quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Como a IA pode aumentar a inflação

Apesar do potencial desinflacionário, há uma preocupação crescente de que, no curto e médio prazo, o boom de IA esteja criando pressões inflacionárias em pontos específicos da economia.

 

Os investimentos trilionários em infraestrutura (data centers, redes, chips avançados e fontes de energia) elevam a demanda por bens de capital e insumos críticos, pressionando a alta de preço desses componentes.

 

Os analistas de grandes bancos apontam que os custos de chips de alta performance e energia em regiões com forte concentração de data centers têm subido rapidamente, fenômeno que pode se traduzir em inflação de custos para toda a cadeia ligada à computação em nuvem e IA.

 

Muitas empresas dependem desses serviços para operar e parte dos aumentos pode ser repassada para o consumidor final em forma de preços mais altos de produtos e serviços digitais.

 

Os investidores alertam que o entusiasmo com a IA se combinou com os estímulos fiscais e monetários em várias economias, o que pode acelerar a inflação pelo crescimento da demanda agregada e da valorização dos ativos e das ações.

 

No cenário em que os bancos centrais reduzem juros e há uma forte expansão do crédito e investimento, o boom da IA gera um ambiente propicio para a pressão inflacionária, especialmente no caso da oferta de bens e infraestrutura não acompanhar o crescimento da demanda.

 

Curto prazo x longo prazo

 

No curto prazo, o efeito da IA sobre a inflação tende a ser ambíguo e heterogêneo. De um lado, há ganhos de eficiência imediatos em tarefas administrativas, atendimento ao cliente e análise de dados, o que pode reduzir custos e do outro lado, há choques de investimento em infraestrutura, alta de preços de chips e energia e excesso de otimismo que impulsiona aumento dos gastos e crescimento do crédito.

 

Os custos associados com a expansão da IA (energia mais cara perto de grandes centros de dados, aumento da demanda por semicondutores avançados e investimento pesado em equipamentos) estão elevando os custos em vez de reduzi-los, ou seja, inflação da demanda em patamar superior às metas dos bancos centrais.

 

No longo prazo, o impacto da IA é desinflacionário pela elevação da produtividade total dos fatores, ou seja, a ampla adoção dilui os custos iniciais de hardware e energia e o ganho de eficiência passa a dominar, permitindo que os setores reduzam os custos e aumentem a oferta sem pressionar os salários e insumos.

 

IA, empregos e salários

 

Uma dimensão central do debate é a relação entre IA, empregos e salários, que também influencia a inflação. Se a IA substituir uma parte relevante do trabalho humano em determinadas funções, isso pode reduzir as pressões salariais em diversos segmentos da economia, limitando um canal clássico da inflação de custos.

 

O atual momento da IA é descrito como um boom de lucros sem empregos, ou seja, as empresas conseguem aumentar os lucros e a produção sem contratar proporcionalmente mais trabalhadores.

 

O poder de barganha dos trabalhadores diminuiu, o que tende a conter os aumentos salariais generalizados e, portanto, a inflação de salários.

 

A IA cria nichos novos de empregos de alta qualificação com forte demanda por especialistas, ou seja, inflação salarial localizada em profissões ligadas a ciência de dados, engenharia de software, segurança cibernética e áreas correlatas.

 

A inflação salarial setorial normalmente não se traduz imediatamente em inflação ampla, mas pode pressionar os custos em empresas altamente dependentes de talentos escassos.

 

O efeito da IA sobre emprego e renda influencia a demanda agregada, ou seja, se a automação deslocar muitos trabalhadores sem adequada recolocação ou rede de proteção, o consumo das famílias pode crescer menos ou até cair, criando uma força desinflacionária  em certos cenários.

Se a IA impulsionar o aumento de renda e dos lucros distribuídos, a demanda agregada pode crescer, podendo criar um choque na oferta de bens e serviços e aumentar a inflação.

 

Políticas públicas e bancos centrais

 

Bancos centrais e autoridades econômicas começaram a analisar explicitamente o papel da IA em suas avaliações de produtividade, mercado de trabalho e inflação.

 

A IA altera a forma como se mede a produtividade, a composição do emprego e a dinâmica de preços em diversos setores, o que exige mudanças na análise de ciclo econômico.

 

Se os formuladores de política acreditarem que a IA é fortemente desinflacionária, podem aceitar períodos mais longos de inflação abaixo da meta ou ser mais cautelosos ao subir juros, sob o argumento de que ganhos de produtividade conterão pressões de preços.

 

Se perceberem que o boom de investimentos em IA alimenta bolhas de ativos, eleva o custo dos insumos e sustenta a inflação acima da meta, podem optar por juros mais altos por mais tempo, restringindo o crédito inclusive para projetos de IA.

 

Gestores de grandes fundos já destacam que a combinação de estímulo fiscal, gastos em infraestrutura de IA e tensões geopolíticas (como tarifas e restrições a exportação de chips) compõe um ambiente em que a inflação por IA aparece como um risco relevante para os próximos anos.

 

Isso não significa que a IA é a causa da inflação, mas que ela faz parte de um conjunto de fatores que podem manter a inflação resistente, especialmente se o custo de energia e dos semicondutores estiverem pressionados.

 

A IA e a inflação estão ligadas por múltiplos canais: produtividade, custos de investimento, mercado de trabalho, energia e expectativas de política econômica.

 

A tecnologia tende a ser desinflacionária no longo prazo, mas, no caminho, o ciclo de investimentos e choques de insumos pode criar episódios em que o boom de IA contribui para as pressões inflacionárias.

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