terça-feira, 28 de abril de 2020

Mundo depois da quarentena – Capítulo final


“Trabalhar remotamente em casa será uma atividade cada vez mais produtiva e eficiente. Trabalhos fabris, repetitivos e mecânicos, serão feitos por robôs, desobrigando os mais pobres de imitar Moisés com travessias laboriosas” (Lucro com propósito e pesquisa colaborativa devem sair fortalecidos da pandemia, https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/04/lucro-com-proposito-e-pesquisa-colaborativa-devem-sair-fortalecidos-da-pandemia.shtml?origin=folha, acessado em 21/04/2020).

Infelizmente, os olhos do atraso impedem a observação de todos os fenômenos simultaneamente. São olhos do achismo, da soberba e do pensamento parcial. Os pensadores mais gabaritados enxergam a grande pintura e afirmam que o home office veio para ficar. Estes olhos enxergam lucros robustos de longo prazo.

“Acho que dá menos prejuízo ficar fechado. Está às moscas. Eu esperava algo melhor”, afirma Tito Bessa Junior, presidente da Ablos (associação de lojistas de menor porte de shoppings) e dono da rede de moda (TNG Ficar fechado dá menos prejuízo, diz dono de loja, https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painelsa/2020/04/ficar-fechado-da-menos-prejuizo-diz-dono-de-loja.shtml?origin=folha, acessado em 21/04/2020).

Na terceira parte do artigo foi abordada a primeira das microtendências da sociedade pós quarentena. Ou seja, como o comportamento individual alimentará o comportamento coletivo da sociedade e vice versa.

É fácil perceber que existe uma enorme quantidade de perguntas não respondidas sobre qual será o comportamento das pessoas e qual será o impacto do comportamento na economia brasileira.

Nos casos onde já ocorreram alguma forma de relaxamento da quarentena é possível olhar na pratica o que poderá ocorrer. É muito importante destacar neste momento que estamos falando de um futuro que não foi escrito ainda. Em outras palavras, não é possível extrapolar que está ocorrendo em algumas cidades para todo o país.

Não existem respostas prontas. No máximo existem apenas algumas tendências de comportamento que poderão ocorrer. Um bom exemplo da imprevisibilidade do comportamento é o caso do estado de São Paulo. Antes da decretação do fechamento dos shoppings, as lojas já estavam sem faturamento por vários dias.

“Empresas dizem que já estavam sem faturamento há dias, mesmo com portas abertas” (Redes de moda sentiram alívio após Doria mandar fechar shoppings, https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painelsa/2020/03/redes-de-moda-sentiram-alivio-apos-doria-mandar-fechar-shoppings.shtml).

A construção do futuro depende das respostas dos indivíduos e da sociedade para os desafios pós quarentena. Quanto for maior o grau da falta de credibilidade das autoridades públicas, maior será o medo da população em sair de casa.
Infelizmente apenas alguns líderes estão sendo capazes de transmitir conforto verdadeiro para a população. Aqui no Brasil, as lideranças transparentes e honestas são raras. Se o medo da população for muito elevado (mais de 50% das pessoas acimas de 60 anos com receio de sair de casa) isto pode desertificar os shoppings e o comercio físico.


Como ficará a dinâmica das cidades brasileiras se o transporte público transportar apenas 30% dos passageiros? Como ficará a economia local? Nas capitais mais populosas do Brasil, parar o metro significa parar a cidade. Parar a cidade de São Paulo, significa parar a economia brasileira.

“Cada vez mais a loja física vai ficar muito focada em experiência, no envolvimento do consumidor, enquanto o on-line suportará a questão de conveniência” (Para convidados do IT ForOn Breakouts, conveniência é caminho sem volta, https://cio.com.br/para-convidados-do-it-foron-breaktous-conveniencia-e-caminho-sem-volta/).


quarta-feira, 22 de abril de 2020

Mundo depois da quarentena – parte 3


“A lógica do vale-tudo e, em particular, restrições a exportação abalam a confiança no comércio internacional. Todos os países sairão da pandemia mais céticos em relação à possibilidade de importar o que não produzem, mesmo tendo contribuído para o problema ao limitar exportações e, indiretamente, incentivar os demais a fazerem o mesmo. A sensação de vulnerabilidade gerada pelos episódios de hoje imprimirá sua marca na política comercial dos próximos anos. O mundo pós-pandemia será mais protecionista (Vale-tudo no comércio internacional, https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatiana-prazeres/2020/04/vale-tudo-no-comercio-internacional.shtml, acessado em 21/04/2020).

“A executiva afirma que a multinacional iniciou a operação de sistemas em grandes clientes sem nenhum consultor presente fisicamente, uma experiência que antes deixava a impressão de que não seria possível” (Presidente de multinacional de tecnologia alerta para saúde mental no home office, https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painelsa/2020/04/presidente-de-multinacional-de-tecnologia-alerta-para-saude-mental-no-home-office.shtml)

Para quem acha que o home office não veio para ficar, segue acima o caso da SAP, onde diversas operações foram feitas remotamente. A agilidade da entrega de resultados combinada com a redução de custos incorporou a experiencia a rotina diária da SAP.

“Empresários aderem a campanhas massivas por redes sociais para atrair novos consumidores para venda online” (Pandemia força mudança no comércio online brasileiro, https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/04/pandemia-forca-mudanca-no-comercio-online-brasileiro.shtml).

“Agora, existe uma venda online, mas assistida. Muitas vezes, é um consumidor que não estava preparado para uma venda online. Isso é o tipo de coisa que muda [para sempre]. A gente nunca vai parar de fazer essa modalidade de venda. É um pouco como as empresas mudam nessa crise e como os consumidores mudam. Fonte : Roberto Fulcherberguer, CEO da Via Varejo ( CEOs veem mudança de perfil de consumidores durante a crise, https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/04/20/vendas-pela-internet-ajudaram-a-minimizar-crise-diz-ceo-da-via-varejo.htm).

Os casos da Magazine Luiza, cujo faturamento é hoje 100% do online, da B2W, controlada pelas Americanas, ViaVarejo dona da Casas Bahia, Extra.com e Ponto Frio (20 mil vendedores trabalhando em home office), C&A cujo ecommerce está crescendo em três dígitos etc. revelam que o investimento do varejo (grandes, médias e pequenas empresas) no home office está sendo realizado com vigor e intensidade.

Na segunda parte do artigo foi abordada segunda dimensão das macrotendências, ou seja, o comportamento individual das pessoas pós quarentena.

A afirmação “O medo de que as escolas se tornem um ambiente propício para provocar uma segunda onda de contaminação fez com que milhares de pais mantivessem seus filhos em casa” (Na volta às aulas, pais dinamarqueses temem mandar filhos para escola, https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/04/em-volta-as-aulas-maes-dinamarquesas-temem-mandar-filhos-para-escola.shtml#) revelou que no plano individual a quarentena ainda não acabou nos lugares onde o governo reabriu algumas atividades econômicas.

É fácil perceber que o isolamento voluntario fará parte do cotidiano das pessoas que não desenvolveram anticorpos contra o coronavírus. Estas pessoas impulsionarão com muita força a evolução da transformação digital.

Com base nas duas dimensões das macrotendências é possível estabelecer a primeira das microtendências da sociedade pós quarentena. O plano do comportamento individual alimentará o comportamento coletivo da sociedade. Existem uma infinidade de dúvidas sobre qual será o comportamento das pessoas:

  • As pessoas vão se cumprimentar como antes?
  • Elas irão aos cinemas, teatros, shows, restaurantes, shoppings e esportes?
  • Eles ficarão mais tempo em casa?
  • A demanda por imóveis maiores aumentará?
  • O comércio, ensino e trabalho online ganhará a preferência das pessoas?
  • O trânsito nas grandes cidades diminuirá?
  • As atuais empresas de tecnologia ficarão mais fortes?
  • Novas empresas de tecnologia surgirão?
  • As pessoas se acostumarão com as diferenças do mundo online?
  • Os alunos obedecerão aos professores online?
  • Será possível incorporar nas mensagens as nuances e emoções de uma conversa ao vivo?
  • O investimento em ciência e tecnologia aumentará?
  • Os especialistas serão mais escutados?
  • Como ficará a cooperação internacional depois da quebra de contratos pelos chineses e confisco de equipamentos pelos Estados Unidos?
  • A China e Estados Unidos conseguirão reverter a crise de confiança?
  • A Índia, Coreia do Sul e Japão aproveitarão as oportunidades da crise de confiança capturarão o mercado que era dominado pela China?
  • O protecionismo aumentará?
  • Qual será o novo papel do estado na economia?
  • Como os investidores do mercado de ações reagirão ao novo modelo?
  • Quais empresas sobreviverão?
  • Quais empregos desaparecerão?
  • O trabalho remoto vai gerar empregos em massa para os profissionais de tecnologia?
  • Quais oportunidades de negócio serão criadas neste mundo novo?


O plano do comportamento individual será consequência da avaliação das medidas do governo contra o coronavírus. Todos os que perderam entes queridos durante a pandemia terão atuação política contra o governo caso eles discordem das medidas que foram tomadas. Em média cada óbito gerará cem opositores ao governo. Com as redes sociais os cem iniciais poderão virar milhares e até mesmo milhões.

Isto significa que a maior parte dos políticos com baixa aprovação durante a pandemia (ou todos eles) serão levados para o ostracismo nas próximas eleições. As pessoas votarão em políticos opositores aos seus desafetos.

“Pesquisas apontam que medidas adotadas pelo governo em meio à pandemia não têm agradado japoneses” (Como a resposta ao coronavírus está derrubando a popularidade do primeiro-ministro do Japão, https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/04/17/como-a-resposta-ao-coronavirus-esta-derrubando-a-popularidade-do-primeiro-ministro-do-japao.ghtml).

No Brasil, teremos eleições em 2020 (ou 2021) para prefeitos e vereadores e em 2022 para presidente, governadores, deputados e senadores. Será muito difícil (eu considero quase impossível) para os que tiverem baixa aprovação durante a crise do coronavírus conseguirem se eleger.


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Mundo depois da quarentena – parte 2


Na primeira parte foi abordada a questão da internalização da produção na dimensão macrotendências do comportamento da sociedade depois da quarentena. O Macron está falando em refundação da França depois da quarentena. É muito forte neste momento a tendência de profundas mudanças nas políticas internas dos países (Macron anuncia retomada a partir de 11 de maio e pede 'refundação' da França, https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/04/macron-anuncia-retomada-a-partir-de-11-de-maio-e-pede-refundacao-da-franca.shtml, acessado em 15/04/20200.

As lições dos contratos cancelados unilateralmente e sem aviso prévio pelas empresas chinesas e confisco de equipamentos médicos pelos Estados Unidos abalaram profundamente a credibilidade que a comunidade internacional tinha nestes dois países (Coronavírus: EUA são acusados de 'pirataria' e 'desvio' de equipamentos que iriam para Alemanha, França e Brasil, https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52166245)

A segunda dimensão das macrotendências é o comportamento individual das pessoas pós quarentena. Todos os que tiverem adquirido anticorpos contra o novo coronavírus poderão viver da mesma forma que viviam antes da pandemia.

Eles poderão frequentar restaurantes, cinemas, shoppings sem grandes preocupações, pois não podem ser atacados pelo Covid-19 e não são agentes transmissores da doença. Para este grupo a vida segue normalmente.

Para os que não tiverem anticorpos contra o novo coronavírus as mudanças serão profundas. Será bem lenta e gradual a volta destas pessoas ao espaço público. Eles usarão máscaras e outros equipamentos de proteção pessoal.

Dificilmente elas comerão fora de casa por casa do compartilhamento de talheres e pratos. Tudo terá que ser descartável para eles.

Na volta ao trabalho estas pessoas terão atitudes de distanciamento em relação aos seus colegas. Várias empresas não têm espaço físico nas suas instalações para separar as pessoas por dois metros. O uso do banheiro terá que ser revisto. Será necessário um grande esforço de planejamento para a realização de atividades triviais no ambiente de trabalho.

Tudo isto terá custo. O que significa que o custo fixo das empresas subirá. Um caso de Covid-19 em uma empresa poderá provocar o seu fechamento. O caso do SBT é um prenúncio do que ocorrerá nos próximos meses quando for registrado um caso de coronavírus em uma empresa (Por coronavírus, Ministério Público pedirá fechamento da sede do SBT no Rio, https://natelinha.uol.com.br/televisao/2020/04/14/por-coronavirus-ministerio-publico-pedira-fechamento-da-sede-do-sbt-no-rio--143657.php).

É fácil perceber que é bastante provável que as pessoas com anticorpos contra o novo coronavírus sejam disputadas no mercado. Se todos os funcionários tiverem anticorpos então a empresa não precisará mudar nada. Ela não terá o aumento do custo fixo mencionado anteriormente. Será uma enorme vantagem competitiva. Será ético tal estratagema?

Uma alternativa de mercado será a intensificação do home office. As empresas vão contratar e manter funcionários capazes de trabalhar como uma célula autônoma.

São pessoas com boa capacidade de visão geral da execução do planejamento. A capacitação do funcionário de interagir de forma remota e em tempo real com os seus colegas para à tomada das micro decisões do dia a dia será buscada com intensidade pelo mercado.

Será um novo nível de desafio para os times. Quem tiver melhor técnico e equipe mais entrosada será vitorioso neste momento de refundação da economia mundial. Os que estão apostando na transformação digital já estão colhendo frutos das suas decisões. A venda online dos produtos da páscoa cresceu mais de 300% (Compras online crescem 18,5%; produtos de Páscoa têm alta de 322%, https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2020/04/14/compras-online-crescem-185-produtos-de-pascoa-tem-alta-de-322.htm)

“Os nervos da população ainda estão muito à flor da pele. Ao menos entre cidadãos como a senhora Sun, aposentada. Seu filho Xiaobo conta que ela não sai de casa desde o final de janeiro e ainda tem muito medo de ir para a rua” (Wuhan dá adeus ao seu bloqueio, mas confinamento ainda segue parcialmente, https://brasil.elpais.com/internacional/2020-04-08/wuhan-da-adeus-ao-seu-bloqueio-mas-confinamento-ainda-segue-parcialmente.html).

É fácil perceber que o confinamento voluntário vai afetar profundamente a dinâmica dos negócios depois da quarentena. Até o surgimento de uma vacina, apenas os que desenvolveram anticorpos contra o coronavírus viverão como viviam antes da pandemia.


quarta-feira, 8 de abril de 2020

Mundo depois da quarentena – parte 1


Neste período de quarentena estou recebendo diversos questionamentos sobre como será o mundo depois da quarentena do coronavírus. Empresários, empreendedores, investidores, profissionais liberais etc. estão usando a quarentena para preparar o seu negócio para competir em um novo modelo do mundo.

Como o assunto é bastante amplo, complexo e dinâmico, ele vem sendo discutido em diversas dimensões. A primeira dimensão é a de macrotendências da sociedade. As recentes disputas por alimentos e equipamentos médicos e de proteção entre os compradores e os vendedores protagonizadas pelos Estados Unidos, França, Alemanha, Brasil, China etc. criarão consequências institucionais no médio e longo prazo.

É muito provável que o atual modelo globalização seja aposentado. Fonte: “Países restringem a exportação de alimentos e fazem seu custo subir” (http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL640257-5602,00-PAISES+RESTRINGEM+A+EXPORTACAO+DE+ALIMENTOS+E+FAZEM+SEU+CUSTO+SUBIR.html, acessado em 08/04/2020) e “Coronavírus: EUA são acusados de 'pirataria' e 'desvio' de equipamentos que iriam para Alemanha, França e Brasil” (https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52166245).

Os países que terceirizaram a sua indústria para outros países como a China, Índia etc. vão repensar o seu modelo e provavelmente irão internalizar uma grande parte da produção terceirizada (ou toda ela). Estaremos em breve vendo a substituição das importações por produção totalmente doméstica.

É evidente que neste novo modelo, a China terá uma forte redução das suas exportações e taxa de crescimento do PIB. Ou a China encontra uma forma de acabar com os cancelamentos das entregas dos equipamentos e produtos médicos ou ela terá que enfrentar no médio e longo prazo uma brutal redução das suas exportações.

Os países importadores que dependem da China irão repensar a sua estratégia de dependência das fabricas chinesas. Estes cancelamentos em um momento tão crítico estão criando um profundo sentimento de incerteza.

Os mercadores chineses que estão quebrando contratos por conta de ofertas melhores estão pensando apenas nos ganhos de curto de prazo. No médio e longo prazo eles estão levando a sua empresa para a falência por causa da perda da confiança. Quem fará negócios com ela novamente? A mulher americana tem como lema quem trai uma vez trai sempre.

A internalização das terceirizações provavelmente aumentará os custos de fabricação por conta da menor escala de produção, isto significa, que no médio e longo prazo teremos uma pressão inflacionária. A consequência do possível aumento da inflação será a redução da velocidade de recuperação das economias.

Os Estados Unidos que estão usando uma lei criada em tempos de guerra para bloquear ou reduzir o comércio de produtos essenciais e insumos médicos poderão sofrer grandes retaliações no médio e longo prazo.

Os importadores irão também escolher a produção interna e gigantes multinacionais que caírem na tentação de maximizar o ganho no curto prazo poderão enfrentar enormes dificuldades no médio e longo prazo. Qualquer um que pense apenas no curto prazo e quebre contratos estabelecidos está cavando um poço para a sua derrocada no futuro.

Todos os que resolveram os seus problemas depois de terem acordos formais bem estabelecidos cancelados encontraram de uma forma ou de outra uma solução para o abastecimento interno. A solução sem o fornecedor revela que ele é redundante, ou seja, pode ser descartado.



terça-feira, 31 de março de 2020

Novo coronavírus e o home office - Segunda Parte


É perfeitamente possível aumentar a produtividade do Brasil através do home office. É evidente que é preciso boa vontade e esforço coletivo. Os bons exemplos estão subindo á tona com a quarentena do novo coronavírus.

O Frederico Trajano afirmou que o Magazine Luiza desenvolveu ferramentas para vender com a loja fechada. Os vendedores têm celular e podem vender sem precisar ir à loja física.

Foi revelado que a equipe de escritório em home office entregou em cinco dias o trabalho previsto para ser entregue em 50 semanas (“Exato, fizemos 50 semanas em cinco dias, meio lema JK. Apesar de estar com 100% da equipe de escritório em home office, a gente conseguiu em menos de cinco dias colocar tudo que estava faltando para poder soltar essa plataforma no ar. Tem modalidade para pessoa física e para pessoa jurídica. Pessoa física autônoma consegue vender sem sair de casa e ganhar dinheiro”. Fonte: Fomos os primeiros a fechar e não deveremos ser os primeiros a reabrir, diz presidente do Magazine Luiza, https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/03/fomos-os-primeiros-a-fechar-e-nao-deveremos-ser-o-primeiros-a-reabrir-diz-presidente-do-magazine-luiza.shtml?origin=folha, acessado em 31/03/2020).

Um outro caso de sucesso digital foi protagonizado por pequenos restaurantes. O dono de uma pequena cafeteria percebeu que não iria sobreviver com vendas online por causa do baixo valor agregado dos lanches. Ele então resolveu fechar a casa e vender todo o seu estoque divulgando as ofertas no Instagram. Em duas horas ele vendeu tudo e fez tantos pedidos para o seu fornecedor que o estoque dele acabou também. Atualmente, ele está vendendo vouchers com desconto que poderão ser utilizados quando a cafeteria reabrir (Para sobreviver, restaurante pede até para vizinho entregar de bicicleta, https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/27/restaurantes-doacao-alimentos-pereciveis-coronavirus-sao-paulo.htm).

No mesmo artigo é mencionado o caso de um pequeno restaurante que considera as taxas de delivery muito altas. A dona do estabelecimento divulgou no Instagram as oportunidades para entregadores que moram no bairro do restaurante e montou uma rede de entrega no próprio bairro com pessoas que nunca fizeram entregas na vida.

Um outro uso de home office de grande sucesso é o caso das costureiras idosas, técnicas de enfermagem e enfermeiros que não podem trabalhar por fazerem parte do grupo de risco do coronavírus e estão costurando jalecos de TNT para os profissionais de saúde (Voluntários no Recife montam 'fábrica' de jalecos em TNT para suprir faltas, https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/03/30/voluntarios-no-recife-montam-fabrica-de-jalecos-em-tnt-para-suprir-faltas.htm).

São exemplos onde o bom uso do home office está produzindo produtos essenciais para o pais na crise do coronavírus e está ao mesmo tempo gerando renda para uma cadeia produtiva.
É possível aplicar soluções similares para todas as cidades brasileiras e adaptar o sistema produtivo para gerar produtos e receitas que agregam valor. Com um bom nível de coordenação o governo brasileiro pode explorar as oportunidades geradas pelas redes sociais e criar um sistema produtivo novo que seja flexível e inteligente.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Novo coronavírus e o home office


Uma grande parte do planeta está em quarentena. É cada vez maior a quantidade de cidades que estão fechadas. Pessoas estão sendo aconselhadas ou obrigadas a ficarem nas suas casas por um grande período.

Muitas empresas estão neste exato momento percebendo por que é tão importante ter um plano de continuidade do negócio. Apenas 40% das firmas nos Estados Unidos estavam preparadas em termos de tecnologia e treinamento para trabalhar em home office.

Aqui no Brasil, a realidade é bem pior. Estamos vendo negócios sendo interrompidos porque não existem computadores disponíveis para os funcionários trabalharem em casa. Em adição ao problema do notebook temos o problema da rede de telecomunicações que não oferece boas soluções em termos de desempenho na maioria das cidades.

Com o confinamento, o pico do consumo de energia residencial mudou. Poderemos ter em breve graves problemas energéticos em paralelo ao risco de um apagão na internet. A falta do plano de continuidade do negócio fez com que a maioria dos funcionários das empresas não fosse educada para trabalhar em casa.

“Luiz Bichara, um dos maiores tributaristas do país, diz que advogados têm de estar apresentáveis” (Advogado reclama que funcionários fazem home office com pijama e 'olho remelento', https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2020/03/advogado-reclama-que-funcionarios-fazem-home-office-com-pijama-e-olho-remelento.shtml?origin=folha, acessado em 35/03/2020).

No caso do artigo acima, os funcionários foram treinados sobre as tecnologias físicas para trabalhar em casa, mas não sobre as tecnologias sociais (comportamentais). É um claro sinal de que o negócio vai afundar em pouco tempo se não ocorrerem mudanças.

Muitas das poucas empresas que fizerem um plano de continuidade do negócio morrerão durante os meses de isolamento da sociedade brasileira porque nunca entenderam que devem trabalhar tanto as tecnologias físicas como as sociais.

A maioria das empresas que não fizeram a sua lição de casa poderão morrer em breve porque não são capazes de atender os seus clientes pela internet. A falta de capacitação da corporação está levando muitos empreendedores para o desespero.

As declarações do Junior Durski mostram com clareza que as empresas deles não estão capacitadas para operar na situação de vendas exclusivas pela internet (Coronavírus: dono do Madero critica fechamento parcial do comércio, https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/23/coronavirus-dono-do-madero-critica-fechamento-parcial-do-comercio.htm).

Unidades em São Paulo operam com baixo estoque, pedem ao cliente que compre pouco e demoram mais de três semanas para entregar (Sobrecarregados por pedidos após coronavírus, supermercados suspendem delivery, https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/03/sobrecarregados-por-pedidos-supermercados-suspendem-entregas.shtml).

É fácil perceber que as fragilidades para vender exclusivamente pela internet do segmento de restaurantes são as mesmas de outros segmentos que nunca pensaram em elaborar um plano de continuidade do negócio.

Neste momento em que as pessoas estão isoladas em casa, os supermercados suspendem o seu serviço de delivery. Ou seja, não tem capacidade operacional para trabalhar com a demanda do século XXI.

No dia em que estes setores forem expostos à competição contra empresas qualificadas como por exemplo a empresa Amazon, eles irão sumir do mapa porque não entendem a importância da digitalização do negócio. A crise do coronavírus está revelando a natureza frágil das operações das empresas brasileiras.

As dificuldades técnicas e comportamentais do home office estão revelando com muita transparência o custo da falta de produtividade empresarial. É importante destacar que não é um problema apenas do mercado privado. O poder publico ainda não foi capaz de perceber como o trabalho remoto pode resolver graves problemas da pandemia do coronavírus.

“Em entrevista ao Bora SP, Lauro Michels disse que preço subiu de R$ 0,11 para quase R$ 5 – cerca de 4500%” (Prefeito de Diadema chora e denuncia aumento de 4500% no preço de máscaras, https://noticias.band.uol.com.br/coronavirus/noticias/100000985872/prefeito-do-abc-chora-e-denuncia-aumento-de-4500-no-preco-de-mascaras.html).

É notório que faltam máscaras de proteção no Brasil. O produto está em falta nas farmácias e por conta da escassez o preço está disparando. Com o confinamento da população nas suas casas surge o problema da renda. Como gerar renda em um momento tão difícil.

Muitas pessoas no Brasil têm máquinas de costura e sabem costurar, portanto podemos iniciar uma ampla produção de máscaras usando as redes sociais como infraestrutura operacional. Os Trolls montaram redes enormes de trabalho colaborado e cooperado em diversos momentos para atacar os seus desafetos. Então nós também podemos fazer. Neste caso não vamos atacar, vamos salvar vidas.

Basta encontrar 10 mil pessoas que produzam cem máscaras de pano por dia que teremos uma produção de um milhão de máscaras por dia. O governo usa a sua credibilidade para conseguir retalhos de panos das fabricas de roupas e envia para as costureiras. Elas produzem máscaras e recebem pagamento do governo. Temos geração de renda e de produtos que salvam vidas. Não é difícil encontrar caminhos no home office para gerar riqueza.

terça-feira, 17 de março de 2020

Expectativa x realidade


No Brasil são comuns as declarações públicas otimistas sobre o desempenho futuro da economia durante o primeiro trimestre. Muitos empresários, economistas e políticos entendem que o otimismo é condição suficiente para inflar o espírito animal do mercado e fazer a economia crescer. Como o Garrincha falava: "É preciso combinar com os Russos".

Este é o motivo do pibão do começo do ano virar um pibinho no final do ano. É uma prática que vem sendo executada desde o começo do primeiro governo Lulla. Foram raras as vezes em que a expectativa foi transformada em realidade.

É bem fácil perceber que o Paulo Guedes é partidário da filosofia de gerar expectativa elevada e torcer para que a sociedade acredite nela e realize iniciativas para que a previsão vire realidade. É um jogo de poucas ações e fatos e muita torcida. É claro que também é um jogo de muitas desculpas. Uma infinidade delas. Tudo é uma conspiração contra o governo.

Para refrescar a memória das conspirações vou relembrar o pessimismo de plantão que foi atacado pela Dilma Rousseff (Dilma Rousseff volta a atacar o “pessimismo de plantão”, https://exame.abril.com.br/economia/dilma-rousseff-volta-a-atacar-o-pessimismo-de-plantao/, acessado em 16/03/2020).

Estamos falando de um perfil de governante que acredita que vai ocorrer algum fato aleatório que será capaz de transformar a expectativa em realidade. Para o Paulo Guedes as reformas são soluções mágicas que resolvem todos os problemas. Inclusive o problema da inconsistência numérica das propostas apresentadas.

No slide “Com a Nova Previdência, projeção do crescimento do PIB é maior da reforma da previdência” (https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-temporarias/especiais/56a-legislatura/pec-006-19-previdencia-social/documentos/audiencias-publicas/RogrioMarinho08.05.19.pdf) apresentado pelo membro da equipe do Guedes em 2019, o crescimento projetado do PIB para o ano de 2020 pós reforma da previdência era de 2,9%. A realidade de 2020 já mostrou que o crescimento será menor que 2% (valor provável 1,4%).

Se for realmente realizado o crescimento do PIB de 1,4% pós reforma da previdência em 2020, o resultado será muito parecido com o crescimento de 2019 sem reforma da previdência.

Com ou sem reforma da previdência o investimento internacional “greenfield” (projetos novos) não está vindo para o Brasil. O Guedes dobra a aposta nas reformas afirmando que após a reforma administrativa e tributária, o capital estrangeiro virá.

Em outras palavras, para ele sempre existirá uma reforma que salvará o Brasil de um resultado medíocre. É a desculpa infinita (Guedes: PIB de 1,1% não é surpresa e reformas levarão índice a mais de 2%, https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/04/guedes-pib-de-11-nao-e-surpresa-e-reformas-levarao-indice-a-mais-de-2.htm).

A corrente de pensamento do otimismo pelo otimismo dificilmente entenderá que o capital estrangeiro não vem para o Brasil porque ele não confia no governo e nos nossos influenciadores.


Todo ano é a mesma ladainha. É prometido no começo do ano um pibão e é entregue um pibinho. O nível de credibilidade das promessas do governo é extremamente baixo. Este é o motivo do baixo volume de investimento “greenfield” no Brasil.

Inexiste no território nacional o entendimento de que as infinitas mentiras que são contadas diariamente estão minando a confiança dos investidores internacionais e nacionais.

O Brasil precisa inicialmente acabar com a crença de que a mentira vende. As inúmeras apresentações do desempenho futuro da economia brasileira em Davos mostram que nada foi combinado com os Russos.

A seguir temos um caso simples que ocorreu comigo e que revela de forma cristalina que é impossível confiar nos serviços brasileiros. Praticamente ninguém honesto e transparente faz um investimento “greenfield” em um país onde a mentira impera.

Eu tenho um celular que uso para ligações de voz e que se a comunicação de dados estiver habilitada ele navega na internet. Se eu habilitar a comunicação de dados eu pago uma tarifa diária por uso de internet para a operadora.

No dia 22 de janeiro de 2020 eu fui debitado por usar internet. Como a comunicação de dados do celular estava desabilitada eu abri uma reclamação na operadora. Após alguns dias eu recebi a seguinte mensagem: “Em atenção ao seu e-mail informo que, em sistema consta utilização na linha, sendo que somente é cobrado a tarifa diário do plano quando consta utilizar sem outro serviço para cobrir. Estou à disposição se precisar de esclarecimentos”.

A operadora afirmou que eu usei internet e confirmou que a cobrança foi correta. No dia 22 de janeiro de 2020 também eu abri uma reclamação na Anatel sobre o caso e a operadora respondeu da seguinte forma:” Mediante a análise identificamos que a realmente ocorreu uma falha sistêmica onde a promoção não foi ativada consumindo créditos de forma indevida”.

Ou seja, a operadora afirmou que ocorreu um erro sistêmico e que a cobrança foi indevida. É uma resposta em completo desacordo do que ela respondeu em caráter privado. No privado a resposta foi de cobrança correta e para a Anatel a resposta foi de erro sistêmico e cobrança indevida.

Se foi erro sistêmico então milhões de clientes foram afetados e a operadora deveria ter publicado uma nota sobre o assunto no seu website. Não publicou. Este é o real motivo do porquê o investimento estrangeiro “greenfield” não vem para o Brasil. Ou o investidor trabalha em operação recheada de mentiras ou ele é expulso do mercado.

O infinito problema de pibinho só será resolvido quando a reforma da transparência e verdade for implantada pelo Paulo Guedes. Até lá, nenhuma reforma levará o Brasil para o pibão.

terça-feira, 10 de março de 2020

Quando um chamado deve ser resolvido?


Na postagem “Nossa meta é resolver a maior quantidade de chamados” (https://www.4hd.com.br/blog/2020/03/06/nossa-meta-e-resolver-a-maior-quantidade-de-chamados/, acessado em 09/03/2020) o maior evangelizador do Help/Service Desk do Brasil (em sabedoria não em tamanho) dissecou o tema “resolver o maior volume possível de chamados dentro de determinado período”.

Apesar da relevância das ponderações elas não abordaram o que eu chamo de fator crítico de sucesso do Help/Service Desk. O objetivo pragmático do Help/Service Desk é resolver apenas os chamados quando o benefício da solução é maior que o custo do problema. O cliente ficará imensamente satisfeito quando o seu dinheiro não estiver sendo gasto em desperdícios.

A resolução de um chamado (não importa o tipo, prioridade etc.) implica obrigatoriamente na realização de um custo. Tempo é dinheiro. Energia elétrica é dinheiro. Recurso é dinheiro. Em outras palavras, para resolver um chamado é preciso gastar dinheiro.

Logo este é o custo do chamado. Por outro lado, a solução do chamado representa o seu benefício. Ou seja, antes de sair botando mãos à obra é preciso calcular o valor do benefício da solução. O benefício é o valor da eliminação do impacto no negócio.

Um exemplo simples, um chamado de um serviço (por exemplo, baseado em uma tecnologia antiga é já totalmente depreciada) que ocorre uma vez por vez custa para ser resolvido 100, mas o seu benefício, ou seja, eliminação de impacto no negócio é de 1. Isto significa que é preciso esperar 101 meses para que a relação entre o benefício e o custo seja positiva. No orçamento do ano que vêm consta à substituição deste serviço por um novo.

É fácil perceber que neste caso o chamado deve ser documentado, mas não deve ser tratado porque o custo da solução é muito maior que o benefício. O critério lógico e racional para resolver um chamado é a relação entre o seu benefício e o seu custo. 

Quando a central é terceirizada e recebe por chamado resolvido?

Na visão restrita é fácil concluir que a central deve resolver todos os chamados para maximizar a sua renda. No entanto é uma conclusão enganosa. Ao buscar a solução de todos os chamados a central terceirizada gastará dinheiro em atividades que o seu cliente não enxerga valor agregado.

Ele só vê custo. Neste caso o cliente mistura alhos com bugalhos, ou seja, os chamados com relação entre o benefício e custo positiva serão analisados da mesma forma que os de relação negativa. Como o cliente enxerga apenas um número, fatura mensal, ele vai buscar o ciclo contínuo de redução do custo. Ou seja, ele continuamente fará consultas aos fornecedores do mercado para encontrar o menor valor por chamado.

A concorrência entre os fornecedores fará com que o custo marginal de um novo chamado seja reduzido até que o lucro por chamado seja nulo, ou seja, o lucro da central terceirizada será zero e o cliente será inviabilizado. Ou a empresa trabalha de graça ou perde o cliente.

É a pior escolha possível de longo prazo porque o cliente trocará continuamente de fornecedor. Ser visto como um custo significa na prática ser visto como redundante.

quarta-feira, 4 de março de 2020

PIB Brasil bombando. Só que não.


PIB Brasil bombando. Só que não.
Investimento estrangeiro cresceu 26% em 2019 (Puxado por privatizações, investimento estrangeiro no Brasil cresceu 26% em 2019, https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/01/20/puxado-por-privatizacoes-investimento-estrangeiro-no-brasil-cresceu-26percent-em-2019.ghtml, acessado em 02/03/2020).

No Brasil é comum encontrar os mercadores de falácias comemorando enfaticamente como grandes vitórias os resultados insignificantes da economia brasileira.

Quando foi anunciado o crescimento do investimento estrangeiro, muitos mercadores amplificaram a notícia como uma grande conquista da atual política econômica nacional. Foi bradado aos quatro ventos que o país passou da 9ª para a 4ª colocação entre os maiores destinos de recursos produtivos.

Os disseminadores de falácias não apreciam os números e fatos. Eles gostam apenas de avaliações superficiais. Alegam que são pessoas simples que fazem contas de padeiro. Qualquer análise analítica é complexa para quem deseja apenas uma avaliação superficial e rápida. Não existe para eles a necessidade de consistência lógica ou coerência.

Em março de 2020, o PIB do Brasil de 2019 será anunciado. O crescimento do PIB provavelmente será algo ao redor de 1%, ou seja, crescimento praticamente nulo do PIB per capita.

Os números que já foram divulgados sobre o resultado de 2019 revelam que o desempenho da economia no primeiro ano do Bolsonaro é bem semelhante ao desempenho de 2018. Segundo o IBGE o rendimento domiciliar per capita em 2029 foi de R$ 1.438,67. Em 2018, o rendimento médio per capita por domicílio era de R$ 1.373,00 (Renda domiciliar per capita do Paraná subiu R$ 13 em 2019, segundo o IBGE, https://www.bemparana.com.br/noticia/renda-domiciliar-per-capita-do-parana-subiu-r-13-em-2019-segundo-o-ibge#.XllQnEBFyVs).

Como a inflação oficial de 2019 foi de 4,31% (Inflação oficial fecha 2019 em 4,31% e fica acima do centro da meta, https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/01/10/inflacao-oficial-fecha-2019-em-431percent.ghtml) é possível trazer para valor  presente o valor do rendimento médio per capita por domicílio do ano de 2018 (R$ 1.373,00 x 1,0431 = R$ 1.432,17).

A diferença entre 2019 e 2018 é de R$ 1.438,67 - R$ 1.432,17 = R$ 6,49, ou seja, é de 0,45% (R$ 6,49/R$ 1.432,17). Em outras palavras, o crescimento do rendimento per capta foi praticamente nulo em um ano em que o investimento estrangeiro cresceu 26%.

Se tem mais investimento então tem mais riqueza (entrada extra de US$ 15 bilhões), portando o rendimento per capta também aumenta. Opa. Tem algo errado aí. O rendimento per capta não aumentou. Chama o posto Ipiranga. Tem conta errada.
O problema da análise simples dos mercadores de falácias é que o resultado da equação é incompatível com as entradas. Uma análise consistente do Investimento Estrangeiro Direto (IED) mostra que apenas 24% dos projetos são “greenfield” (projetos novos). 76% deles são de “brownfield” (aquisição de ativos existentes). Fonte: Investimentos e investidores estrangeiros no Brasil, https://www.usuport.org.br/Opiniao/488/Investimentos-e-investidores-estrangeiros-no-Brasil.

Um exemplo de IED “brownfield” foi a venda de 100% das ações da empresa paulista Santher fabricante das marcas Personal, Sym, Snob e Kiss para as empresas japonesas Daio Paper Corporation (51%) e Marubeni Corporation (49%) por R$ 2,303 bilhões (Grupo japonês compra a dona da marca Personal por R$ 2,3 bilhões, https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/02/27/grupo-japones-compra-a-dona-da-marca-personal-por-r-23-bilhoes.htm).

Foi uma mera venda de ativos que não aumentou a riqueza total. A única mudança foi a troca de proprietários.

Quando o IED é analisado em termos de valores fica bastante claro porque o extra de US$ 15 bilhões não gerou aumento de riqueza no Brasil. Os projetos brownfield que são apenas trocas de mãos de propriedade receberam 85% do valor total do IED e os projetos “greenfield” que são na prática iniciativas de crescimento da infraestrutura e do parque industrial representaram apenas 15% do IED.

Ou seja, dos 15 bilhões de dólares extras, apenas US$ 2,25 bilhões foram destinados para projetos novos que aumentam a riqueza nacional. Fonte: Análise: como os investimentos no país reagem ao cenário econômico, https://g1.globo.com/globonews/jornal-globonews-edicao-das-16/video/analise-como-os-investimentos-no-pais-reagem-ao-cenario-economico-8357661.ghtml.

Como o crescimento vegetativo da população brasileira é de 1% ao ano fica claro porque o rendimento médio per capta por domicílio praticamente não cresceu. O impacto de US$ 2,25 bilhões em uma população acima de 200 milhões é praticamente zero.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

É Futuro da administração? Não, não é. É o presente


“A primeira refeição é vendida a R$ 4,99, sem taxa de entrega. A partir da segunda refeição, o preço é R$ 9,99, também com entrega grátis. "Cinco reais é o preço de um salgado. Como a gente vai competir com isso? Como ter lucro e servir uma refeição decente a R$ 10, sem taxa de entrega?", pergunta Alexandre Bassoli” (Como apps de entrega estão levando pequenos restaurantes à falência, https://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2020/02/08/como-apps-de-entrega-estao-levando-pequenos-restaurantes-a-falencia.htm, acessado em 18/02/2020).

Em 2018 eu participava de um grupo de gestores e constantemente recebia questões sobre o futuro da administração no Brasil. Normalmente eu apresentava a visão do futuro da administração através de um cenário onde a inteligência artificial interpenetrava todos os processos operacionais e estratégicos das empresas.

Alguns entendiam que o foco nas consequências geradas pelas tecnologias digitais era exagerado e que a real discussão deveria ser sobre o propósito da indústria ou do comércio ou da empresa. Eu entendia que tais conversas eram apenas desvio de foco do problema real e encerrava minha participação neste momento.

Outros gestores entendiam que o cenário apresentado era muito futurista para o Brasil e, portanto, os desafios citados iriam demorar décadas para chegar por aqui.  Um terceiro grupo acreditava que o cenário era apenas para as grandes empresas e multinacionais e que nunca chegaria o momento de a inteligência artificial gerar impactos nos pequenos empreendimentos.

O artigo “Como apps de entrega estão levando pequenos restaurantes à falência” (https://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2020/02/08/como-apps-de-entrega-estao-levando-pequenos-restaurantes-a-falencia.htm) revelou que o cenário projetado em 2018 chegou ao Brasil. Ele chegou para todos. Empresas de grande, médio e pequeno porte.

“Donos de estabelecimentos afirmam que não têm controle sobre a exibição de seus restaurantes nos apps e que a parceria não gera lucro” (As dificuldades de relacionamento entre restaurantes e apps de entrega, https://computerworld.com.br/2020/02/11/as-dificuldades-de-relacionamento-entre-restaurantes-e-apps-de-entrega/, acessado em 18/02/2020).

Muitos donos de pequenos restaurantes estão reclamando que estão perdendo dinheiro após entrarem no iFood. Para muitos as promoções do aplicativo estão inviabilizando a operação comercial deles.

A grande questão que todos nós devemos fazer neste momento é se o objetivo do aplicativo iFood é vender comida pronta ou é criar um gigantesco banco de dados sobre os hábitos e comportamentos alimentares dos brasileiros?

“O franqueado de uma grande rede de fast-food, que não quis se identificar, afirmou que o aplicativo faz promoções em que oferece desconto de 50% sobre o preço do milk shake, por exemplo. "O aplicativo me paga o preço cheio do produto, mas vende pela metade", diz o franqueado. Neste caso, porém, o restaurante não tem prejuízo —embora a venda na sua loja física seja canibalizada, já que o cliente vai optar pelo aplicativo” (Como apps de entrega estão levando pequenos restaurantes à falência, https://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2020/02/08/como-apps-de-entrega-estao-levando-pequenos-restaurantes-a-falencia.htm).

A resposta desta pergunta é bastante óbvia. Basta ver as promoções do aplicativo para perceber que em diversos casos o iFood está subsidiando o seu cliente, ou seja, ela paga o valor cheio da comida para o restaurante e faz a venda para o cliente por um valor bem menor.

O real objetivo da plataforma é construir um banco de dados poderoso sobre os hábitos e comportamentos alimentares dos brasileiros. A venda de comida pronta é apenas um instrumento para alcançar este objetivo.

O que o iFood pretende fazer com estas informações? A empresa tem como meta a formação de um ecossistema onde ela é o sol e os planetas gravitam ao redor dela.

Para tal ele criou o seguinte moto contínuo. Um bom aplicativo atrai usuários. Usuários geram dados. Dados melhoram o aplicativo. E assim sucessivamente.

O que o iFood pode gerar com este gigantesco volume de informações. Ele pode por exemplo vender informações para os restaurantes. Por exemplo, para esta quarta-feira é melhor oferecer um jantar do que o almoço.

A empresa iFood tem atualmente uma infinidade de dados sobre o consumo de comida pronta. Ela pode relacionar estes dados com os perfis das redes sociais, com o clima local, com datas especiais como aniversários, com dietas especiais etc.

Com os relacionamentos prontos o iFood pode vender informações para que os supermercados e os gigantes da alimentação como a Nestlé promovam os seus produtos em função dos hábitos e comportamentos alimentares das pessoas.

O iFood poderá entrar nas profundezas da cadeia produtiva e trabalhar com o sistema de logística para que o transporte de alimentos seja otimizado. Em outras palavras chegará no comércio local os alimentos que os consumidores desejam comprar em função do clima ou de outros fatores.

O iFood poderá interagir com as pessoas informando quantas calorias foram ingeridas e qual a refeição mais gostosa que a pessoa pode fazer com o seu saldo calórico.

Ele também pode atuar junto aos planos de saúde para ajudar nos programas de alimentação saudável e oferecer descontos para os beneficiários dos planos em função do cumprimento de metas. Em relação as academias e clubes pode ser oferecido um pacote de informações de alto valor agregado para as pessoas. Em função da quantidade de calorias consumidas no dia, o instrutor faz um plano de exercícios personalizado.

Na realidade existem milhares de situações onde as informações do banco de dados do iFood podem ser utilizadas para otimizar os processos de negócio dos membros do ecossistema.

Imagine a situação onde uma empresa iniciante criou um alimento que fornece a necessidade de cálcio para as pessoas acima de 50 anos. Com a base de dados do iFood esta empresa pode oferecer uma amostra do seu produto para o seu público alvo. É um custo muito menor do que fazer propaganda.

Todas estas oportunidades são geradas pela inteligência artificial do sistema. Isto significa que o iFood precisa entregar a comida em excelente estado. O grande desafio da administração moderna é como gerenciar um sistema onde algumas variáveis estão fora do domínio de controle da gestão.

A entrega da comida é feita por entregadores que não são funcionários do iFood. O objetivo dos entregadores é fazer o máximo número de entregas em um dia ao menor custo possível. Para eles se o queijo da pizza ficou em um lado só, isto não é problema deles. Ele entregou a pizza dentro do prazo combinado.

A administração do presente exige que os administradores encontrem soluções para os problemas que estão fora do seu domínio de poder. São os administradores que vão interagir com os clientes quando a pizza entregue não estiver em excelente estado.

É apenas um caso entre milhares onde existem desafios enormes que precisam ser enfrentados para que a venda de informações seja viável.

Para que o aplicativo iFood seja bom é preciso que a entrega da comida seja perfeita. Apenas desta forma o usuário será atraído e o moto contínuo será criado.