terça-feira, 17 de março de 2020

Expectativa x realidade


No Brasil são comuns as declarações públicas otimistas sobre o desempenho futuro da economia durante o primeiro trimestre. Muitos empresários, economistas e políticos entendem que o otimismo é condição suficiente para inflar o espírito animal do mercado e fazer a economia crescer. Como o Garrincha falava: "É preciso combinar com os Russos".

Este é o motivo do pibão do começo do ano virar um pibinho no final do ano. É uma prática que vem sendo executada desde o começo do primeiro governo Lulla. Foram raras as vezes em que a expectativa foi transformada em realidade.

É bem fácil perceber que o Paulo Guedes é partidário da filosofia de gerar expectativa elevada e torcer para que a sociedade acredite nela e realize iniciativas para que a previsão vire realidade. É um jogo de poucas ações e fatos e muita torcida. É claro que também é um jogo de muitas desculpas. Uma infinidade delas. Tudo é uma conspiração contra o governo.

Para refrescar a memória das conspirações vou relembrar o pessimismo de plantão que foi atacado pela Dilma Rousseff (Dilma Rousseff volta a atacar o “pessimismo de plantão”, https://exame.abril.com.br/economia/dilma-rousseff-volta-a-atacar-o-pessimismo-de-plantao/, acessado em 16/03/2020).

Estamos falando de um perfil de governante que acredita que vai ocorrer algum fato aleatório que será capaz de transformar a expectativa em realidade. Para o Paulo Guedes as reformas são soluções mágicas que resolvem todos os problemas. Inclusive o problema da inconsistência numérica das propostas apresentadas.

No slide “Com a Nova Previdência, projeção do crescimento do PIB é maior da reforma da previdência” (https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-temporarias/especiais/56a-legislatura/pec-006-19-previdencia-social/documentos/audiencias-publicas/RogrioMarinho08.05.19.pdf) apresentado pelo membro da equipe do Guedes em 2019, o crescimento projetado do PIB para o ano de 2020 pós reforma da previdência era de 2,9%. A realidade de 2020 já mostrou que o crescimento será menor que 2% (valor provável 1,4%).

Se for realmente realizado o crescimento do PIB de 1,4% pós reforma da previdência em 2020, o resultado será muito parecido com o crescimento de 2019 sem reforma da previdência.

Com ou sem reforma da previdência o investimento internacional “greenfield” (projetos novos) não está vindo para o Brasil. O Guedes dobra a aposta nas reformas afirmando que após a reforma administrativa e tributária, o capital estrangeiro virá.

Em outras palavras, para ele sempre existirá uma reforma que salvará o Brasil de um resultado medíocre. É a desculpa infinita (Guedes: PIB de 1,1% não é surpresa e reformas levarão índice a mais de 2%, https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/04/guedes-pib-de-11-nao-e-surpresa-e-reformas-levarao-indice-a-mais-de-2.htm).

A corrente de pensamento do otimismo pelo otimismo dificilmente entenderá que o capital estrangeiro não vem para o Brasil porque ele não confia no governo e nos nossos influenciadores.


Todo ano é a mesma ladainha. É prometido no começo do ano um pibão e é entregue um pibinho. O nível de credibilidade das promessas do governo é extremamente baixo. Este é o motivo do baixo volume de investimento “greenfield” no Brasil.

Inexiste no território nacional o entendimento de que as infinitas mentiras que são contadas diariamente estão minando a confiança dos investidores internacionais e nacionais.

O Brasil precisa inicialmente acabar com a crença de que a mentira vende. As inúmeras apresentações do desempenho futuro da economia brasileira em Davos mostram que nada foi combinado com os Russos.

A seguir temos um caso simples que ocorreu comigo e que revela de forma cristalina que é impossível confiar nos serviços brasileiros. Praticamente ninguém honesto e transparente faz um investimento “greenfield” em um país onde a mentira impera.

Eu tenho um celular que uso para ligações de voz e que se a comunicação de dados estiver habilitada ele navega na internet. Se eu habilitar a comunicação de dados eu pago uma tarifa diária por uso de internet para a operadora.

No dia 22 de janeiro de 2020 eu fui debitado por usar internet. Como a comunicação de dados do celular estava desabilitada eu abri uma reclamação na operadora. Após alguns dias eu recebi a seguinte mensagem: “Em atenção ao seu e-mail informo que, em sistema consta utilização na linha, sendo que somente é cobrado a tarifa diário do plano quando consta utilizar sem outro serviço para cobrir. Estou à disposição se precisar de esclarecimentos”.

A operadora afirmou que eu usei internet e confirmou que a cobrança foi correta. No dia 22 de janeiro de 2020 também eu abri uma reclamação na Anatel sobre o caso e a operadora respondeu da seguinte forma:” Mediante a análise identificamos que a realmente ocorreu uma falha sistêmica onde a promoção não foi ativada consumindo créditos de forma indevida”.

Ou seja, a operadora afirmou que ocorreu um erro sistêmico e que a cobrança foi indevida. É uma resposta em completo desacordo do que ela respondeu em caráter privado. No privado a resposta foi de cobrança correta e para a Anatel a resposta foi de erro sistêmico e cobrança indevida.

Se foi erro sistêmico então milhões de clientes foram afetados e a operadora deveria ter publicado uma nota sobre o assunto no seu website. Não publicou. Este é o real motivo do porquê o investimento estrangeiro “greenfield” não vem para o Brasil. Ou o investidor trabalha em operação recheada de mentiras ou ele é expulso do mercado.

O infinito problema de pibinho só será resolvido quando a reforma da transparência e verdade for implantada pelo Paulo Guedes. Até lá, nenhuma reforma levará o Brasil para o pibão.

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