terça-feira, 25 de julho de 2017

O taxista na era do conhecimento

Todos nós brasileiros sabemos o país está atravessando a maior crise econômica da sua história. Como diria o grande molusco, nunca na história deste país um aglomerado político gerou tal volume de dificuldades. Todos os brasileiros reclamam das consequências da crise. Na cidade de São Paulo as relações comerciais entre passageiros e taxistas nunca foram promissoras. No entanto, nos últimos anos elas se deterioraram e o volume de reclamações dos passageiros vem aumentando vertiginosamente. Diariamente este relacionamento comercial enfrenta diversos conflitos. A chegada dos aplicativos como Easy Taxi (http://www.easytaxi.com/br/, acessado em 14/07/2017), Uber (https://www.uber.com/pt-BR/, acessado em 14/07/2017) e etc. não foi capaz de resolver todas as dificuldades existentes.

Claramente o sistema como um todo evoluiu e melhorou com os aplicativos, mas o volume de reclamações dos passageiros ainda é grande. Não existem dúvidas que ainda existem muitos conflitos mal resolvidos no relacionamento entre passageiro e taxista. A prefeitura de São Paulo estabeleceu em julho de 2017 novas regras para os motoristas dos aplicativos (Motoristas de aplicativos tipo Uber precisarão de curso, vistoria e placa de São Paulo, http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/motoristas-de-aplicativos-tipo-uber-precisarao-de-curso-e-placa-de-sao-paulo.ghtml, acessado em 14/07/2017). Uma das novidades é a comprovação pelo motorista da realização do curso de treinamento de condutores. Apesar do curso ser de apenas 16 horas é importante que o mesmo enfatize a necessidade do motorista em oferecer o melhor serviço possível para o passageiro consideramos que estamos vivendo no ano de 2017.

Infelizmente até o momento, o curso falhou e é preciso uma reciclagem total do conteúdo do treinamento e do comportamento dos taxistas. Qualquer pessoa que use os serviços de um taxista na cidade de São Paulo percebe que existe uma enorme limitação da qualidade. Em praticamente todas as viagens o motorista pergunta o destino para o passageiro e imediatamente começa a viagem sem nenhum planejamento. É como se aplicativos que informam as condições do trânsito nas vias públicas da cidade em tempo real como o Waze (https://www.waze.com/pt-BR/, acessado em 14/07/2017) não existissem. A era das informações só existe se as pessoas usarem as informações disponíveis.


Uma pequena atitude de planejamento como verificar as informações em tempo real do transito do trajeto pode agregar muita qualidade aos serviços oferecidos pelos taxistas da cidade são Paulo. Infelizmente parece que este não é o foco da categoria e dos treinamentos. O curso de 16 horas precisa enfatizar aos taxistas a importância do planejamento das viagens e da exploração das informações disponíveis.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Impacto da Inteligência artificial no emprego na Quarta Revolução Industrial (QRI)

Nos últimos dias o tema impacto da inteligência artificial no emprego na QRI esteve presente na pauta das minhas conversas. Muitos estão enxergando como estágio atual da inteligência artificial algo que deve demorar três décadas para acontecer na previsão mais otimista. Na previsão mais realista cinco décadas.

A inteligência artificial atual nada mais é do que a execução de um modelo da realidade pelo computador. O modelo pode ser estático com uma base de conhecimento controlada como um sistema especialista ou pode ser dinâmico com uma base de conhecimento controlada (computação cognitiva) ou com uma base de conhecimento cumulativa (computação com aprendizado profundo). Em todos os casos a inteligência gerada é limitada pelas condições de contorno do modelo.

Por exemplo, a computação com aprendizado profundo permite que o médico interaja com o computador e busque a melhor e mais recente opção disponível de tratamento personalizado para o câncer do seu paciente. Como a base de conhecimento é cumulativa, a inteligência artificial vai ser alimentada com as novidades que surgem todos os dias. Não é obrigatório neste caso que o tratamento escolhido tenha alta probabilidade de sucesso. As informações mais recentes apresentam informações sobre tratamentos que são promissores, que foram usados em alguns poucos pacientes.

No caso da base de dados controlada, as informações disponíveis vão tratar de casos que os especialistas consideraram relevantes. Neste caso, o médico vai interagir com a inteligência artificial para encontrar o tratamento com maior probabilidade de sucesso entre os tratamentos selecionados. Não é obrigatório que seja o mais recente.

É evidente que a gigantesca quantidade de informações que estão disponíveis nos dois casos é melhor explorada com a inteligência artificial. O médico não tem condições de lembrar de memória todas as alternativas disponíveis. Em geral ele vai lembrar dos tratamentos mais recentes e a melhor resposta para o caso particular de um paciente pode ser um tratamento antigo que foi pouco utilizado. Esta é a grande virtude da inteligência artificial. Ela é capaz de manipular com sucesso uma quantidade de informações bem maior que o ser humano. Ela entra não para substituir mas para complementar o trabalho intelectual do ser humano.

É fácil perceber neste ponto do texto que os empregos ameaçados pela QRI são os de baixo nível de atividade intelectual. Estes trabalhadores serão substituídos pelas máquinas. O grande desafio do treinamento dos profissionais que ficaram redundantes no processo evolutivo é o aprendizado de como pensar. Até o momento são raros os educadores que conseguem ensinar como pensar. O livro Gamification em Help Desk e Service Desk do Roberto Cohen (http://www.gamificationhelpdesk.com.br/, acessado em 07/07/2017) é um dos raros títulos em português cujo foco é ensinar como pensar.

No TED Ideas worth spreading (https://www.ted.com/, acessado em 07/07/2017) foi publicado um vídeo de um professor de escola infantil que criou uma metodologia interessante para ensinar a pensar. O professor que ensina em escolas de baixa renda na Inglaterra e na Índia propõe que os seus alunos respondam uma única pergunta. Ele escolhe um assunto de alguma complexidade e faz a pergunta em uma língua diferente da conhecida pelos alunos. Os estudantes da classe podem ser organizar em um único grupo ou grupos menores ou individualmente para responder a pergunta. O professor vai embora da classe sem dar nenhuma explicação adicional.

No vídeo os alunos encontram um caminho espetacular para responder à pergunta. Eles usaram o tradutor da empresa Google para traduzir a pergunta para a língua deles. Após a tradução eles usaram a ferramenta de busca da empresa Google para encontrar a resposta da pergunta. Este professor ensinou os seus alunos a pensarem. Eles encontraram uma metodologia para resolver um problema desconhecido por eles. É uma lição de valor inestimável.

É claro neste caso que a qualidade da resposta dos alunos está relacionada com a inteligência artificial do algoritmo tradutor. Uma boa tradução leva os alunos na direção de uma boa resposta e uma tradição defeituosa restringe a resposta. O caso revela como as pessoas vão trabalhar em regime de colaboração com a inteligência artificial dos computadores nas próximas décadas. O saber pensar da era do conhecimento suplanta o decorar da terceira revolução industrial.

Não devemos, portanto, imaginar que no atual estágio da inteligência artificial um computador vai acordar inspirado e escrever um poema ou uma sinfonia. Ele só vai desempenhar as funções previstas no modelo. Esta é a realidade atual da inteligência artificial e é muito baixa a probabilidade de superação das barreiras que limitam esta tecnologia nas próximas três décadas. O cenário onde um computador responda com mentiras a seu bel prazer está muito distante do atual estágio de desenvolvimento pelo homem da tecnologia de inteligência artificial.

Isto significa que atributos como empatia ou criatividade estão longe da realidade da inteligência artificial. Tem gente que confunde modelos que simulam estas características em condições restritas com a criação destes atributos. São coisas bem diferentes. Para que o cachorro abane o rabo para o seu pappy ou mammy, o dono vai ter que trabalhar muito para conquistar o afeto do seu bichinho de estimação. Um cão robô pode ser programado para abanar o rabo todo vez que ver o dono. São situações bem diferentes. No primeiro caso o cachorro escolheu abanar o rabo e no segundo um programa obrigou o cão robô abanar o rabo. O grau de satisfação e felicidade do dono é muito maior quando o pet escolheu abanar o rabo para ele.

Considerando as limitações da inteligência artificial é preciso encontrar os caminhos para que ela jogue a favor do time do emprego. No artigo “O conhecimento pode estar em qualquer lugar” (https://www.ninoalbano.com.br/single-post/2017/07/05/O-conhecimento-pode-estar-em-qualquer-lugar, acessado em 07/07/2017), o Nino Albano fez a seguinte afirmação: “Por isso, precisamos desenvolver novas habilidades”. E agora eu pergunto: Como faremos isso? Teremos que transformar o administrador em jardineiro”. O blogueiro infelizmente não especificou de qual tipo de jardineiro ele está falando.

Existe o jardineiro que apenas rega e poda as plantas e existe o jardineiro que tem um senso artístico diferenciado que transforma o jardim em uma obra de arte viva. O primeiro tipo será fatalmente substituído pelas máquinas inteligentes porque elas realizam o trabalho com maior eficiência e eficácia. O segundo tipo não tem o seu emprego ameaçado pela QRI, pois realiza uma profissão de vocação, onde ele expressa a sua inteligência e conhecimento no trabalho através da transformação de um gramado em uma obra de arte viva. Não é uma atividade possível para as máquinas no atual estado da arte da tecnologia de inteligência artificial.

De forma similar vamos facilmente encontrar outros empregos vocacionais que não serão ameaçados pela QRI nas próximas décadas. Os cuidadores vocacionados de idosos e de animais de estimação são exemplos claros de profissões que estão em rota exponencial de ascensão. Se um gato ou cachorro abanar o rabo para um cuidador é ele que o dono vai escolher para tomar conta do seu pet enquanto ele estiver ausente. Estou falando de profissionais com tanta vocação para a sua atividade que eles têm prazer em aprender mais e em evoluir. No instante que a minha gata miou pedindo que o cuidador desse a ração dela na sua mão eu tive a certeza de que ele é o cara. Não importa se é mais caro do que outros.  É evidente que a minha gata nunca iria miar para que um robô cuidador desse a ração dela na sua mão.  

Dentre as profissionais vocacionais que não estão ameaçadas pelas máquinas inteligentes estão os humoristas, contadores de estórias, escritores, compositores e etc. São pessoas que fazem o seu trabalho com sentimento, energia e prazer. São pessoas que tem enorme talento para pintar, escrever, cuidar e etc. Eu sei que existem robôs que escrevem roteiros de filmes ou músicas ou piadas. No entanto é preciso entender que o resultado é uma variação de um ou mais temas que fazem parte do modelo. Ou seja, não dá para falar para um robô programado para escrever piadas sobre gatos que escreva uma piada sobre um marciano.

O portal “Will Robots Take My Job?” (https://willrobotstakemyjob.com/, acessado em 07/07/2017) calcula a probabilidade de um emprego ser ocupado por um robô. É bastante claro que a evolução da tecnologia de inteligência artificial vai mudar os nossos comportamentos profissionais. No entanto, todos os que apreenderem a pensar vão ser desejados por muitas empresas. Como recado final uma fuga do tema. Que os ventos da rápida recuperação passem pelos pampas gaúchos e que em breve o Bob esteja em plena forma.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Spinner – É possível fazer mais e melhor

O tema do encontro empresarial de junho foi o fenômeno spinner (Febre nos EUA, spinners chegam ao Brasil com preços de R$ 25 até R$ 500, https://jogos.uol.com.br/ultimas-noticias/2017/06/06/o-que-sao-os-spinners.htm, acessado em 06/07/2017). O leitor não deve imaginar que gastamos três horas da nossa vida trocando receitas sobre como jogar. O objetivo da pauta era identificar as razões que nos levaram a ser um importador do produto.

Depois de uma rápida introdução do tema, a minha primeira pergunta ao grupo foi porque os spinners vendidos no Brasil são fabricados na China. Uma rápida enquete com a plateia mostrou que todos os empresários presentes sabem fabricar um spinner e alguns tem ideias bem interessantes para introduzir novidades no brinquedo.

O spinner é um brinquedo antigo cuja a patente está vencida ([Por que a criadora do spinner não enriqueceu com o brinquedo giratório, https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2017/06/16/por-que-a-criadora-do-spinner-nao-enriqueceu-com-a-febre-do-brinquedo.htm], [spinners: como uma patente ignorada se tornou sucesso de vendas mundial, http://www.administradores.com.br/mobile/noticias/entretenimento/fidget-spinners-como-uma-patente-ignorada-se-tornou-sucesso-de-vendas-mundial/119562/], acessado em 06/07/2017) e que não exige tecnologia sofisticada para a sua produção e distribuição.

É um brinquedo vendido com larga margem de lucro em São Paulo e que apresenta elevado volume de vendas. Considerando que existe uma grande ociosidade na indústria nacional e que temos mais de 14 milhões de desempregados (Número de desempregados aumenta 2,6 milhões no primeiro ano de Temer, http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/05/1888928-taxa-de-desemprego-no-brasil-chega-a-136-segundo-ibge.shtml, acessado em 06/07/2017) é difícil entender porque o Brasil não ocupa um lugar de destaque na sua fabricação e venda.

Porque os spinners vendidos no Brasil são produzidos na China era um enigma que muitos empresários não sabiam responder no encontro. Muitos ainda não perceberam que o país já está operando na era do conhecimento. A grande maioria dos adultos acha o spinner um brinquedo sem graça. Ou em outras palavras não gastariam R$ 40 neste produto. Este perfil não é diferente entre os empresários e gestores. Eles não apostaram na fabricação do spinner porque não visualizavam que o produto venderia.

As indústrias nacionais homogeneizaram tanto o perfil da sua mão de obra e concentraram tanto a estrutura de decisão em poucas pessoas que basta que o pequeno grupo de perfil comportamental homogêneo desconheça um assunto para que a empresa tome decisões equivocadas, fique defasada em relação ao mercado e perca oportunidades valiosas que estão disponíveis no mercado.

A falta de diversidade causada por vários preconceitos corporativos como o preconceito contra o cabelo branco ou de gênero ou de aparência fez com que o Brasil perdesse o mercado gigantesco do spinner. São milhões de brinquedos que são vendidos no mundo diariamente.

O caso do spinner mostrou que é preciso encarrar de frente o problema da falta de diversidade da mão de obra no Brasil. O conhecimento está em toda parte e em todas as idades, formas e gêneros. Não é possível continuar acreditando na falácia de alguns poucos iluminados vão conseguir tomar as decisões corporativas de forma correta na era do conhecimento. A China acreditou na diversidade da mão de obra e encontrou um enorme pote de ouro no final do arco-íris do spinner.

As empresas nacionais precisam sair da sua atual zona de conforto de regras envelhecidas e entender que a experiência da mão de obra mais velha permite que a empresa descubra como as pessoas idosas estão usando os produtos e serviços disponíveis no mercado e quais são as suas demandas não atendidas.


É evidente que esta regra vale para todas as faixas de idade. Por isto é tão importante que o perfil da mão de obra não seja monolítico. A diversidade permite que a empresa possa explorar diversas oportunidades que estão pipocando no mercado. Infelizmente o histórico brasileiro não permite que exista otimismo na questão diversidade. Espero estar redondamente errado e que os fatos futuros sejam promissores.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Cultura da inutilidade e do desperdício no Brasil

Mesmo vivendo uma das maiores crises econômicas da história do Brasil, o país continua desperdiçando recursos monetários valiosos. É impressionante como a falta de capacitação e de conhecimento leva as Pequenas e Médias Empresas (PMEs) a jogarem no lixo o seu restrito capital. Leitura recomendada, 'Robin Hood às avessas' define situação das micro e pequenas, http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/07/1897596-robin-hood-as-avessas-define-situacao-das-micro-e-pequenas.shtml?mobile, acessado em 04/07/2017.

As dificuldades intelectuais estão impedindo que os brasileiros enxerguem as tolices que estão defendendo. No mês de junho eu presenciei algumas tolices defendidas por pessoas de boa qualificação. Em um debate sobre a reforma política um bem-conceituado advogado atacou a falácia do voto facultativo e defendeu o voto obrigatório através do que ele chamou de modernização do significado da palavra liberdade. Para ele liberdade significa liberdade de participação onde todos são obrigados a participar.

Na argumentação deste advogado e que foi defendida por uma outra advogada presente no mesmo evento, os mais ricos vão para a praia nas eleições se o voto for facultativo e os votos radicais prevalecerão nas votações.  Ou seja, uma minoria radical vai decidir as eleições. Quando eles foram confrontados com a realidade que a chapa que venceu as eleições presidenciais de 2014 alcançou no segundo turno 54 milhões contra uma população de 200 milhões (cerca de 25% dos brasileiros) eles não souberam explicar como o voto obrigatório gerou o fenômeno da eleição ser vencida pela minoria dos brasileiros. Outras barbaridades sobre a representatividade na reforma política foram afirmadas pelos autoproclamados “especialistas”, mas este escopo foge do objetivo da postagem.

Um outro exemplo da cultura da inutilidade e do desperdício foi feito por um amigo de longa data. Ao defender o plano estratégico da estatal citada no artigo “Eletrobras tem um 'monte de safados', diz presidente da estatal” (http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/06/1895373-eletrobras-tem-um-monte-de-safados-diz-presidente-da-estatal.shtml?mobile, acessado em 04/07/2017)  ele conseguiu a proeza de afirmar que os funcionários considerados inúteis pelo presidente da empresa devem ser desligados aos poucos porque (pasmem) o meu amigo afirmou que eles são úteis.

É gostar demais de ver o dinheiro dos impostos sendo desperdiçado. A rede Starbucks da cidade de São Paulo também protagonizou a cultura da inutilidade e do desperdício. Sem que o cliente solicite ela imprime e dá para o cliente a senha da sua rede Wi-Fi. O lixo da cafeteira está lotado destes de papéis rejeitados pelos clientes. Era só perguntar e imprimir para quem pedir.

Uma situação grave de inutilidade e desperdício está ocorrendo de forma recorrente em diversas cidades no Brasil. Diariamente em diversos pontos da famosa avenida Paulista na cidade de São Paulo, encontramos pessoas distribuindo milhares de panfletos. Basta olhar nos lixos que percebemos que do jeito que o panfleto vem ele vai para o lixo. As pessoas não leem. Existem muitas explicações para o fenômeno. Uma delas é que é a propaganda já foi recebida anteriormente. Os gastos para produzir e distribuir os panfletos são inúteis e representam desperdícios de dinheiro para as PMEs.

Os empresários e gestores só repetem o que tem sido feito nos últimos vinte anos. Eles são incapazes de perceber que este estratagema para divulgar os produtos e serviços é apenas dinheiro jogado fora. Infelizmente o Brasil tem uma larga e antiga tradição de desperdício. Em 2005 foi publicado o livro “Brasil: O País dos Desperdícios” (Auriverde Inovações/2005). O autor José Abrantes destacou na obra que o país desperdiça 150% do PIB (Produto Interno Bruto, https://pt.wikipedia.org/wiki/Produto_interno_bruto, acessado em 04/07/2017) em alimentos, água, energia elétrica, desemprego, analfabetismo, doenças e lixo. Ou seja, a nação pode ser mais rica do que ela é atualmente.


É com muita tristeza que registro que passados 12 anos da publicação do alerta do pesquisador da UERJ (José Abrantes), pouco ou nada mudou em relação a cultura da inutilidade. Se nem mesmo a maior recessão da história do Brasil foi capaz de mudar o gigantesco desperdício nacional, eu não sei o que fará.  Passou da hora de mudarmos este estado das coisas. Para o bem da juventude nacional eu espero que esta postagem mude a cabeça dos gestores e empresários. Ser efetivo tem que ser o novo normal.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Livro Gamification em Help Desk e Service Desk

Um dia antes do congresso onde seria o evento de autógrafos do autor eu ganhei um exemplar da obra “Gamification em Help Desk e Service Desk” O livro aborda as várias facetas do tema. Eu achei muito interessante o autor sair dos aspectos técnicos de TI dos livros anteriores e passar a abordar um tema abrangente e geral do ensino. Certamente é uma evolução profunda.

Muitos aspectos importantes da gamificação formam abordados no livro com profundidade pelo Cohen que é o mais destacado evangelizador (ou nas palavras dele “Barão”) do Service Desk do Brasil. É evidente que ele não trata de soluções totais, pois o assunto é muito abrangente. O Roberto resumiu o conhecimento que ele entendeu ser mais relevante em 216 páginas (http://www.gamificationhelpdesk.com.br/, acessado em 30/06/2017).

Espero que o autor continue avançando o tema nos próximos livros, pois muitas perguntas ainda estão em aberto e novas perguntas surgem todos os dias. O leitor não deve imaginar que o livro é um texto que explicita as soluções. O autor escolheu a estratégia de ser formativo, ou seja, é preciso ler, refletir e continuar a leitura para entender como o propósito proposto é capaz de endereçar diversos desafios do ensino. É uma obra destinada para educadores e pessoas interessadas no ensino.

Cada releitura do livro vai levar a uma nova conscientização do fenômeno gamificação no ensino. Hoje em dia existem uma enorme gama de ferramentas à disposição dos professores, educadores e instrutores. No livro são apresentadas várias delas. É preciso interpretar o conteúdo para escolher aquela que endereça o desafio daquele momento específico. Vamos aguardar ansiosamente pelas novas incursões do autor no tema.

Uma grande supressa que autor oferece aos seus seguidores

Para os que acompanham o blog do autor (http://www.4hd.com.br/blog/, acessado em 30/06/2017) o texto da capa do livro “PROMOVENDO ENGAJAMENTO E MOTIVAÇÃO NO SÉCULO 21 EM CENTROS DE SUPORTE, HELP DESK E SERVICE DESK” é uma contradição ao que ele escreveu na postagem “Curso ITIL Foundations ainda é válido?” (“Empresas no Brazil vivem no ano 2000. Seu suporte técnico (minha praia) ainda é daquele tempo: via e-mail e telefone (sorry se você está nessa). Mecanismos talvez até de 1980. Não têm ferramentas de registro de chamados – pra início de conversa – e assim por diante.”, http://www.4hd.com.br/blog/2016/11/09/curso-itil-foundations-ainda-e-valido/, acessado em 30/06/2017). A proposta do autor no livro mostra que os desafios do ano de 2017 foram abraçados em definitivo.

Outra grande surpresa do autor

O Cohen, mostrou que abraçou nos seus trabalhos o estilo de vida do ano de 2017 e no capítulo Epílogo na página 206 do livro, o autor recomenda que os leitores assistam um vídeo muito bom sobre como poderá ser a nossa vida no futuro. Extraordinária escolha de conteúdo. No entanto, o que acontece se o proprietário do vídeo resolver tirar do ar este conteúdo? Qual será o impacto da sua ausência para os leitores do livro?

Apesar de não ser citado, eu gostaria de oferecer ao autor uma pequena sugestão para os casos onde são feitas citações para conteúdo de terceiros disponibilizados na internet. É conveniente publicar no livro uma nota do autor como a seguir:

“É importante alertar ao leitor que todas as URLs (Uniform Resource Locator) citadas no livro são de propriedade de terceiros e servem apenas como ilustração e fonte de consulta. Elas podem ser retiradas pelo criador sem aviso prévio. O autor reconhece que o risco de descontinuidade é real. No entanto, o autor e a editora enfatizam a finalidade meramente citatória das fontes de consulta. O leitor não perde nenhum dos conceitos e ideias apresentados na obra, caso as páginas da Internet citadas no livro sejam descontinuadas e por causa disto, tanto o autor como a editora estão sob todas as formas legais isentos de qualquer responsabilidade em relação à descontinuidade das URLs citadas. O entendimento do livro não exige a navegação nas URLs.”

Conclusão


O livro é leitura obrigatória para os educadores, professores, instrutores, mentores, gurus e outros facilitadores do aprendizado. Seria muito interessante que os alunos também leiam a obra. Eu estive lá e fui premiado.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Transformação digital chegou ao dia a dia das pessoas no Brasil

Em diversos momentos das minhas apresentações e palestras sobre a transformação digital eu sou interpelado por empresários e executivos afirmando que a transformação digital é coisa de país rico como os Estados Unidos e vai demorar para chegar no Brasil. Felizmente para o progresso do país, os fatos atropelaram as visões atrasadas. Entre 2016 e 2017, surgiu no Brasil o negócio lavanderia como um serviço. Os portais https://www.alavadeira.com/, https://www.omoexpress.com.br/ e http://www.lavaeleva.com.br/ oferecem serviços de lavanderia. A diferença em relação as antigas tinturarias é que os serviços das lavanderias são utilizados pelas pessoas para roupas, toalhas, cortinas, edredons e etc. e os serviços das tinturarias são utilizados para lavar o que não é possível lavar nas residências, como, por exemplo, cobertores pesados, cortinas, ternos, edredons etc.

Em resumo, a proposta das lavanderias é terceirizar o lavatório das residências. Como o tamanho das moradias é cada vez menor, o espaço ocupado pelas lavadoras, secadoras e tabua de passar roupa é disputado por outras necessidades domésticas. Por causa da falta de espaço muitas pessoas não têm as maquinas de lavanderias nos seus apartamentos. As pessoas também perceberam o elevado custo do investimento nestes eletrodomésticos e estão optando pela não realização.

É evidente que tal mudança comportamental impacta os fabricantes de lavadoras secadoras e ferros de passar roupa. Eles terão que negociar com as lavanderias que tem um poder de barganha muito maior que o consumidor residencial. Vários paradigmas da indústria terão que mudar por causa da terceirização das lavanderias. Toda esta revolução está sendo habilitada pela tecnologia de rastreabilidade das roupas que permite que o cliente acompanhe cada passo realizado nas lavanderias. Esta tecnologia transformou a tinturaria que era um negócio analógico em uma lavanderia que é um negócio digital. Como consequência da transformação a indústria de eletrodomésticos será afetada em diversos níveis incluindo a experiência do usuário e usabilidade.

No entanto, este é só o primeiro passo da grande mudança. Tal qual a AirBnB fez com a hospedagem, teremos a uberização das lavanderias. Ou seja, as pessoas que tem lavadoras e secadoras em casa com tempo ocioso vão alugar esta ociosidade para as lavanderias que deixarão de ter uma infraestrutura proprietária. Um portal provavelmente desenvolvido na tecnologia Blockchain ou Distributed Ledger Technologies (DLTs) vai explorar a ociosidade dos recursos existentes nas residências para lavar, secar e passar as roupas. É um jogo de ganha e ganha onde o proprietário do recurso ocioso é remunerado e a lavanderia é viabilizada com um nível de investimento muito menor. A facilidade de crescimento sem a necessária contrapartida de elevado capital de investimento torna o negócio exponencial.

É uma forma inteligente e moderna para reativar a combalida economia brasileira. Será possível gerar muitos empregos tanto na área de tecnologia, como na operação da lavanderia terceirizada, como na logística de transporte das roupas. No campo da logística, as bicicletas existentes podem ser utilizadas como ferramenta de geração de renda no transporte das roupas.

A região do Nordeste vem enfrentando um racionamento de água (Com seca, capitais do Nordeste têm ameaça de racionamento de água, http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/05/1880265-com-seca-capitais-do-nordeste-tem-ameaca-de-racionamento-de-agua.shtml) e a lavanderia terceirizada pode ser um poderoso elemento de eliminação do desperdício de água que atualmente ocorre nas lavanderias residenciais. Um outro ponto de atenção deve ser trabalhado neste modelo de negócio. Muitos condomínios não têm medidores individuais para a água. Isto significa que o custo da água para lavar as roupas será compartilhado de forma injusta com os outros moradores do condomínio. É mais um efeito da uberização da lavanderia e é mais uma oportunidade de negócio.

Em muito pouco tempo o modelo atual de terceirização da lavanderia residencial vai ser uberizado pelo compartilhamento dos recursos e a economia da escassez será substituída pela economia da abundância onde as perdas, desperdícios e ociosidades serão eliminadas. Da mesma forma que a AirBnB conquistou em prazo muito curto enorme evolução operacional no Brasil entre a copa de 2014 e a olimpíada de 2016 (Brasileiros lideram reservas no Airbnb para Olimpíada, http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/02/1737778-brasileiros-lideram-reservas-no-airbnb-para-olimpiada.shtml e Airbnb desperta polemica no setor hoteleiro, http://www.revistahoteis.com.br/airbnb-desperta-polemica-no-setor-hoteleiro/), a uberização da lavanderia também vai crescer exponencialmente no Brasil.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Transformação digital em cinco passos simples

No primeiro trimestre de 2017 eu participei de diversas reuniões com empresários e executivos brasileiros sobre transformação digital. Eu fui surpreendido pelo nível superficial que o assunto está sendo tratado nas organizações no Brasil. Para a grande maioria das pessoas com quem eu conversei a transformação digital significa equipar a empresa com notebooks, tablets e smartphones (em vários casos as empresas planejam a sua transformação digital pela mera substituição dos desktops por estes dispositivos) e criar Apps, bancos de dados e big data.

Basicamente estas corporações estão realizando a consagrada e fracassada prática brasileira de fazer mudanças para que nada mude. Sempre que este fenômeno ocorreu as pessoas afirmavam que a tecnologia utilizada não funcionava na cultura da empresa. Temos centenas de exemplos de soluções que não funcionaram nas empresas brasileiras. Nestes casos as diversas tecnologias bem-sucedidas no exterior ficaram desacreditadas aqui no Brasil. Parece que a transformação digital nacional entrou na estrada do fracasso.

Quando os estrategistas dos negócios pensam que o mero investimento em hardware e software é condição necessária e suficiente para a transformação digital eles reduzem o assunto ao famoso mais do mesmo, ou seja, mudar para que ficar igual. A tecnologia não é a protagonista da transformação digital. Este papel é reservado para a qualificação dos funcionários.

O primeiro passo para a transformação digital é a redefinição do escopo do negócio. É uma decisão que responde a uma necessidade do ambiente de negócios. A estratégia em uso no Brasil de focar a transformação digital em ativos de tecnologia não tem sentido prático. Simplesmente inexiste razão e relação positiva entre o benefício e o custo para empreender tantas mudanças na empresa se o escopo do negócio é o mesmo.


O caso da divisão de iluminação da Philips ilustra bem este fenômeno. A empresa é uma das maiores fabricantes mundiais de lâmpadas elétricas. No início eram lâmpadas de filamento que duravam alguns meses (na escola um professor meu afirmava que o vácuo das lâmpadas era imperfeito para que elas queimassem rapidamente). Na segunda fase vieram as lâmpadas fluorescentes que duravam cerca de um ano e na terceira fase da indústria vieram as lâmpadas de led que duram vários anos.

A Philips percebeu que tinha um grave problema no médio e longo prazo pois a elevada durabilidade das suas lâmpadas de led irá reduzir no futuro próximo demanda mundial por lâmpadas. No primeiro movimento desta percepção a empresa resolveu agregar valor as suas lâmpadas led adicionando funcionalidades como novas cores, sensores de calor e de fumaça, câmeras de vídeo e etc. Como a solução proposta de maior valor agregado não resolve o problema de redução futura do consumo por causa da elevada durabilidade do produto, a Philips resolveu fazer um segundo movimento que neste caso foi na direção da transformação digital.
A organização percebeu que os seus clientes não querem comprar lâmpadas. Eles querem comprar um sistema de iluminação que funcione. Shoppings, aeroportos, edifícios comerciais e etc. querem pagar para ter iluminação. A Philips percebeu que ela precisava redefinir o escopo do seu negócio de fabricante de lâmpadas para fornecedora de um sistema de iluminação como um serviço. Esta mudança desmaterializou os seus produtos e permitiu a sua digitalização.

Ela continua atuando como fabricante de lâmpadas mantendo assim todo o seu legado de conhecimento e ativos e virou uma operadora de sistema de iluminação como um serviço. É evidente que fabricantes de automóveis, moveis e etc. podem trilhar caminho similar ao da Philips. Com a mudança no escopo do negócio a empresa executou o primeiro dos cinco passos para a transformação digital.

O segundo passo para a transformação digital é encontrar as fontes de valor agregado para o negócio que estão escondidas pelo modelo analógico de negócio. A Philips encontrou um grande mercado que ela pode explorar como o modelo sistema de iluminação como um serviço. Ela transformou a receita incerta de vender lâmpadas para a receita certa e recorrente de vender serviços de iluminação para hospitais, aeroportos, shoppings e etc. As receitas futuras foram antecipadas com a desmaterialização dos produtos.

O terceiro passo para a transformação digital é a construção de um modelo de negócio baseado no custo totalmente variável pelo compartilhamento dos ativos e na repartição do lucro gerado pelas operações entre todos os integrantes da rede. Em outras palavras, as infraestruturas individuais de cada um dos integrantes da rede são compartilhadas entre os membros da cadeia de valor e o lucro gerado pela operação comercial é repartido. É um modelo que oferece grande flexibilidade e escalabilidade, reduz custos, volatilidades e riscos e maximiza o retorno do investimento nos ativos.

A Philips vem trabalhando com a sua cadeia de valor para que os sistemas de iluminação como um serviço sejam entregues na situação de endereçamento das necessidades dos clientes. A rede construída com empresas de todos os tamanhos permite que clientes de todos os portes e locais sejam atendidos adequadamente. O monitoramento integrado, descentralizado e remoto do sistema de iluminação permite que todos os membros da cadeia saibam quando devem atuar e o que devem realizar.

A estrutura em rede permite o crescimento em velocidade exponencial da operação sem que exista o comprometimento da viabilidade econômica dos membros da cadeia de valor.

O quarto passo para a transformação digital é o desenvolvimento de como um serviço. Em vez de vender automóveis, eletrodomésticos e etc. as empresas passam a vender os serviços que são realizados pelos produtos. As pessoas não querem com maquinas de lavar roupa e secadoras, elas querem roupas limpas. Os consumidores não querem comprar automóveis, eles querem mobilidade. Existem milhares de casos onde as pessoas querem os serviços realizados pelos produtos. Não os produtos.

A Philips fez a sua lição de casa ao criar o serviço de iluminação como um serviço. Existe um mercado potencial gigantesco para esta modalidade. É uma grande solução para shoppings, aeroportos, hospitais, condôminos e etc. não ter que se preocupar com lâmpadas. As empresas que contratam a Philips para trabalhar o sistema de iluminação podem focam as suas energias nas suas atividades principais de negócio e deixar para um especialista a gestão da iluminação.

O quinto e último passo para a transformação digital é pensar os produtos ofertados como uma plataforma. O envolvimento da comunidade é de importância fundamental para o sucesso da empreitada digital. Por exemplo o retorno dos passageiros do aeroporto sobre as falhas na iluminação permite que a Philips economize milhões de dólares por ano em ferramentas sofisticadas de monitoração do ambiente iluminado. Muitos sensores podem ser substituídos pela colaboração da comunidade que informa onde existe excesso ou falta de iluminação.


Este ponto exige que a empresa use a sua credibilidade e confiabilidade no engajamento das pessoas em torno de uma causa. O Massive Transformative Purpose (MTP) é a cola que une empresa e comunidade em torno de um objetivo comum. A Philips trabalha o seu MTP para que todos busquem o objetivo de iluminar adequadamente o ambiente com o menor custo possível para a natureza. 

terça-feira, 21 de março de 2017

Mais uma crise de confiança no Brasil

Muitas vezes as crianças enfrentam punições coletivas nas escolas quando uma parte dos alunos da classe fez tanta bagunça na sala de aula que o professor ou diretor pune todos da mesma forma, porque não tem informações para individualizar a culpa. Alguns acham que o fenômeno da punição coletiva é consequência da sociedade humana. Não é. A natureza pune coletivamente também. Basta um vizinho sujismundo para que toda rua ou bairro seja atacada pelo mosquito transmissor da dengue por exemplo. Simplesmente não importa o cuidado individual das pessoas nestes casos. É por isto que tais situações são descritas como inteligência coletiva.

No ano de 2016, a Samsung enfrentou uma grave crise com as explosões da bateria do smartphone Galaxy Note 7. A empresa optou por assumir a culpa e retirar o produto do mercado antes que os consumidores perdessem a confiança na marca. Ela amargou um enorme prejuízo com a medida. No entanto, o prejuízo foi muito menor do que seria causado por fingir que não existia um problema grave.

Quando o ministro da agricultura do Brasil optou por fazer declarações públicas no sentido de diminuir a operação da polícia federal conhecida como carne fraca ele imediatamente gerou a reação dos maiores mercados internacionais de paralisar as compras de carnes do Brasil. As declarações do ministro aumentaram as incertezas e reduziram a confiança no Brasil (Blairo vê 'fantasias' e 'idiotice' na operação Carne Fraca, http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,maggi-critica-pf-e-diz-que-insinuar-papelao-misturado-a-carne-e-idiotice,70001706124, acessado em 21/03/2017). A declaração do Blairo Maggi de que as investigações vão tomar outro rumo, gerou um nível de desconfiança tão elevado no mercado que a crise econômica da carne cresceu exponencialmente de tamanho.

A reação negativa do mercado internacional foi imediata e a do mercado nacional ganhou forte impulso. Infelizmente, o governo brasileiro escolheu uma estratégia oposta da Samsung com smartphone Galaxy Note 7 e ampliou as perdas. (China suspende importação de carne brasileira e pede explicações, https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2017/03/20/china-suspende-importacao-de-carne-brasileira-e-pede-explicacoes.htm, acessado em 21/03/2017) e (Países decidem suspender a importação ou a venda de carne do Brasil, https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2017/03/20/uniao-europeia-barra-importacao-de-carne-das-empresas-investigadas-pela-pf.htm, acessado em 21/03/2017)

O setor de inteligência do governo (espero que ele exista) precisa agir imediatamente em conjunto com as empresas e realizar ações para aumentar a reputação das exportadoras de carne. Uma das ações para aumentar a confiança nos agentes sérios do mercado é a introdução do Distributed ledger technologies (DLTs) ou Blockchain na cadeia produtiva da carne.


A completa rastreabilidade da cadeia produtiva permite identificar com muita facilidade a qualidade dos produtos. É possível saber o que foi utilizado, o que foi executado em cada uma das etapas do processo produtivo, acompanhar os selos de inspeção da qualidade e identificar a atuação de todos os fiscais envolvidos. Ao existir um rodízio de fiscais nas diversas etapas e existir posição de consenso nas aprovações e do controle de qualidade interno é possível oferecer de forma irrefutável um selo de qualidade da carne exportada.


A ação do ministério da agricultura não pode ser em momento algum a diminuição do trabalho da polícia federal. Ela tem que ser na linha de aumentar a confiabilidade da cadeia produtiva. As empresas precisam realizar mais ações para separar quem é sério e honesto e gastar menos com propagandas nos jornais e televisões. Espero que as perdas economias abram os olhos das corporações na direção de que elas precisam usar as tecnologias disponíveis para aumentar a transparência. Só assim vai ficar claro quem trabalha direito e é de confiança. Estes não reclamarão e nem temerão as ações da polícia federal.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Desafios do Big Data no Brasil

Eu venho pesquisando sobre Inteligência Artificial (IA) desde o ano de 1986. São mais de trinta anos de estudos, pesquisas e trabalhos. Naquele tempo, o acesso para as aplicações de IA estavam restritas para um grupo pequeno de pessoas e elas eram bastante limitadas. O livro "Inteligência Artificial Usando Linguagem C" do Herbert Schildt, publicado em 1989, edição em português pela editora McGraw-Hill do Brasil foi um dos primeiros livros que apresentaram aplicações práticas para a inteligência artificial em português.

No capítulo 9 (Parecendo Humano), o Herbert Schildt apresenta os conceitos de uma aplicação famosa na época de diagnóstico médico chamada ELIZA, baseada na psicologia rogeriana que foi criada pelo Joseph Weisenbaum. Com base nos conceitos do ELIZA, o autor desenvolveu o programa Doutor. No livro foram apresentados os códigos em linguagem C das várias versões do aplicativo.

Passados quase trinta anos é fácil perceber que as principais preocupações do Schildt para a inteligência artificial ainda estão presentes no nosso dia-a-dia. É evidente que temos à nossa disposição uma quantidade muito maior de recursos e que as aplicações de IA deixaram de ser restritas e limitadas e passaram a incorporar a rotina de todas as pessoas. Aplicações de diagnóstico médico estão disponíveis via internet, por exemplo.

Uma das faces da inteligência artificial é o Big Data. É uma tecnologia que vem sendo incorporada na operação da maioria das empresas nacionais. São sistemas de compras, vendas, recrutamento de funcionários e pessoas, entre outros que fazem parte da rotina corporativa.

As análises dos dados do Big Data muitas vezes são feitas por algoritmos computadorizados e recebem uma camada de refinamento realizada por analistas humanos. Ainda não veio à tona, mas em breve virá, a questão do impacto do Big Data na sociedade humana.

Pode parecer estranho para muitos, mas o Big Data reflete o que uma sociedade tem de bom e de ruim. Por exemplo, em uma sociedade como a brasileira em que existe preconceito no mercado profissional contra a mulher as análises Big Data dos sistemas de recrutamento vão perpetuar inadvertidamente o atual comportamento de oferecer salário menor para a mulher para o mesmo cargo ocupado por um homem. As análises do Big Data do Comportamento do consumidor em lojas também estão sendo impactadas pelos preconceitos existentes na sociedade brasileira.

Isto ocorre porque a base de dados analisada é distorcida pelos comportamentos atualmente existentes. Em alguns casos estaremos trabalhando com bases distorcidas por causa do preconceito contra um determinado gênero, ou contra uma determinada raça, ou contra o cabelo branco (idade), ou contra uma determinada aparência ou etc. Antes de iniciar uma análise do comportamento pelo Big Data é preciso ajustar as bases de dados para que elas não reflitam os preconceitos existentes na sociedade brasileira.
A nossa sociedade é a campeã mundial dos mais diferentes tipos de preconceitos. O principal é a renda. Uma análise de Big Data que tente prever o comportamento futuro do consumidor que seja baseada em uma base de dados repleta de preconceitos vai gerar previsões que não irão se concretizar. Investimentos grandiosos serão perdidos por conta destas distorções.

A IA não é capaz de corrigir as graves distorções da sociedade brasileira. Aliás ela age no sentido contrário, ou seja, de aprofundar as distorções. Ainda os computadores precisam da inteligência humana para tomarem boas decisões. É preciso olhar a tecnologia Big Data com olhos no que está sendo coletado para evitar a perda de bilhões de reais no futuro.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Negócios pós CES 2017

A CES 2017 como era esperado foi preponderante nos temas relacionados com a inteligência artificial, computação cognitiva e aprendizado das máquinas. É bastante claro que a comunicação verbal entre as pessoas e as máquinas será a nossa forma de interação com os computadores nos próximos anos. A linguagem natural será vastamente utilizada e desenvolvida.

Mais uma vez o Brasil está em um momento de escolha no assunto tecnologia de informações e comunicações. O país pode olhar para a CES 2017 e encarar como uma oportunidade para desenvolver soluções de reconhecimento de voz em português e crescer com as tecnologias emergentes ou pode escolher o mesmo caminho que vem trilhando sem sucesso por décadas. Ou seja, esperar que outros desenvolvam uma tecnologia de reconhecimento de voz em linguagem natural e entrar no jogo de forma atrasada.

Computadores, drones, robôs e diversos dispositivos vão conversar com as pessoas em linguagem natural nos próximos três anos. Pode parecer perfumaria para alguns, mas não é. Estes dispositivos vão interagir com as pessoas desempenhando papéis como cuidadores e acompanhantes de enfermos, idosos e crianças. Todos os sistemas públicos bancados com dinheiro dos impostos terão enormes ganhos de produtividade com a computação em linguagem natural.

O sistema de saúde pode reduzir o seu custo através da inteligência artificial. Os especialistas passarão a ter certeza que o tratamento está sendo seguido à risca pelo paciente aumentando assim a chance de sucesso. A companhia dos robôs servirá para que as pessoas enfermas possam ser ajudadas em atividades como ir no banheiro, tomar banho ou fazer uma caminhada. Como tudo estará sendo monitorado e os robôs rapidamente perceberão as necessidades e irão intervir em tempo real.

É evidente que em 2020 muito desta tecnologia será embrionária. E ainda teremos robôs trabalhando com as pessoas nestas atividades. Não devemos ver a inteligência artificial funcionando de forma autônoma durante vários anos. Ela vai trabalhar em conjunto com as pessoas durante décadas até que ela possa ser autônoma. Os robôs e outros dispositivos estarão presentes nas escolas, nas ruas, nos hospitais, nas casas, nos clubes e etc. de forma crescente nos próximos anos.


A interação na nossa língua natural respeitando os regionalismos é uma pré-condição para que o Brasil possa usufruir dos benefícios oferecidos pelas novas tecnologias. Estamos diante de uma grande e histórica decisão. Espero que as autoridades estejam preparadas para fazer as melhores escolhas.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A era do User eXperience (UX)

A experiência do usuário contemporânea exige o domínio do conhecimento de disciplinas como usabilidade, ergonomia e ciências cognitivas para assegurar que os usuários dos sistemas digitais consigam explorar na pratica as oportunidades geradas pelas facilidades desenvolvidas. O profissional que desenvolve a experiência do usuário trabalha com pesquisas realizadas junto aos usuários, com a heurística e com a prototipagem para criar um modelo estatístico da usabilidade da aplicação que gere uma espiral positiva para aumentar a qualidade da experiência do usuário.

Durante muito tempo, a engenharia considerou a usabilidade de uma aplicação como um fator menos importante do que a tecnologia desenvolvida. A organização de desenvolvimento entendeu por décadas que a experiência do usuário era um opcional interessante, mas era apenas um opcional. O objetivo mais importante era criar um produto que funcione. A comparação do desempenho era realizada entre um produto que funciona e um que não funciona. O sucesso de um desenvolvimento era entregar um produto funcionando. Inexistia no ambiente de desenvolvimento a preocupação com a usabilidade.

Para o negócio não era importante a capacidade do consumidor usar facilmente o produto. Até o final da era da tecnologia (ano de 2008), os executivos das empresas desenvolvedoras de tecnologia acreditavam que era mais importante oferecer um produto com centenas de facilidades sem usabilidade alguma, do que oferecer um produto com poucas facilidades com usabilidade elevada.

Na era da tecnologia, não era considerado um problema o sofrimento dos usuários para usarem os produtos digitais. A engenharia de empresas, como Apple, Microsoft e Sun Microsystems, determinava unilateralmente um conjunto de regras que os consumidores deveriam seguir rigorosamente. As empresas iniciantes de Internet que sobreviveram ao estouro da bolha do ano de 2000 estavam insatisfeitas com a ditadura da tecnologia e iniciaram uma corrida por talentos para derrubar as barreiras criadas contra a usabilidade e experiência do usuário.

No começo do século XXI, empresas como Google, eBay, PayPal e Yahoo iniciaram uma revolução no desenvolvimento de códigos e aplicativos. Posteriormente, a revolução da usabilidade foi incorporada pela nova geração empresas iniciantes como Twitter, Facebook, Instagram e etc. A geração Facebook de empresas iniciantes desenvolveu as mídias sociais com foco tanto na usabilidade e experiência do usuário, como na especialização da tecnologia. Estas empresas iniciantes enterraram e sepultaram a era da tecnologia.

A intensa competição entre as várias mídias sociais criadas fizeram com que as firmas buscassem novos aspectos de diferenciação dos seus produtos. Como o custo marginal unitário da tecnologia caiu para aproximadamente zero, as aplicações ganharam saltos exponenciais de usabilidade. O mundo pós 2010 começou a viver a nova era do conhecimento. Os projetos de experiência do usuário foram catapultados ano após ano para patamares cada vez mais elevados. Nasceu neste momento a era dos Apps. Eles eram facilmente lançados em um mercado altamente competitivo. A experiência cognitiva dos usuários na interação com a aplicação é o principal fator da explicação do crescimento e sobrevivência do aplicativo. A seleção natural da experiência do usuário determinou a morte de muitos Apps.

A era da experiência do usuário determina que produtos excelentes criam uma ótima experiência fim-a-fim. Não são produtos apenas usáveis. São produtos usáveis, sedutores, agradáveis e inspiradores. As redes sociais bem-sucedidas como YouTube, Airbnb, Flipboard, Square, Pinterest, Etsy, Path, AboutMe, Slideshare são soluções bem projetadas.

Os fabricantes Apple e Samsung brigam com intensidade elevada pelas patentes de usabilidade. Eles querem oferecer emoções únicas para os seus clientes através dos seus produtos. A empresa Microsoft desenvolveu o Windows 8 e 10 para surpreender os seus consumidores. Empresas como a BlackBerry praticamente desapareceram do mercado por causa da experiência fim-a-fim pobre dos seus usuários. Estas firmas mostraram ao mundo que falhas na usabilidade e experiência do usuário matam um produto líder de mercado.

O que é a de experiência do usuário?

User eXperience Design (UX ou UXD) é uma disciplina focada no projeto da experiência fim-a-fim de um usuário ou consumidor de um determinado produto. Para projetar a experiência é preciso planejar e atuar em relação a um determinado conjunto de características para mudar o comportamento do público alvo na interação com o produto.

O trabalho do projetista de UX é resolver os problemas dos usuários ou consumidores através da identificação de uma solução agradável, sedutora e inspiradora. O resultado do trabalho é medido através das métricas que descrevem o comportamento do usuário. O projetista de UX usa o conhecimento e os métodos descritos pela psicologia, antropologia, sociologia, informática, desenho gráfico e industrial e ciência cognitiva.

O projeto de uma experiência é em outras palavras, o planejamento da mudança do comportamento do público alvo. O processo consiste da identificação do problema e da destruição dos paradigmas usando uma ou mais metodologias de desenvolvimento de projetos.

Um projeto de experiência do usuário é realizado na intersecção da arte e da ciência. A UXD exige tanto a análise analítica, como a criatividade. Por exemplo, quando um analista de UX está criando uma tela de um aplicativo, ele considera as necessidades das pessoas que vão usar o software, testa a interatividade das alternativas disponíveis e identifica a solução que desperta o interesse das pessoas em usar o aplicativo por causa da experiência única proporcionada.


O objetivo do trabalho é fazer com que os usuários usem o software com o dobro do entusiasmo em relação a sua versão anterior. O analista de UX interage com a melhor solução para endereçar os problemas da maior parte do público alvo. O resultado é medido através do comportamento do usuário. Em outras palavras, a otimização gerada pela experiência do usuário é uma solução para um problema genérico alavancado através melhorias iterativas. As empresas iniciantes bem-sucedidas respiram a cultura da experiência do usuário.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Ransomware na era pós verdade (eufemismo para mentira)

O mundo da era pós verdade é um ambiente em que existem mudanças digitais profundas. Um dos aspectos mais importantes desta nova ordem social é a cibersegurança. As informações armazenadas nos computadores, nuvens e outros dispositivos são ativos valiosos que precisam ser protegidos contra olhos indiscretos. Tanto as políticas de cibersegurança públicas e privadas precisam de elevada transparência e competência. As pragas virtuais da família do ransomware estão em alta porque atacam o centro nervoso da cibersegurança. Acessar as informações dos sistemas diariamente faz parte da rotina diária de todas as empresas e qualquer coisa que impeça este acesso gera um problema econômico de grande envergadura.

O ransomware captura as informações armazenadas e impede o acesso dos legítimos proprietários. Os malfeitores exigem o pagamento de um resgate em moeda virtual para libertar as informações. Como a maioria dos sistemas produtivos, o ransomware tem na logística o seu maior custo. Distribuir uma praga virtual exige o enfrentamento de diversas barreiras. No entanto, os malfeitores estão esbanjando criatividade. Em alguns casos eles estão trocando o pagamento do resgate das informações pela ação da vítima de espalhar a praga virtual para quatro ou cinco novas pessoas. Não é preciso ser um especialista em segurança para perceber o aspecto explosivo de tal estratégia de distribuição.

A velocidade de ataque destas pragas virtuais ganha com tal estratagema crescimento exponencial e as pessoas passarão a serem atacadas por fontes que elas julgam serem confiáveis. Existe um potencial econômico negativo gigantesco em tal situação, pois uma enorme incerteza vai permear o mercado digital. As pessoas terão que desconfiar tanto das fontes confiáveis como das inconfiáveis.

No caso brasileiro de baixa qualidade na cibersegurança, o drama é de elevada gramatura. Falta no Brasil a cultura da segurança digital. Isto significa que o país pode ser em breve castigado por diversos eventos de cibersegurança. Infelizmente no Brasil existe uma estrada digital aberta para a disseminação de pragas de ransomware. No trem e metrô na cidade de São Paulo os vendedores ambulantes vendem pendrives e cartões de memória de 32 Gbytes por 5 reais. O preço é extremamente convidativo. Em particular eu tenho dúvidas que o preço de venda permita a aferição de algum lucro. Sem entrar no mérito da procedência destes dispositivos imagine o que aconteceria se os mesmos estivessem contaminados com um ransomware escondido no seu driver de instalação.

Milhares de computadores e dispositivos digitais serão contaminados. Muitos computadores que trabalham em rede VPN (Virtual Private Network) serão contaminados. Milhões de computadores corporativos serão contaminados. Espero que demore muito tempo para que as facções criminosas percebam que podem cometer crimes mais lucrativos ao migrarem as suas ações para o mundo digital. Elas podem facilmente dominar a logística da distribuição dos ransomwares e capturar um mercado bilionário por conta da falta de cultura de segurança do brasileiro. O crescimento das moedas virtuais e Blockchain no país é um facilitador para eles.


Tanto o governo, como as autoridades de segurança, como a sociedade precisam com urgência rever os aspectos que facilitam a disseminação do ransomware no Brasil. Pode ser tarde se tais medidas forem procrastinadas. Os danos financeiros são de elevada monta e segmentos de mercado podem ser destruídos. É preciso tratar o assunto com atenção e carinho.