terça-feira, 31 de março de 2020

Novo coronavírus e o home office - Segunda Parte


É perfeitamente possível aumentar a produtividade do Brasil através do home office. É evidente que é preciso boa vontade e esforço coletivo. Os bons exemplos estão subindo á tona com a quarentena do novo coronavírus.

O Frederico Trajano afirmou que o Magazine Luiza desenvolveu ferramentas para vender com a loja fechada. Os vendedores têm celular e podem vender sem precisar ir à loja física.

Foi revelado que a equipe de escritório em home office entregou em cinco dias o trabalho previsto para ser entregue em 50 semanas (“Exato, fizemos 50 semanas em cinco dias, meio lema JK. Apesar de estar com 100% da equipe de escritório em home office, a gente conseguiu em menos de cinco dias colocar tudo que estava faltando para poder soltar essa plataforma no ar. Tem modalidade para pessoa física e para pessoa jurídica. Pessoa física autônoma consegue vender sem sair de casa e ganhar dinheiro”. Fonte: Fomos os primeiros a fechar e não deveremos ser os primeiros a reabrir, diz presidente do Magazine Luiza, https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/03/fomos-os-primeiros-a-fechar-e-nao-deveremos-ser-o-primeiros-a-reabrir-diz-presidente-do-magazine-luiza.shtml?origin=folha, acessado em 31/03/2020).

Um outro caso de sucesso digital foi protagonizado por pequenos restaurantes. O dono de uma pequena cafeteria percebeu que não iria sobreviver com vendas online por causa do baixo valor agregado dos lanches. Ele então resolveu fechar a casa e vender todo o seu estoque divulgando as ofertas no Instagram. Em duas horas ele vendeu tudo e fez tantos pedidos para o seu fornecedor que o estoque dele acabou também. Atualmente, ele está vendendo vouchers com desconto que poderão ser utilizados quando a cafeteria reabrir (Para sobreviver, restaurante pede até para vizinho entregar de bicicleta, https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/27/restaurantes-doacao-alimentos-pereciveis-coronavirus-sao-paulo.htm).

No mesmo artigo é mencionado o caso de um pequeno restaurante que considera as taxas de delivery muito altas. A dona do estabelecimento divulgou no Instagram as oportunidades para entregadores que moram no bairro do restaurante e montou uma rede de entrega no próprio bairro com pessoas que nunca fizeram entregas na vida.

Um outro uso de home office de grande sucesso é o caso das costureiras idosas, técnicas de enfermagem e enfermeiros que não podem trabalhar por fazerem parte do grupo de risco do coronavírus e estão costurando jalecos de TNT para os profissionais de saúde (Voluntários no Recife montam 'fábrica' de jalecos em TNT para suprir faltas, https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/03/30/voluntarios-no-recife-montam-fabrica-de-jalecos-em-tnt-para-suprir-faltas.htm).

São exemplos onde o bom uso do home office está produzindo produtos essenciais para o pais na crise do coronavírus e está ao mesmo tempo gerando renda para uma cadeia produtiva.
É possível aplicar soluções similares para todas as cidades brasileiras e adaptar o sistema produtivo para gerar produtos e receitas que agregam valor. Com um bom nível de coordenação o governo brasileiro pode explorar as oportunidades geradas pelas redes sociais e criar um sistema produtivo novo que seja flexível e inteligente.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Novo coronavírus e o home office


Uma grande parte do planeta está em quarentena. É cada vez maior a quantidade de cidades que estão fechadas. Pessoas estão sendo aconselhadas ou obrigadas a ficarem nas suas casas por um grande período.

Muitas empresas estão neste exato momento percebendo por que é tão importante ter um plano de continuidade do negócio. Apenas 40% das firmas nos Estados Unidos estavam preparadas em termos de tecnologia e treinamento para trabalhar em home office.

Aqui no Brasil, a realidade é bem pior. Estamos vendo negócios sendo interrompidos porque não existem computadores disponíveis para os funcionários trabalharem em casa. Em adição ao problema do notebook temos o problema da rede de telecomunicações que não oferece boas soluções em termos de desempenho na maioria das cidades.

Com o confinamento, o pico do consumo de energia residencial mudou. Poderemos ter em breve graves problemas energéticos em paralelo ao risco de um apagão na internet. A falta do plano de continuidade do negócio fez com que a maioria dos funcionários das empresas não fosse educada para trabalhar em casa.

“Luiz Bichara, um dos maiores tributaristas do país, diz que advogados têm de estar apresentáveis” (Advogado reclama que funcionários fazem home office com pijama e 'olho remelento', https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2020/03/advogado-reclama-que-funcionarios-fazem-home-office-com-pijama-e-olho-remelento.shtml?origin=folha, acessado em 35/03/2020).

No caso do artigo acima, os funcionários foram treinados sobre as tecnologias físicas para trabalhar em casa, mas não sobre as tecnologias sociais (comportamentais). É um claro sinal de que o negócio vai afundar em pouco tempo se não ocorrerem mudanças.

Muitas das poucas empresas que fizerem um plano de continuidade do negócio morrerão durante os meses de isolamento da sociedade brasileira porque nunca entenderam que devem trabalhar tanto as tecnologias físicas como as sociais.

A maioria das empresas que não fizeram a sua lição de casa poderão morrer em breve porque não são capazes de atender os seus clientes pela internet. A falta de capacitação da corporação está levando muitos empreendedores para o desespero.

As declarações do Junior Durski mostram com clareza que as empresas deles não estão capacitadas para operar na situação de vendas exclusivas pela internet (Coronavírus: dono do Madero critica fechamento parcial do comércio, https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/23/coronavirus-dono-do-madero-critica-fechamento-parcial-do-comercio.htm).

Unidades em São Paulo operam com baixo estoque, pedem ao cliente que compre pouco e demoram mais de três semanas para entregar (Sobrecarregados por pedidos após coronavírus, supermercados suspendem delivery, https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/03/sobrecarregados-por-pedidos-supermercados-suspendem-entregas.shtml).

É fácil perceber que as fragilidades para vender exclusivamente pela internet do segmento de restaurantes são as mesmas de outros segmentos que nunca pensaram em elaborar um plano de continuidade do negócio.

Neste momento em que as pessoas estão isoladas em casa, os supermercados suspendem o seu serviço de delivery. Ou seja, não tem capacidade operacional para trabalhar com a demanda do século XXI.

No dia em que estes setores forem expostos à competição contra empresas qualificadas como por exemplo a empresa Amazon, eles irão sumir do mapa porque não entendem a importância da digitalização do negócio. A crise do coronavírus está revelando a natureza frágil das operações das empresas brasileiras.

As dificuldades técnicas e comportamentais do home office estão revelando com muita transparência o custo da falta de produtividade empresarial. É importante destacar que não é um problema apenas do mercado privado. O poder publico ainda não foi capaz de perceber como o trabalho remoto pode resolver graves problemas da pandemia do coronavírus.

“Em entrevista ao Bora SP, Lauro Michels disse que preço subiu de R$ 0,11 para quase R$ 5 – cerca de 4500%” (Prefeito de Diadema chora e denuncia aumento de 4500% no preço de máscaras, https://noticias.band.uol.com.br/coronavirus/noticias/100000985872/prefeito-do-abc-chora-e-denuncia-aumento-de-4500-no-preco-de-mascaras.html).

É notório que faltam máscaras de proteção no Brasil. O produto está em falta nas farmácias e por conta da escassez o preço está disparando. Com o confinamento da população nas suas casas surge o problema da renda. Como gerar renda em um momento tão difícil.

Muitas pessoas no Brasil têm máquinas de costura e sabem costurar, portanto podemos iniciar uma ampla produção de máscaras usando as redes sociais como infraestrutura operacional. Os Trolls montaram redes enormes de trabalho colaborado e cooperado em diversos momentos para atacar os seus desafetos. Então nós também podemos fazer. Neste caso não vamos atacar, vamos salvar vidas.

Basta encontrar 10 mil pessoas que produzam cem máscaras de pano por dia que teremos uma produção de um milhão de máscaras por dia. O governo usa a sua credibilidade para conseguir retalhos de panos das fabricas de roupas e envia para as costureiras. Elas produzem máscaras e recebem pagamento do governo. Temos geração de renda e de produtos que salvam vidas. Não é difícil encontrar caminhos no home office para gerar riqueza.

terça-feira, 17 de março de 2020

Expectativa x realidade


No Brasil são comuns as declarações públicas otimistas sobre o desempenho futuro da economia durante o primeiro trimestre. Muitos empresários, economistas e políticos entendem que o otimismo é condição suficiente para inflar o espírito animal do mercado e fazer a economia crescer. Como o Garrincha falava: "É preciso combinar com os Russos".

Este é o motivo do pibão do começo do ano virar um pibinho no final do ano. É uma prática que vem sendo executada desde o começo do primeiro governo Lulla. Foram raras as vezes em que a expectativa foi transformada em realidade.

É bem fácil perceber que o Paulo Guedes é partidário da filosofia de gerar expectativa elevada e torcer para que a sociedade acredite nela e realize iniciativas para que a previsão vire realidade. É um jogo de poucas ações e fatos e muita torcida. É claro que também é um jogo de muitas desculpas. Uma infinidade delas. Tudo é uma conspiração contra o governo.

Para refrescar a memória das conspirações vou relembrar o pessimismo de plantão que foi atacado pela Dilma Rousseff (Dilma Rousseff volta a atacar o “pessimismo de plantão”, https://exame.abril.com.br/economia/dilma-rousseff-volta-a-atacar-o-pessimismo-de-plantao/, acessado em 16/03/2020).

Estamos falando de um perfil de governante que acredita que vai ocorrer algum fato aleatório que será capaz de transformar a expectativa em realidade. Para o Paulo Guedes as reformas são soluções mágicas que resolvem todos os problemas. Inclusive o problema da inconsistência numérica das propostas apresentadas.

No slide “Com a Nova Previdência, projeção do crescimento do PIB é maior da reforma da previdência” (https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-temporarias/especiais/56a-legislatura/pec-006-19-previdencia-social/documentos/audiencias-publicas/RogrioMarinho08.05.19.pdf) apresentado pelo membro da equipe do Guedes em 2019, o crescimento projetado do PIB para o ano de 2020 pós reforma da previdência era de 2,9%. A realidade de 2020 já mostrou que o crescimento será menor que 2% (valor provável 1,4%).

Se for realmente realizado o crescimento do PIB de 1,4% pós reforma da previdência em 2020, o resultado será muito parecido com o crescimento de 2019 sem reforma da previdência.

Com ou sem reforma da previdência o investimento internacional “greenfield” (projetos novos) não está vindo para o Brasil. O Guedes dobra a aposta nas reformas afirmando que após a reforma administrativa e tributária, o capital estrangeiro virá.

Em outras palavras, para ele sempre existirá uma reforma que salvará o Brasil de um resultado medíocre. É a desculpa infinita (Guedes: PIB de 1,1% não é surpresa e reformas levarão índice a mais de 2%, https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/04/guedes-pib-de-11-nao-e-surpresa-e-reformas-levarao-indice-a-mais-de-2.htm).

A corrente de pensamento do otimismo pelo otimismo dificilmente entenderá que o capital estrangeiro não vem para o Brasil porque ele não confia no governo e nos nossos influenciadores.


Todo ano é a mesma ladainha. É prometido no começo do ano um pibão e é entregue um pibinho. O nível de credibilidade das promessas do governo é extremamente baixo. Este é o motivo do baixo volume de investimento “greenfield” no Brasil.

Inexiste no território nacional o entendimento de que as infinitas mentiras que são contadas diariamente estão minando a confiança dos investidores internacionais e nacionais.

O Brasil precisa inicialmente acabar com a crença de que a mentira vende. As inúmeras apresentações do desempenho futuro da economia brasileira em Davos mostram que nada foi combinado com os Russos.

A seguir temos um caso simples que ocorreu comigo e que revela de forma cristalina que é impossível confiar nos serviços brasileiros. Praticamente ninguém honesto e transparente faz um investimento “greenfield” em um país onde a mentira impera.

Eu tenho um celular que uso para ligações de voz e que se a comunicação de dados estiver habilitada ele navega na internet. Se eu habilitar a comunicação de dados eu pago uma tarifa diária por uso de internet para a operadora.

No dia 22 de janeiro de 2020 eu fui debitado por usar internet. Como a comunicação de dados do celular estava desabilitada eu abri uma reclamação na operadora. Após alguns dias eu recebi a seguinte mensagem: “Em atenção ao seu e-mail informo que, em sistema consta utilização na linha, sendo que somente é cobrado a tarifa diário do plano quando consta utilizar sem outro serviço para cobrir. Estou à disposição se precisar de esclarecimentos”.

A operadora afirmou que eu usei internet e confirmou que a cobrança foi correta. No dia 22 de janeiro de 2020 também eu abri uma reclamação na Anatel sobre o caso e a operadora respondeu da seguinte forma:” Mediante a análise identificamos que a realmente ocorreu uma falha sistêmica onde a promoção não foi ativada consumindo créditos de forma indevida”.

Ou seja, a operadora afirmou que ocorreu um erro sistêmico e que a cobrança foi indevida. É uma resposta em completo desacordo do que ela respondeu em caráter privado. No privado a resposta foi de cobrança correta e para a Anatel a resposta foi de erro sistêmico e cobrança indevida.

Se foi erro sistêmico então milhões de clientes foram afetados e a operadora deveria ter publicado uma nota sobre o assunto no seu website. Não publicou. Este é o real motivo do porquê o investimento estrangeiro “greenfield” não vem para o Brasil. Ou o investidor trabalha em operação recheada de mentiras ou ele é expulso do mercado.

O infinito problema de pibinho só será resolvido quando a reforma da transparência e verdade for implantada pelo Paulo Guedes. Até lá, nenhuma reforma levará o Brasil para o pibão.

terça-feira, 10 de março de 2020

Quando um chamado deve ser resolvido?


Na postagem “Nossa meta é resolver a maior quantidade de chamados” (https://www.4hd.com.br/blog/2020/03/06/nossa-meta-e-resolver-a-maior-quantidade-de-chamados/, acessado em 09/03/2020) o maior evangelizador do Help/Service Desk do Brasil (em sabedoria não em tamanho) dissecou o tema “resolver o maior volume possível de chamados dentro de determinado período”.

Apesar da relevância das ponderações elas não abordaram o que eu chamo de fator crítico de sucesso do Help/Service Desk. O objetivo pragmático do Help/Service Desk é resolver apenas os chamados quando o benefício da solução é maior que o custo do problema. O cliente ficará imensamente satisfeito quando o seu dinheiro não estiver sendo gasto em desperdícios.

A resolução de um chamado (não importa o tipo, prioridade etc.) implica obrigatoriamente na realização de um custo. Tempo é dinheiro. Energia elétrica é dinheiro. Recurso é dinheiro. Em outras palavras, para resolver um chamado é preciso gastar dinheiro.

Logo este é o custo do chamado. Por outro lado, a solução do chamado representa o seu benefício. Ou seja, antes de sair botando mãos à obra é preciso calcular o valor do benefício da solução. O benefício é o valor da eliminação do impacto no negócio.

Um exemplo simples, um chamado de um serviço (por exemplo, baseado em uma tecnologia antiga é já totalmente depreciada) que ocorre uma vez por vez custa para ser resolvido 100, mas o seu benefício, ou seja, eliminação de impacto no negócio é de 1. Isto significa que é preciso esperar 101 meses para que a relação entre o benefício e o custo seja positiva. No orçamento do ano que vêm consta à substituição deste serviço por um novo.

É fácil perceber que neste caso o chamado deve ser documentado, mas não deve ser tratado porque o custo da solução é muito maior que o benefício. O critério lógico e racional para resolver um chamado é a relação entre o seu benefício e o seu custo. 

Quando a central é terceirizada e recebe por chamado resolvido?

Na visão restrita é fácil concluir que a central deve resolver todos os chamados para maximizar a sua renda. No entanto é uma conclusão enganosa. Ao buscar a solução de todos os chamados a central terceirizada gastará dinheiro em atividades que o seu cliente não enxerga valor agregado.

Ele só vê custo. Neste caso o cliente mistura alhos com bugalhos, ou seja, os chamados com relação entre o benefício e custo positiva serão analisados da mesma forma que os de relação negativa. Como o cliente enxerga apenas um número, fatura mensal, ele vai buscar o ciclo contínuo de redução do custo. Ou seja, ele continuamente fará consultas aos fornecedores do mercado para encontrar o menor valor por chamado.

A concorrência entre os fornecedores fará com que o custo marginal de um novo chamado seja reduzido até que o lucro por chamado seja nulo, ou seja, o lucro da central terceirizada será zero e o cliente será inviabilizado. Ou a empresa trabalha de graça ou perde o cliente.

É a pior escolha possível de longo prazo porque o cliente trocará continuamente de fornecedor. Ser visto como um custo significa na prática ser visto como redundante.

quarta-feira, 4 de março de 2020

PIB Brasil bombando. Só que não.


PIB Brasil bombando. Só que não.
Investimento estrangeiro cresceu 26% em 2019 (Puxado por privatizações, investimento estrangeiro no Brasil cresceu 26% em 2019, https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/01/20/puxado-por-privatizacoes-investimento-estrangeiro-no-brasil-cresceu-26percent-em-2019.ghtml, acessado em 02/03/2020).

No Brasil é comum encontrar os mercadores de falácias comemorando enfaticamente como grandes vitórias os resultados insignificantes da economia brasileira.

Quando foi anunciado o crescimento do investimento estrangeiro, muitos mercadores amplificaram a notícia como uma grande conquista da atual política econômica nacional. Foi bradado aos quatro ventos que o país passou da 9ª para a 4ª colocação entre os maiores destinos de recursos produtivos.

Os disseminadores de falácias não apreciam os números e fatos. Eles gostam apenas de avaliações superficiais. Alegam que são pessoas simples que fazem contas de padeiro. Qualquer análise analítica é complexa para quem deseja apenas uma avaliação superficial e rápida. Não existe para eles a necessidade de consistência lógica ou coerência.

Em março de 2020, o PIB do Brasil de 2019 será anunciado. O crescimento do PIB provavelmente será algo ao redor de 1%, ou seja, crescimento praticamente nulo do PIB per capita.

Os números que já foram divulgados sobre o resultado de 2019 revelam que o desempenho da economia no primeiro ano do Bolsonaro é bem semelhante ao desempenho de 2018. Segundo o IBGE o rendimento domiciliar per capita em 2029 foi de R$ 1.438,67. Em 2018, o rendimento médio per capita por domicílio era de R$ 1.373,00 (Renda domiciliar per capita do Paraná subiu R$ 13 em 2019, segundo o IBGE, https://www.bemparana.com.br/noticia/renda-domiciliar-per-capita-do-parana-subiu-r-13-em-2019-segundo-o-ibge#.XllQnEBFyVs).

Como a inflação oficial de 2019 foi de 4,31% (Inflação oficial fecha 2019 em 4,31% e fica acima do centro da meta, https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/01/10/inflacao-oficial-fecha-2019-em-431percent.ghtml) é possível trazer para valor  presente o valor do rendimento médio per capita por domicílio do ano de 2018 (R$ 1.373,00 x 1,0431 = R$ 1.432,17).

A diferença entre 2019 e 2018 é de R$ 1.438,67 - R$ 1.432,17 = R$ 6,49, ou seja, é de 0,45% (R$ 6,49/R$ 1.432,17). Em outras palavras, o crescimento do rendimento per capta foi praticamente nulo em um ano em que o investimento estrangeiro cresceu 26%.

Se tem mais investimento então tem mais riqueza (entrada extra de US$ 15 bilhões), portando o rendimento per capta também aumenta. Opa. Tem algo errado aí. O rendimento per capta não aumentou. Chama o posto Ipiranga. Tem conta errada.
O problema da análise simples dos mercadores de falácias é que o resultado da equação é incompatível com as entradas. Uma análise consistente do Investimento Estrangeiro Direto (IED) mostra que apenas 24% dos projetos são “greenfield” (projetos novos). 76% deles são de “brownfield” (aquisição de ativos existentes). Fonte: Investimentos e investidores estrangeiros no Brasil, https://www.usuport.org.br/Opiniao/488/Investimentos-e-investidores-estrangeiros-no-Brasil.

Um exemplo de IED “brownfield” foi a venda de 100% das ações da empresa paulista Santher fabricante das marcas Personal, Sym, Snob e Kiss para as empresas japonesas Daio Paper Corporation (51%) e Marubeni Corporation (49%) por R$ 2,303 bilhões (Grupo japonês compra a dona da marca Personal por R$ 2,3 bilhões, https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/02/27/grupo-japones-compra-a-dona-da-marca-personal-por-r-23-bilhoes.htm).

Foi uma mera venda de ativos que não aumentou a riqueza total. A única mudança foi a troca de proprietários.

Quando o IED é analisado em termos de valores fica bastante claro porque o extra de US$ 15 bilhões não gerou aumento de riqueza no Brasil. Os projetos brownfield que são apenas trocas de mãos de propriedade receberam 85% do valor total do IED e os projetos “greenfield” que são na prática iniciativas de crescimento da infraestrutura e do parque industrial representaram apenas 15% do IED.

Ou seja, dos 15 bilhões de dólares extras, apenas US$ 2,25 bilhões foram destinados para projetos novos que aumentam a riqueza nacional. Fonte: Análise: como os investimentos no país reagem ao cenário econômico, https://g1.globo.com/globonews/jornal-globonews-edicao-das-16/video/analise-como-os-investimentos-no-pais-reagem-ao-cenario-economico-8357661.ghtml.

Como o crescimento vegetativo da população brasileira é de 1% ao ano fica claro porque o rendimento médio per capta por domicílio praticamente não cresceu. O impacto de US$ 2,25 bilhões em uma população acima de 200 milhões é praticamente zero.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

É Futuro da administração? Não, não é. É o presente


“A primeira refeição é vendida a R$ 4,99, sem taxa de entrega. A partir da segunda refeição, o preço é R$ 9,99, também com entrega grátis. "Cinco reais é o preço de um salgado. Como a gente vai competir com isso? Como ter lucro e servir uma refeição decente a R$ 10, sem taxa de entrega?", pergunta Alexandre Bassoli” (Como apps de entrega estão levando pequenos restaurantes à falência, https://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2020/02/08/como-apps-de-entrega-estao-levando-pequenos-restaurantes-a-falencia.htm, acessado em 18/02/2020).

Em 2018 eu participava de um grupo de gestores e constantemente recebia questões sobre o futuro da administração no Brasil. Normalmente eu apresentava a visão do futuro da administração através de um cenário onde a inteligência artificial interpenetrava todos os processos operacionais e estratégicos das empresas.

Alguns entendiam que o foco nas consequências geradas pelas tecnologias digitais era exagerado e que a real discussão deveria ser sobre o propósito da indústria ou do comércio ou da empresa. Eu entendia que tais conversas eram apenas desvio de foco do problema real e encerrava minha participação neste momento.

Outros gestores entendiam que o cenário apresentado era muito futurista para o Brasil e, portanto, os desafios citados iriam demorar décadas para chegar por aqui.  Um terceiro grupo acreditava que o cenário era apenas para as grandes empresas e multinacionais e que nunca chegaria o momento de a inteligência artificial gerar impactos nos pequenos empreendimentos.

O artigo “Como apps de entrega estão levando pequenos restaurantes à falência” (https://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2020/02/08/como-apps-de-entrega-estao-levando-pequenos-restaurantes-a-falencia.htm) revelou que o cenário projetado em 2018 chegou ao Brasil. Ele chegou para todos. Empresas de grande, médio e pequeno porte.

“Donos de estabelecimentos afirmam que não têm controle sobre a exibição de seus restaurantes nos apps e que a parceria não gera lucro” (As dificuldades de relacionamento entre restaurantes e apps de entrega, https://computerworld.com.br/2020/02/11/as-dificuldades-de-relacionamento-entre-restaurantes-e-apps-de-entrega/, acessado em 18/02/2020).

Muitos donos de pequenos restaurantes estão reclamando que estão perdendo dinheiro após entrarem no iFood. Para muitos as promoções do aplicativo estão inviabilizando a operação comercial deles.

A grande questão que todos nós devemos fazer neste momento é se o objetivo do aplicativo iFood é vender comida pronta ou é criar um gigantesco banco de dados sobre os hábitos e comportamentos alimentares dos brasileiros?

“O franqueado de uma grande rede de fast-food, que não quis se identificar, afirmou que o aplicativo faz promoções em que oferece desconto de 50% sobre o preço do milk shake, por exemplo. "O aplicativo me paga o preço cheio do produto, mas vende pela metade", diz o franqueado. Neste caso, porém, o restaurante não tem prejuízo —embora a venda na sua loja física seja canibalizada, já que o cliente vai optar pelo aplicativo” (Como apps de entrega estão levando pequenos restaurantes à falência, https://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2020/02/08/como-apps-de-entrega-estao-levando-pequenos-restaurantes-a-falencia.htm).

A resposta desta pergunta é bastante óbvia. Basta ver as promoções do aplicativo para perceber que em diversos casos o iFood está subsidiando o seu cliente, ou seja, ela paga o valor cheio da comida para o restaurante e faz a venda para o cliente por um valor bem menor.

O real objetivo da plataforma é construir um banco de dados poderoso sobre os hábitos e comportamentos alimentares dos brasileiros. A venda de comida pronta é apenas um instrumento para alcançar este objetivo.

O que o iFood pretende fazer com estas informações? A empresa tem como meta a formação de um ecossistema onde ela é o sol e os planetas gravitam ao redor dela.

Para tal ele criou o seguinte moto contínuo. Um bom aplicativo atrai usuários. Usuários geram dados. Dados melhoram o aplicativo. E assim sucessivamente.

O que o iFood pode gerar com este gigantesco volume de informações. Ele pode por exemplo vender informações para os restaurantes. Por exemplo, para esta quarta-feira é melhor oferecer um jantar do que o almoço.

A empresa iFood tem atualmente uma infinidade de dados sobre o consumo de comida pronta. Ela pode relacionar estes dados com os perfis das redes sociais, com o clima local, com datas especiais como aniversários, com dietas especiais etc.

Com os relacionamentos prontos o iFood pode vender informações para que os supermercados e os gigantes da alimentação como a Nestlé promovam os seus produtos em função dos hábitos e comportamentos alimentares das pessoas.

O iFood poderá entrar nas profundezas da cadeia produtiva e trabalhar com o sistema de logística para que o transporte de alimentos seja otimizado. Em outras palavras chegará no comércio local os alimentos que os consumidores desejam comprar em função do clima ou de outros fatores.

O iFood poderá interagir com as pessoas informando quantas calorias foram ingeridas e qual a refeição mais gostosa que a pessoa pode fazer com o seu saldo calórico.

Ele também pode atuar junto aos planos de saúde para ajudar nos programas de alimentação saudável e oferecer descontos para os beneficiários dos planos em função do cumprimento de metas. Em relação as academias e clubes pode ser oferecido um pacote de informações de alto valor agregado para as pessoas. Em função da quantidade de calorias consumidas no dia, o instrutor faz um plano de exercícios personalizado.

Na realidade existem milhares de situações onde as informações do banco de dados do iFood podem ser utilizadas para otimizar os processos de negócio dos membros do ecossistema.

Imagine a situação onde uma empresa iniciante criou um alimento que fornece a necessidade de cálcio para as pessoas acima de 50 anos. Com a base de dados do iFood esta empresa pode oferecer uma amostra do seu produto para o seu público alvo. É um custo muito menor do que fazer propaganda.

Todas estas oportunidades são geradas pela inteligência artificial do sistema. Isto significa que o iFood precisa entregar a comida em excelente estado. O grande desafio da administração moderna é como gerenciar um sistema onde algumas variáveis estão fora do domínio de controle da gestão.

A entrega da comida é feita por entregadores que não são funcionários do iFood. O objetivo dos entregadores é fazer o máximo número de entregas em um dia ao menor custo possível. Para eles se o queijo da pizza ficou em um lado só, isto não é problema deles. Ele entregou a pizza dentro do prazo combinado.

A administração do presente exige que os administradores encontrem soluções para os problemas que estão fora do seu domínio de poder. São os administradores que vão interagir com os clientes quando a pizza entregue não estiver em excelente estado.

É apenas um caso entre milhares onde existem desafios enormes que precisam ser enfrentados para que a venda de informações seja viável.

Para que o aplicativo iFood seja bom é preciso que a entrega da comida seja perfeita. Apenas desta forma o usuário será atraído e o moto contínuo será criado.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Produtividade de novo? Essa não


O artigo “Envelhecimento do Brasil já compromete o crescimento” (https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/02/envelhecimento-do-brasil-ja-compromete-o-crescimento.shtml?origin=folha, acessado em 11/02/2020) afirmou que o bônus demográfico do Brasil se esgotou em 2018. Foi revelado no estudo “Produtividade do trabalho: o motor do crescimento econômico de longo prazo” que a única forma para aumentar tanto a renda per capita, como o PIB é através do avanço das reformas que aumentam a produtividade do trabalhador.

Ou seja, o aumento da produtividade do trabalho é a condição necessária e suficiente para o crescimento tanto da renda per capita do brasileiro, como do PIB. A produtividade do trabalho é o resultado da divisão entre a riqueza gerada pelo trabalho e o custo do trabalho realizado. A fórmula completa é: (((riqueza gerada pelo trabalho/custo do trabalho realizado) - 1) x 100).

No artigo “Envelhecimento do Brasil já compromete o crescimento”, o Fernando Veloso afirmou que as prioridades devem ser: (i) reforma tributária, (ii) reforma do crédito e (iii) consolidação de mudanças na legislação trabalhista.

Olhar apenas para o denominador da produtividade do trabalho é um erro comum aqui no Brasil. O resultado da aplicação dos estudos realizados com este erro sistêmico vem sendo a redução da produtividade do trabalho. Vamos olhar para as prioridades citadas pelo Veloso. A reforma tributária não vai reduzir a carga tributária brasileira. O estado brasileiro está quebrado e altamente endividado. É impossível aprovar uma reforma que reduza os impostos neste momento, ou seja, não será por este caminho que a produtividade irá aumentar.

A redução do custo do crédito passa pelo aumento significativo da competição no sistema financeiro, pois a Selic vem despencando nos últimos anos. Nunca na história recente do Brasil a taxa básica de juros real foi tão baixa. É bastante improvável que ocorra uma entrada significativa de financeiras internacionais no mercado brasileiro.

Uma grande parte do custo do crédito é devido à falta de credibilidade do governo brasileiro e de previsibilidade do marco jurídico. A causa são as decisões ou falta de decisões do Supremo tribunal Federal. Enquanto as questões relacionadas aos grandes fracassos nacionais como o plano Collor I não forem julgadas o risco Brasil continuará bastante elevado para o investidor.

A esperança de aumentar a produtividade via consolidação das mudanças na legislação trabalhista é uma crença totalmente fora da realidade. Mais de 40% da população ocupada é formada por trabalhadores informais que só recebem por atividade realizada e não tem nenhum direito trabalhista.

Se for considerado apenas o mercado privado, a imensa maioria da população ocupada é formada por trabalhadores informais. Ou em outras palavras, a consolidação das mudanças na legislação trabalhista já ocorreu. Em outras palavras, deste mato não sai coelho.

O denominador também já foi fortemente impactado para baixo por conta da redução dos custos geradas pelos aplicativos de alimentação e de transporte. Foi afirmado que o objetivo do iFood é fornecer comida a um preço mais acessível (Como apps de entrega estão levando pequenos restaurantes à falência, https://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2020/02/08/como-apps-de-entrega-estao-levando-pequenos-restaurantes-a-falencia.htm). Foi revelado que a prefeitura de Curitiba vai lançar um aplicativo que dará desconto de até 40% nos táxis ("Para enfrentar Uber e 99, app de táxis de Curitiba terá desconto de até 40%", https://www.gazetadopovo.com.br/curitiba/para-enfrentar-uber-e-99-app-de-taxis-de-curitiba-tera-desconto-de-ate-40/).

A pergunta que não quer calar neste momento é porque a produtividade do brasileiro não aumentou diante da redução do custo de alimentação e transporte gerada pelos aplicativos?

A reposta para esta pergunta é bem simples. Os fundadores e investidores recebem entre 20 e 30% da renda dos aplicativos. Como eles são em geral estrangeiros, isto significa que a esta renda deixa o Brasil.

A comparação entre a situação anterior sem ganho de produtividade e a posterior com ganho de produtividade e envio de remessas para o exterior revela que a riqueza total da situação anterior era maior que a situação posterior. O envio de remessas para o exterior determina a redução da riqueza total gerada.

Infelizmente, o Brasil não foi capaz de gerar aplicativos de alta geração de riqueza com redução dos custos associados. É muito fácil perceber como a riqueza gerada pelo trabalho é perdida no processo de atendimento ao cliente.

Na semana passada ocorreu um defeito do meu decodificador da TV da Net. Ao abrir um chamado eu percebi que estava diante de uma teia de perdas e desperdícios. Tanto o aplicativo como a plataforma de atendimento não funcionavam. A tela simplesmente não avançava.

Fui então ao nobre e bom telefone. Quando o sistema autônomo de atendimento entrou em ação ficou claro que eu estava diante do poço da burrice eterna. A primeira coisa que a inteligência (ou burrice) artificial fez foi atualizar o software do decodificador. Na realidade o que foi feito foi introduzir uma nova variável no sistema que aumentou o nível de incerteza.

É evidente que a atualização do decodificador deve ocorrer quando ele é ligado. Como o defeito persistiu agora fica a seguinte dúvida. É um defeito da atualização ou do equipamento?

No andar da carruagem, as tolices foram aumentadas até o momento que fui direcionado para um operador humano. Quando achei que agora tudo ia melhorar, a resposta foi uma completa perda de tempo e dinheiro. A atendente insistia nas perguntas mais cretinas possíveis como por exemplo, o decodificador está ligado, tem pilha no controle remoto e qual era o código de erro mostrado na televisão. Eu afirmei em diversos momentos que o equipamento estava ligado, que tinha pilha no controle remoto e que não existia sinal e, portanto, não tinha código de erro.

Não contente com a perda de tempo de mais de uma hora do cliente, a atendente resolveu perguntar sobre os cabos, ou seja, se eles estavam conectados. Eu respondi que ninguém mexeu nos cabos e que eles estão na mesma situação antes do defeito.

A genial conclusão da atendente é que a minha televisão estava com defeito e, portanto, ela iria fechar o chamado. Eu falei que não era defeito da TV e que queria agendar um técnico, aí ela transferiu a ligação para um loop infinito onde eu fiquei esperando por 15 minutos para ser atendido. Desisti e desliguei. Liguei de novo e solicitei agendamento de um técnico.

Após perder apenas 150 minutos da minha vida com um atendimento cercado de perdas e desperdícios eu consegui fazer o agendamento. Achei que o drama tinha acabado, mas não. Era uma rotina de tortura. Após algum tempo recebo ligação de um técnico querendo fazer novos testes. Mesmo desperdício de tempo do cliente. Perguntas inúteis sobre cabos, pilhas etc. Ao final a técnica resolveu fazer um procedimento para voltar o decodificador para a configuração de fábrica. Mais uma hora da vida perdida com inutilidades.

O equipamento não funcionou e a técnica chegou à brilhante conclusão que deveria confirmar o agendamento do técnico para o dia seguinte. Eu perdi mais de 4 horas do meu dia de trabalho atendendo as solicitações infrutíferas dos profissionais da net.

É só multiplicar por milhões de pessoas as perdas pessoais que eu tive no atendimento da Net que nós veremos quanto tempo e dinheiro é perdido no Brasil por conta da incapacidade e incompetência dos profissionais terceirizados contratados.

São centenas de bilhões de reais da riqueza gerada pelo trabalho que vão para o lixo todos os anos aqui no Brasil. É evidente que as perdas nos setores de atendimento ao consumidor são multiplicadas por milhões. O resultado é a baixa produtividade nacional.

Não serão as reformas que irão resolver este problema. É preciso qualificar as centrais de atendimento contratando gente inteligente. Não estou falando de gênios. Apenas pessoas que sabem pensar e que não ficam executando ao pé da letra um roteiro.

Enquanto o país conviver com tal volume de perdas e desperdícios a riqueza gerada será sempre pequena ou nula. É triste ver um sistema de inteligência artificial que aumenta o nível de incerteza do problema.

O caso dos pequenos empresários que usam os serviços dos Correios brasileiros para entregar as suas mercadorias é bastante emblemático em termos de perdas e desperdícios.

Em geral as entregas para o Estado do Rio de Janeiro atrasam em vários dias ou semanas em relação ao prazo de entrega informado quando o pacote é despachado.

O microempresário é obrigado a entrar em contato com os Correios brasileiros para descobrir onde está a sua mercadoria. Cada interação com eles demanda no mínimo 30 minutos do horário comercial deste empreendedor e normalmente a solução de um único problema exige a realização de diversos contatos. Raramente a data postergada é entregue. Muitas vezes são duas ou três promessas de entrega não cumpridas.

As incertezas das informações dos Correios brasileiros fazem o cliente buscar alternativas para endereçar sua necessidade. Quando o atraso da entrega é muito grande o consumidor desiste dela. Neste o microempresário perde a venda e o cliente por causa dos atrasos e incertezas geradas pelas informações fornecidas pelos Correios brasileiros.

Se a venda foi realizada por uma plataforma de shopping de comércio eletrônico, o empresário paga a comissão de aproximadamente 20% por uma venda cancelada por causa dos atrasos e falhas dos Correios.

Neste caso, a riqueza gerada pelo trabalho do empresário é negativa. Ele pagou a comissão de vendas e as despesas postais para despachar a mercadoria e não recebeu um único centavo. E ainda vai perder mais tempo e dinheiro indo ao correio para pegar de volta a sua mercadoria.

Infelizmente o caso descrito anteriormente é mais comum do que imaginamos. Durante um ano ele acontece milhões de vezes. Em especial no estado do Rio de Janeiro. Basta multiplicar a perda individual por milhões vezes em que o fenômeno é repetido para perceber por que a produtividade do trabalho realizado pelo brasileiro não cresce.

Não é preciso reformar a constituição brasileira para catapultar a produtividade. Basta eliminar do mercado o capital intelectual inadequado que é incapaz de informar a real condição de uma entrega para disparar o crescimento da produtividade.

Os aspectos relacionados com a capacidade, capacitação e honestidade da mão de obra são itens obrigatórios em um regime de trabalho de crescimento da produtividade. O relato sobre a encomenda de bolo e doces sequestrada pelo motoboy do Rappi (Como apps de entrega estão levando pequenos restaurantes à falência, https://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2020/02/08/como-apps-de-entrega-estao-levando-pequenos-restaurantes-a-falencia.htm) mostrou que um entregador queimou o seu filme em todo o mercado por causa de 20 reais de gorjeta.

Toda a credibilidade do sistema foi abalada por tal atitude. Os empresários e clientes reagem aos fatos ocorridos. Muitas vezes a reação ocorre na direção de uma solução ineficiente que reduz a riqueza gerada pelo trabalho.

Um outro caso bem conhecido é a situação onde uma pessoa compra um presente de aniversário ou natal para um parente que mora em outra cidade usando uma plataforma de ecommerce.

No caso citado a pessoa comprou um abajur e foi entregue uma bomba de bicicleta. Para corrigir o seu erro a plataforma exigiu que a pessoa presenteada despache em primeiro lugar a bomba de bicicleta e só depois ela iria enviar o abajur.

A aniversariante perdeu o tempo e dinheiro dela para ir ao correio para despachar a bomba de bicicleta. O parente que comprou o presente gastou tempo e dinheiro em diversas interações com a plataforma de ecommerce para corrigir o erro.

Um único erro consumiu o tempo e dinheiro de duas pessoas para a sua correção. O tempo gasto em deslocamento até a agência do correio e na fila para despachar de volta à bomba de bicicleta foi durante o horário comercial, ou seja, a produtividade do trabalho realizado por esta pessoa caiu para zero neste período.

Como é um erro comum, o mesmo fenômeno ocorre todos os dias milhares de vezes. Em um ano a perda total de produtividade é bilionária. Dezenas de bilhões de reais são jogados no lixo todos os anos no Brasil por conta da desqualificação da mão-de-obra contratada e terceirizada.

Não é preciso reformar a constituição brasileira para fazer a produtividade entrar em rota de crescimento. Basta contratar a mão de obra com base na competência capacidade e honestidade.

Não é preciso reformar a constituição brasileira para perceber que a proibição da balança dinâmica em movimento para pesar os caminhões do agronegócio aumenta tanto o tempo de parada, como o tempo total da viagem, como o preço do frete ao mesmo tempo em que cresce o riscos de roubos (portanto seguro do transporte é mais caro) e a quantidade das oportunidades de corrupção.

O uso da balança dinâmica em movimento é comum no exterior. Basta mudar uma única lei para aumentar a riqueza gerada pelos trabalhadores do agronegócio no Brasil. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Corona vírus e a privacidade


OMS decreta emergência sanitária global por conta do novo coronavírus, https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/01/30/por-mobilizacao-e-recursos-oms-decreta-emergencia-sanitaria-global.htm?, acessado em 31/01/2020

As mídias sociais podem gerar alertas antecipados sobre a doença e a análise dos dados pode prever como ela se espalhará. A Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou caso de emergência sanitária global por causa das doenças causadas pelo coronavírus (nCoV). É a maior crise de saúde global depois da deflagração do SARS em 2003.

Em 2020, os cientistas têm a sua disposição tanto um melhor sequenciamento do genoma, como a aprendizagem de máquina, como a análise preditiva para entender e monitorar a disseminação do vírus. O sequenciamento do genoma do vírus SARS demandou cinco meses. O sequenciamento do genoma do coronavírus demorou um mês.

Os pesquisadores vêm usando as ferramentas de mapeamento para rastrear a trajetória da disseminação das doenças por diversos anos. A Europa vem rastreando o SARS desde através do acompanhamento dos sintomas relatados pelas pessoas e os Estados Unidos estão desde 2011 acompanhando a gripe dentro do país (https://flunearyou.org/#!/).

O site 2019-nCoV Global Cases by Johns Hopkins CSSE (https://gisanddata.maps.arcgis.com/apps/opsdashboard/index.html#/bda7594740fd40299423467b48e9ecf6) ) mostra um mapa mundial em tempo real da disseminação do coronavírus com estatísticas sobre mortes e casos confirmados.

As mídias sociais podem ser usadas como um indicador prematuro do avanço da doença, por exemplo, uma postagem no Twitter dizendo que todos os vizinhos estão doentes, significa que algo de errado está acontecendo no local. A análise postagens nas mídias sociais validadas por outras fontes dos dados permite fazer uma previsão sobre o local mais provável do avanço do coronavírus.

O grande desafio é identificar onde estão as informações necessárias para validar as postagens das mídias sociais. As leis e regras sobre o sigilo médico implicam que é preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre a necessidade de dados em tempo real e a privacidade pessoal. O que é mais importante salvar vidas ou manter a privacidade?

As informações dos relógios inteligentes que medem temperatura, pressão, batimentos cardíacos, localização etc. podem ser uma fonte valiosa de dados para descobrir a trajetória do coronavírus. Estas informações são atualizadas em tempo real na plataforma do fabricante. Os legisladores precisam com urgência encontrar um caminho para trabalhar com as questões relacionadas com o interesse público e privacidade individual. Na cidade de São Paulo existem milhares de pessoas usando relógios inteligentes.