é o único recurso escasso no estado. Recursos como ar, moradia, mobilidade e etc. também são escassos e vão acabar caso não exista um completo replanejamento da ocupação do território Paulista. Para não ficar apenas com o dedo na ferida é importante oferecer algumas sugestões para permitir que o estado não vire um deserto e derrube a economia do Brasil.

A primeira e mais óbvia e a paralisação de todas as obras para novas moradias no estado. O governo federal precisa assumir os prejuízos causados pela sua irresponsabilidade de financiar moradias sem planejamento de água. A segunda e mais importante medida é a intensificação da utilização da água de reuso. Todos os lugares públicos incluindo instalações privadas como shoppings, estádios de futebol, escolas, clubes e etc. devem utilizar apenas água de reuso.

·         Reduzir drasticamente a captação de água pela indústria e agricultura. Obrigando o uso exclusivo de água de reuso. Liberar a captação de água apenas para o essencial. Produção de bebidas como cerveja e refrigerantes deve ser suspensa no estado até a normalidade hídrica.
·         Suspensão de todos os eventos em 2015 que não sejam essenciais como carnaval formula 1 corridas de rua etc. Tolerância zero para o consumo não essencial de água.
·         Transformação de todas as instalações de residenciais e comerciais para a utilização de apenas de água de reuso nos sanitários. Água de reservatório deve ser destinada apenas para o consumo humano.
·         Determinar que bares e restaurantes usem apenas pratos e talheres descartáveis eliminando assim a necessidade de lavagem. Incentivar via impostos que o mesmo ocorra nas residências.
·         Aumentar o preço da água para desincentivar o seu desperdício.

·         Incentivar todos que possam mudar temporariamente ou definitivamente do estado.

Legado copa

Em julho de 2014 o Brasil foi anfitrião da copa do mundo de futebol FIFA. Em janeiro de 2015, os principais estados da região sudeste do Brasil estão em risco de racionamento de água. Será mera coincidência, ou será que existe algum relacionamento entre estes fatos?

Os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo receberam durante o mês da copa uma enorme quantidade de turistas de outros estados e estrangeiros que ocuparam as suas hospedarias. Estes turistas geraram um intenso gasto de água nos combalidos reservatórios no momento da seca do inverno. O fraco ciclo de chuvas do verão não está sendo capaz de recuperar os reservatórios.

Parece que os estrategistas do planejamento da copa apostaram todas as fichas nas chuvas de verão e perderam. No entanto, os turistas não foram os únicos responsáveis pelo atual desequilíbrio hídrico. Estes estados, realizaram vultosas obras civis nos anos anteriores para a preparação para a copa. Foram obras públicas e privadas. Como todos sabem a construção civil é uma emérita consumidora de água e em alguns é uma grande desperdiçadora.


Claramente não é uma mera coincidência que os estados do Rio de janeiro, Minas Gerais e São Paulo estejam atravessando risco de racionamento pouco depois da copa. Gastar recurso finito como a água sem planejamento leva invariavelmente para a escassez. Congratulações para os que realizaram a copa das copas. 

Marco Civil Internet (MCI)

O MCI promulgado em 2014 está em fase de regulamentação. É um momento muito importante porque nenhum dos três pilares (Neutralidade, Privacidade e Liberdade de Expressão) estão bem atendidos no atual texto. É de fundamental importância que a população brasileira participe deste processo. Os endereços para a participação são: http://www.marcocivil.mj.gov.br e www.dadospessoais.mj.gov.br. As consultas públicas realizadas pelo  Ministério da Justiça começaram no dia 28 de janeiro e vão até o dia 27 de fevereiro de 2015.

Como exemplo da importância da correta regulamentação do MCI vou citar um caso concreto de informações desencontradas. A liberdade de expressão exige coerência com o conteúdo original. É uma situação onde um trabalho sério e respeitado foi utilizado. É preciso que a regulamentação do MCI estabeleça claras sanções para quem é impreciso com o conteúdo original da fonte citada.

“Com 29 milhões de visitantes estrangeiros no ano passado, a América do Sul teve um aumento de 6%, o dobro em relação a 2013.”. Fonte: “Turismo internacional cresceu 6% na América do Sul em 2014”, http://www.embratur.gov.br/piembratur/opencms/salaImprensa/noticias/arquivos/Turismo_internacional_cresceu_6_na_America_do_Sul_em_2014.html, acessado em 04/02/1015.

“Para a OMT, a realização da Copa do Mundo no Brasil contribuiu para os resultados positivos na América do Sul”. Fonte: idem.

As frases anteriores revelaram que o crescimento do turismo na América do Sul foi de 6% e que o Brasil ofereceu contribuição significativa segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT). Com base nestes números o presidente da presidente da Embratur (Instituto Brasileiro de Turismo), afirmou que a Copa do Mundo 2014 foi um sucesso.

”Arrivals to Central America and South America (both +6%) grew at double the rate recorded in 2013 and well above the world average”. Fonte: “Over 1.1 billion tourists travelled abroad in 2014” http://media.unwto.org/press-release/2015-01-27/over-11-billion-tourists-travelled-abroad-201, acessado em 04/02/2015

“Among the other two main emerging markets, the Russian Federation (-6%) clearly lost strength in 2014, while Brazil still grew by 2%, despite the appreciation of the US dollar against the Brazilian real and slower economic growth.”. Fonte: idem.

O texto original revelou uma realidade bem diferente do sucesso. A OMT realmente afirmou que o turismo na América do sul cresceu 6% em 2014 (dobro do crescimento de 2013). No entanto, ela também afirmou que o turismo no Brasil cresceu 2%. Na matemática, as parcelas que estão abaixo do resultado final representam contribuições negativas, ou seja o crescimento de 2% bem abaixo do resultado geral da América do Sul de 6% é uma contribuição negativa. Em outras palavras, a América do Sul cresceu 6% apesar do Brasil e não por causa do Brasil.

O que foi chamado de sucesso pela Embratur é questionado pelo resultado alcançado. Países que não realizaram a copa cresceram muito mais que os 2% do Brasil. O texto afirmou que o crescimento global foi de 4,7%. O crescimento de destinos que não realizaram a copa do mundo como o México e Caribbean foi de 7%. O crescimento da América do Norte que também não realizou a copa do mundo foi de 8%. Uma enorme quantidade de destinos cresceu muito mais de 2% em 2014 e não foram sedes da copa do mundo. A afirmação do sitio da Embratur de que o resultado de 2% de crescimento do turismo do Brasil em 2014 é uma demonstração do sucesso da copa do mundo não tem contrapartida no sitio da OMT.


É muito importante que a regulamentação do MCI puna severamente as distorções do conteúdo e obrigue a indicação da fonte junto ao texto para que a liberdade de expressão do brasileiro seja preservada. Liberdade de expressão implica no direito ao acesso da informação precisa.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Economia dos aplicativos

O governo federal do Brasil iniciou o seu novo mandato em 2015 com mais uma proposta "genial". No artigo “Shoppings já acionam geradores em horário de pico de consumo” (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/206656-shoppings-ja-acionam-geradores-em-horario-de-pico-de-consumo.shtml, acessado em 04/02/2015) o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, disse que quer que os shoppings centers usem mais energia de gerador e mudem horários de funcionamento.

O primeiro problema da “genialidade” proposta é que estes geradores foram dimensionados para suprir eventuais falta de energia. Eles não servem para operações rotineiras e prolongadas. O segundo aspecto é o agravamento do efeito estufa pela queima de combustível fóssil. A questão do horário é uma facada em uma economia que já está fortemente ferida. Considero impressionante que em apenas meio ano após a copa do mundo de futebol, o Brasil (que realizou a copa das copas. Será?) enfrente restrições de energia elétrica. O governo federal não declarou em 2014 para os “pessimistas de plantão” que a oferta de energia era abundante?

A única coisa com algum sentido do discurso do ministro foi o plano para lâmpada Led. Infelizmente ele é mais discurso do que fato. Seria bom o atual governo rever suas estratégias. Este preâmbulo permite destacar a importância da economia dos aplicativos no nosso estilo de vida atual. Para quem não sabe a economia dos aplicativos é definida como a utilização em larga escala de aplicativos móveis como canal de relacionamento entre as empresas e os consumidores ou entre empresas e funcionários, parceiros e fornecedores

Já existem exemplos concretos da presença dela no nosso dia a dia. Ao comprar uma televisão, estabilizador de energia, geladeira, carro e etc. os usuários recebem aplicativos que permitem configurar e monitorar o equipamento adquirido. Em pouco tempo os consumidores ficam dependentes destes aplicativos que controlam desde o consumo de energia elétrica até a rotina de manutenção dos equipamentos com agendamento automático. Neste caso, a economia dos aplicativos participa do processo de pós-venda dos fabricantes e fornecedores. Os aplicativos oferecem informações valiosas sobre o perfil de utilização e permitem explorar importantes oportunidades de negócio. As informações sobre utilização e manutenção geram dependências pela excelência e são extraordinárias ferramentas para a fidelização dos clientes.

Existem também os aplicativos que funcionam na etapa de pré-venda de alguns produtos como a lâmpada Led mencionada pelo ministro. A comparação da lâmpada led com a fluorescente e incandescente mostra que é preciso fazer cálculos bem acima do nível trivial para revelar as suas vantagens e benefícios para o consumidor. O preço de varejo mostra que ela é bem mais cara que a lâmpada incandescente, mas gasta muito menos energia e gera muito menos calor.

Nas altas temperaturas brasileiras a geração do calor das lâmpadas incandescentes é combatida pela refrigeração do ar condicionado, ventiladores e etc. Este consumo extra de energia elétrica só ocorre por causa do calor gerado pelas lâmpadas incandescentes, portanto este custo também deve entrar na comparação das lâmpadas. Vendedores e consumidores comuns tem muita dificuldade para calcular todos os fatores e o aplicativo é uma excelente solução como ferramenta de vendas e tomada de decisão. Existe uma enorme quantidade de equipamentos que tem a mesma característica de complexidade de avaliação do custo e benefício que a lâmpada led.

Como efeito de comparação é possível afirmar que uma lâmpada de 100 Watts incandescente produz a mesma quantidade de luz de uma de 23 Watts fluorescente compacta e de uma de 14Watts Led. Apenas a lâmpada led não produz calor. A lâmpada led converte 95% da energia consumida em luz e dura em média entre 30 e 50 mil horas e a lâmpada incandescente converte apenas 10% da energia consumida em luz e dura em média mil horas.

A grande quantidade de variáveis da equação do benefício é o principal motivo pelo qual a família de aplicativos de pré-venda de lâmpadas led vem crescendo tanto. A distorção das informações é tão intensa que existe uma enorme janela de oportunidades abertas para a economia dos aplicativos. Os aplicativos de chame táxi como “Easy Taxi” são exemplos de como as aplicações de pré-vendas já estão presentes no nosso dia a dia.

A sharing economy ou consumo colaborativo ou economia colaborativa é extremamente favorecida com a economia dos aplicativos na etapa de pré-venda. O consumo colaborativo ocorre quando as pessoas compartilham a utilização de um bem comum. O compartilhamento pode ocorrer por causa de horários de utilização diferenciados por causa da sazonalidade, por necessidades complementares e etc.

Um sério candidato para o consumo colaborativo no futuro é o carro particular. Em pouco tempo as pessoas estarão compartilhando carros e garagens através de aplicativos. Esta imensa base de informações poderá ser utilizada pelos governos para políticas públicas da ocupação do espaço nas cidades. A necessidade de otimização do consumo de energia no Brasil destacada pelo ministro de Minas e Energia do Brasil deve fazer parte do dia a dia porque a água é um recurso finito e escasso. Infelizmente apenas na crise o atual governo acordou para a ênfase de eliminar as perdas e desperdícios do consumo de energia elétrica.

A economia dos aplicativos é sem sombra de dúvida um elemento chave para direcionar a população para a otimização dos seus gastos energéticos.  A governança da TI verde pode ser facilitada pelos aplicativos de pré-venda, pós-venda, compartilhamento e otimização. É evidente que não tem sentido algum gastar bilhões de reais na iluminação pública por led se dentro das casas e empresas existe um gasto de energia elevado e desnecessário via televisores de tubo de raios catódicos, portais de Internet de cores claras e iluminadas, caixas eletrônicos que estão ligados e não funcionam, eletrodomésticos que produzem mais calor que o necessário, computadores com fontes de alimentação de baixa eficiência e etc.


Um exemplo da área de Tecnologia de Informações e Comunicações deixa bem claro o enorme espaço que existe para reduzir o consumo de energia sem racionamentos ou maiores sacrifícios da população brasileira. Um típico datacenter nacional tem Power Utilization Efficincy (PUE) de 2,4. Lembro que o PUE é a razão entre o consumo total do datacenter (inclui refrigeração, iluminação e etc.) pela energia consumida pelos equipamentos de tecnologia. O melhor PUE possível é 1,0. Um PUE de 2,4 significa que os datacenters que são centrais de computadores que consonem muita energia estão consumindo 2,4 Watts por hora para uma necessidade de apenas 1,0 Watt por hora. Elas estão transformando em calor inútil, ou seja, desperdiçando quase 60% da energia paga. Numa economia em ajuste como a brasileira em 2015 com crise de água e energia isto significa que estamos jogando no lixo muito dinheiro e energia elétrica. A economia dos aplicativos está ai para resolver vários desafios brasileiros. Seria bom ver o ministro Eduardo Braga acordar para ela e criar mecanismos para solucionar o grave problema nacional de energia elétrica.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

2015 - O ano pós copa

No final de 2014 diversos veículos de comunicação fizeram a tradicional retrospectiva do ano. Me chamou muita atenção encontrar comentários exaltando o sucesso da realização da copa do mundo de futebol no Brasil em 2014. Um evento capitalista como a copa só é um sucesso quando gera lucro sustentável de longo prazo e cabe no bolso de curto prazo dos organizadores, ou em outras palavras sobra alguma bufunfa para quem trabalhou.

Diversas notícias revelam que a copa mais atrapalhou do que ajudou na geração de bufunfa. A seguir reproduzo algumas destas notícias. O balanço final revelado no artigo “Iniciativa privada bancou apenas 17% dos estádios da Copa do Mundo” (http://www1.folha.uol.com.br/esporte/2015/01/1571494-iniciativa-privada-bancou-apenas-7-dos-estadios-da-copa-do-mundo.shtml, acessado em 27/01/2015) publicado pelo jornal Folha de São de Paulo em 07/01/2015 e 10/01/2015 revelou que apenas 17 por cento do dinheiro investido nos estádios ou arenas foi privado. A participação mínima do capital privado mostra que o projeto da copa do governo não foi comprado pelo setor privado.

Todo e qualquer investimento público focado nas classes A e B sem retorno de longo e com comprometimento do caixa de curto prazo é concentrador de renda e alavancador da desigualdade social. Projetos assim representam violações sociais graves. Infelizmente a copa de 2014 é um dos mais graves casos de desgoverno da história da humanidade. As notas “Endividado, DF terá que receber a F-Indy ou pagar multa milionária” (http://josecruz.blogosfera.uol.com.br/2015/01/endividado-df-tera-que-receber-a-f-indy-ou-pagar-multa-milionaria/, acessado em 27/01/2015) e “Torneio de ingenuidade” (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/203614-torneio-de-ingenuidade.shtml, acessado em 27/01/2015) deixam claro que os bilhões gastos no estádio em Brasília sem retorno algum comprometeram o caixa do governo do Distrito Federal a ponto dele não ter dinheiro para pagar os seus funcionários e outras despesas importantes.

No caso do Rio de janeiro o caso é mais grave ainda. Os gastos no Maracanã comprometeram a capacidade do governo de colocar combustível nos veículos da polícia. A segurança do Rio de Janeiro ficou comprometida pela gastança irresponsável com a copa (PM confirma falta de abastecimento de combustível, e racionamento é criticado pela Associação de Praças: ‘É um risco’, http://extra.globo.com/casos-de-policia/pm-confirma-falta-de-abastecimento-de-combustivel-racionamento-criticado-pela-associacao-de-pracas-um-risco-14934391.html, acessado em 27/01/2015).


Claramente o planejamento pobre da copa no Brasil gerou perdas na economia. O ridículo PIB de 2014 que só com muita sorte será nulo, mostra o tamanho da oportunidade perdida. Os elogios para a organização da copa mostram que o Brasil está com os seus valores invertidos. O artigo “No ano da Copa, gasto de estrangeiro aumenta apenas 3%” (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/205273-no-ano-da-copa-gasto-de-estrangeiro-aumenta-apenas-3.shtml, acessado em 27/01/2015) revelou que o Banco Central esperava um crescimento de 700 milhões de dólares  nos gastos dos estrangeiros no Brasil por causa  em razão da Copa e eles aumentaram apenas 210 milhões de dólares.